Curta-metragem 45 graus: mulheres, negritude e transexualidade

Uma mãe cis descobre que sua filha trans está muito doente e decide visitá-la, depois de muito tempo distantes. Em um leito de hospital, a encontra fragilizada, com as unhas pintadas, e rememora a cena em que a viu escondida dentro de uma geladeira, quando criança, pintando as unhas. A mãe, nesse instante, retira o esmalte das unhas da filha doente e potencializa o conflito dessa relação.

O quarto fica na Praça da Sé, em um hospital ao ar livre, fato que incomoda muito a mãe, que teme olhares e atitudes das pessoas que passam por ali. Em um misto entre ficção e realidade, desenrola-se um complexo reencontro, que coloca em praça pública reflexões sobre mulheres, negritude, transexualidade, identidade e preconceito, temas muito atuais, e que encontram na arte a possibilidade de se reinventarem e se livrarem das representações do senso comum.

45 graus é um projeto de curta-metragem da diretora Julia Alquéres. Ela tem enfrentado dificuldades para realizá-lo por falta de recursos. Por isso, o projeto está com uma campanha de financiamento coletivo no Catarse.

O mercado do audiovisual também reflete o machismo da sociedade e costuma designar papéis específicos as mulheres. Menos de 20% dos filmes lançados nos últimos 20 anos foram feitos por mulheres. Porém, um levantamento da Agência Nacional de Cinema (Ancine), mostra que 41% das obras brasileiras tiveram produção executiva exclusivamente feminina.

Na avaliação de Maria Cardozo, diretora artística e curadora do Fincar – Festival Internacional de Cinema de Realizadoras, é possível encontrar semelhança entre o papel reservado à mulher na sociedade e o reflexo disso no mercado audiovisual. “No entendimento de uma sociedade machista, a mulher vem para organizar, cuidar do grupo. É como se a relação de produção, que é uma gestora de equipe, tivesse relação com uma gestora de família, como um papel que cabe à mulher, e não como autora e protagonista. Os números revelam de fato o que eu consigo visualizar no meio em que eu trabalho. E é uma questão mundial”.

Para saber mais um pouco sobre as mulheres nesse mercado e divulgar a iniciativa desse curta-metragem, conversamos com a diretora Julia Alquéres:

Imagem do trailer do curta-metragem "45 Graus" de Julia Alquerés.
Imagem do trailer do curta-metragem “45 Graus” de Julia Alquéres.

1. Pelo trailer, ficamos curiosas, por que a atriz Diana não aparece no vídeo dando depoimento?

Quando gravamos os depoimentos deste vídeo, ainda não tínhamos escolhido a atriz para o papel da paciente, mas precisávamos finalizá-lo para participar de um edital. Aliás, foi muito difícil encontrar uma mulher trans negra, com mais de 30 anos, em São Paulo. Recorremos ao Facebook, páginas feministas, movimentos LGBTI e negro, entre outros meios com foco em minorias; também falamos com ativistas trans e conhecidos que trabalham com teatro, mas o retorno foi escasso. Alguns contatos surgiram por meio do Hospital das Clínicas, no Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual, e do Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais do Centro de Referência e Treinamento DST/Aids-SP, no bairro Santa Cruz. Mesmo nestes lugares, encontramos pouquíssimas trans negras. Uma questão para se pensar.

O passo seguinte, depois que encontramos a Diana, era fazermos um ensaio na Praça da Sé, aproveitar para gravar o depoimento dela e incluir tudo no vídeo, numa versão para colocarmos no Catarse. No dia do ensaio, no entanto, tivemos problemas de produção e só tivemos tempo de gravar o teste de uma das cenas do curta. Como já estávamos com tudo preparado para lançar a campanha de financiamento coletivo, optamos por deixar o depoimento da Diana para um segundo vídeo, que foi lançado essa semana.

Vale lembrar também que até agora tudo foi feito sem recursos financeiros e, por vezes é difícil encontrarmos dias em que a equipe e os equipamentos estejam disponíveis para fazermos gravações.

2. A proposta de filmar ao ar livre é uma linguagem cinematográfica recente? Há interações com as pessoas na rua?

Não saberia dizer se é uma linguagem recente, acredito que não, tenho tendência a achar que tudo já foi feito. A ideia é criar ao ar livre cenários que poderiam muito bem ser montados em estúdios, ou mesmo dentro de uma casa e de um hospital (espaços do filme).

