Diversidade de corpos não pode ficar só no slogan

Texto de Flávia Durante.

A nova campanha da marca de roupas C&A mostra total falta de tato e responsabilidade. Pode ser linda, sexy, plus size, curvilínea, sim. Gorda, jamais! Mais um exemplo de grande marca querendo surfar na onda do empoderamento feminino e da diversidade sem incluir de fato pois, o plus size da C&A é até tamanho 48.

O problema de uma campanha mentirosa – não nas palavras, mas na imagem – é que ela reafirma para todas as mulheres que AQUILO é o aceitável de ser gorda. Quer dizer então que ser magra é só se você vestir 38? Qualquer coisa acima do corpo de uma modelo de passarela, já pode ser considerada gorda?! OI?!?! Na verdade, o bonito pra gorda é na verdade ser magra… DE NOVO, GENTE?! Quando vamos parar?  Onde vamos parar? C&A e a propaganda ENGANOSA: close erradíssimo! Por Ju Romano.

Não iria mais falar sobre esse assunto mas só pra colocar um ponto final.

Em todas as camadas da sociedade, as mudanças só acontecem pois as pessoas “mimizentas” compram briga para depois todas poderem desfrutar de suas conquistas. No caso do universo da moda plus size no Brasil foram as blogueiras, empreendedoras e modelos “briguentas” que pressionaram e lutaram para que nosso país tenha hoje um mercado que movimenta mais de 6 bilhões de reais/ano.

Se dependesse do mundo brasileiro da moda — que despreza quem não é 36 — ainda teríamos como única opção lojas de “tamanhos especiais” com roupas horríveis e nomes medonhos como “A Porta Larga” e “A Gorda Elegante” ou a seção de gestantes das grandes redes.

Entendem agora porque questiono tanto a indústria de moda plus size sobre as modelos escolhidas? Eu não aguento mais ver modelos ampulheta que são apenas curvilíneas tentando vender roupa pra GORDA. Sim, GORDA: aquela que tem banha que pula pra fora do jeans, rolinho nas costas, bração, peitão, bundão, barrigão, coxão e etc; aquela mulher que veste uma saia ou um vestido e fica com aquela marca de barriga, sabe? Essa gorda. É pra ela que essas marcas vendem, pois é ela quem precisa desesperadamente de roupas adequadas, então compra em lojas plus size, mas é ela que é renegada porque não tem o “padrão gordo aceitável” que se estabeleceu. Eu fico pra morrer, sério! C&A falha ao tentar representar mulheres gordas em nova campanha publicitária. Por Paula Bastos.

Não sou formada em moda, não tenho 20 anos de experiência nisso e entrei nesse meio por acaso com o Pop Plus, por necessidade própria. Sou gorda, sou jornalista (em 2009, convoquei um dos primeiros encontros de blogueiras plus size quando fui editora de Lifestyle do portal Virgula) e tenho ótima memória. Lembro muito bem de cada momento que proporcionou esse crescimento. E, spoiler, não foi com tapinhas nas costas e “melhor do que nada”:

– Criação dos primeiros blogs brasileiros de moda plus size, o Blog Mulherão, Poderosas Gordinhas, Grandes Mulheres e Beleza Sem Tamanho, por volta de 2008. Todas já questionavam a falta de informação de moda no Brasil para esse segmento.

– Volta da modelo Fluvia Lacerda ao Brasil em 2009, para ajudar a fomentar uma indústria nacional. Fluvia também comprou muita briga na época criticando a qualidade das roupas e muita gente não gosta dela até hoje por isso. Nem por isso ela deixou de trabalhar muito no Brasil, fazendo campanha para várias marcas daqui.

– Criação do Fashion Weekend Plus Size em 2010, evento fundamental na evolução da moda plus size nacional.

Campanha #PorTamanhosMaiores, encabeçada pela Alcione Ribeiro Matsumoto em 2010. O objetivo era mobilizar as grandes lojas de departamento a oferecerem em sua grade de confecções peças maiores que o tamanho 48.

Campanha #46nãoentra, criada pela Paula Bastos em 2012, quando foi descoberto que só blogueiras que vestiam até 46 poderiam para entrar no Fashion Hits.

– Paula Bastos, comprando brigas federais com a revista Glamour e a rede de roupas Marisa. A Marisa tanto ouviu as reclamações que hoje oferece a mais completa linha plus size em suas lojas. Agora a briga é outra, fazer com que a rede coloque as gordas na vitrine e no primeiro andar!

Muita coisa melhorou de lá pra cá, isso é fato, mas ainda falta muito e não é passando a mão na cabeça que as mudanças vão continuar acontecendo. Eu também já recebi muitas críticas no Pop Plus nos últimos 4 anos, por vários motivos, pois antes a maioria das lojas só atendia até o 50/52, mas procuro ouvir e evoluir.

Como militante da aceitação corporal eu me sinto incrédula com as fotos e os dizeres, vocês sabem o que é ser GORDA? Creio que não e vou ajudar vocês nessa: Ser gorda é ser preterida em empregos e também em relacionamentos, é ter sua saúde questionada por todas as pessoas, é pensar antes de sair de casa se o lugar aonde vai irá te “caber” (literalmente viu? Cadeiras, catracas e muitas outras coisas não nos cabem). Ser gorda é estar à margem da moda e nem mesmo marcas que dizem investir no plus size caber, por sinal C &A vocês sabiam que existem uma parcela imensa de gordas que não cabem no tamanho 54? Ser gorda é resistir e viver em um mundo em que a sociedade, o tempo todo, tenta nos moldar, quando digo nos moldar é nos mais diversos modos. Por que vocês usaram uma modelo não magra para a chamar de gorda? Carta Aberta à C&A. Por Kali Fonseca.

São as marcas que têm que se adaptar ao público e não o público que tem que parar de reclamar senão os empresários param de investir. Com o mercado de moda quebrando no Brasil e o plus size só crescendo, só vai parar de investir nesse segmento quem estiver rasgando dinheiro. Não é o caso, né?

Pela milésima vez, o problema não é com a palavra ‘gorda’ e muito menos com a modelo da campanha, que é uma excelente profissional e sem dúvida alguma, uma das melhores do segmento curvy no Brasil. O problema é com a atual campanha da C&A, por ter usado o conceito de diversidade de corpos sem oferecer uma grade abrangente de fato. E com o hábito raso de tachar toda crítica de “mimimi”. Empatia não é apenas mais uma tendência passageira da moda, pratique você também!

Autora

Flávia Durante é jornalista, DJ e criadora do Pop Plus, feira de moda e cultura plus size que acontece desde 2012 em São Paulo. Esse texto foi publicado em seu perfil do Facebook no dia 09/09/2016.