Para o curta, que aborda grupos socialmente excluídos (mulheres, negras e trans), achei que poderia ser instigante e poético expor estas exclusões, e não fechá-las, excluí-las ainda mais dentro de lugares cercados por paredes. Assim, a ficção roteirizada estará, de maneira proposital, suscetível a interferências e interações, numa mistura de ficção e aquilo que costumamos chamar de documentário.

3. Vimos que o projeto é feito em sua maioria por mulheres. Como vocês veem o mercado audiovisual brasileiro atualmente, especialmente para curta-metragens?

Não saberia falar especificamente do mercado de curtas, mas do audiovisual de maneira geral. Acho que temos dois problemas fundamentais: representação e representatividade. As mulheres são representadas de uma forma muito estereotipada, ainda bastante sexualizadas, e uma das causas é a falta de mulheres roteiristas e diretoras.

Segundo um levantamento da Agência Nacional de Cinema (Ancine), divulgado neste ano, só 23% dos roteiros são escritos exclusivamente por mulheres, e na direção a participação é ainda menor: 19%.

Há ainda uma divisão sexual forte no audiovisual, em que os homens ocupam as funções de maior decisão. Nós mulheres também devemos ocupar essas posições, é um problema não termos mulheres escrevendo sobre mulheres e também sobre outros temas.

E, se pensarmos sobre a presença da mulher negra, tudo fica ainda mais complicado, porque elas não estão nas telas nem atrás delas. Uma pesquisa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), aponta que atrizes pretas e pardas representaram apenas 4,4% do elenco principal de filmes nacionais de maior bilheteria, exibidos entre 2002 e 2012.

4. O que motivou a escolha de retratar uma relação entre mãe e filha?

“(…) Vem sempre dar à pele o que a memória carregou, da mesma forma que, depois de revolvidos, os destroços vêm dar à praia.”

Lembro-me deste trecho de um texto do poeta Luís Miguel Nava, que aproxima pele e película cinematográfica. Acho que não tenho uma resposta lógica para esta pergunta. A reação da família, quando percebe que uma filha ou um filho não se reconhece com o gênero que atribuíram (compulsoriamente) a essa pessoa quando nasceu, apareceu muito forte em praticamente todas as falas das pessoas transgêneras com as quais conversei. São imagens que vivem reaparecendo em mim, então senti necessidade de reinventar o filme desta memória, falando perto de uma mãe que não entende a transição de sua filha.

5. Como vocês veem o tema da transfobia nas produções audiovisuais atuais?

No audiovisual mainstream é pouco abordado, principalmente no Brasil. E, quando aparece, costuma ser de forma questionável, como no clipe da música “Your Armies” de Bárbara Ohana, em que o ator Cauã Reymond representa uma trans. Isso gera a reprodução de discursos errados, como a ideia de que trans é um homem que se veste de mulher, quando mulher trans não é homem. Novamente, temos um problema de representação e de representatividade. Quantas pessoas trans escrevem, dirigem e representam?

Mas há alguns anos em nosso país estão surgindo iniciativas de curtas que abordam o tema da transfobia, o problema é que ainda ficam restritos a festivais de gênero e sexualidade, e são vistos por um público muito segmentado.

6. Escolher uma mulher trans para fazer o papel de filha é uma preocupação com representatividade?

Com certeza! Se temos dados preocupantes sobre a presença de negras e negros no audiovisual brasileiro, em relação as pessoas trans nem dados nós temos – eu pelo menos não conheço. Mas tenho também uma preocupação com a representação de pessoas trans. Parafraseando a cineasta vietnamita Trinh T. Minh-ha, gostaria de falar perto e não sobre. Para mim, branca e cis, habitar o filme com todas as minorias que ele aborda (mulher, negra e trans) é uma maneira de tentar falar perto. E falar perto é também um jeito de aproximar o cinema da poesia; estas duas artes podem estar muito mais próximas do que imaginamos e essas aproximações todas me interessam.

Mas, para realizar este filme, precisamos do apoio das pessoas. Pretendemos conseguir parte dos recursos por meio de campanha de financiamento coletivo no Catarse, que fica até 12/08 no ar: www.catarse.me/45graus.