#BlogFem entrevista candidatas feministas: Margarida Marques

Estamos publicando uma série de entrevistas com candidatas a vereadoras de várias cidades brasileiras, que declaram-se feministas, com o objetivo de publicizar propostas e incentivar maior participação das mulheres na política.

Margarida Marques é candidata a vereadora pelo PSOL na cidade de Fortaleza/CE.

Coligação: PSOl/PCB. Página no Facebook: Margarida Marques.

1. Você pode fazer um resumo sobre sua trajetória política até essa candidatura?

Inicio minha militância em 1979 na igreja progressista, na teologia da libertação. Participei do movimento secundarista. Fui da juventude operaria católica, a partir de onde me tornei sindicalista e fui dirigente nacional. Meu encontro com o feminismo acontece ainda na juventude, porém nossa tradição de esquerda sobrepunha a classe como centralidade. Desde alguns anos minha atuação passa pela luta em defesa de direitos humanos. Trabalhei por 10 anos no Centro de Defesa da Criança e do Adolescente- Cedeca Ceará. Atualmente integro o Inegra- Instituto Negra do Ceará, onde me reencontro com a luta feminista na perspectiva da luta anti racista e anticapitalista.

Entre as ações que o Inegra desenvolve atualmente, realizamos um projeto de formação politica com mulheres do Presidio feminino. Na sua maioria são presas provisórias, que sofre violência desde a abordagem passando por todo o tempo de detenção, a maioria é negra e pobre e portanto, em acesso a justiça. Também sendo a maioria detida por trafico. Muitas delas por conta dos relacionamentos. O Inegra compõe o Forum Cearense de Mulheres.

2. Quais você considera que são os principais problemas a serem enfrentados pelas mulheres hoje?

Parto do lugar que me encontro: mulher, negra, que vive na periferia de Fortaleza, num dos bairros mais violentos. É difícil fazer uma hierarquia, mas sem duvida a violência em suas diferentes dimensões impacta muito fortemente sobre as mulheres. Desde a violência doméstica, naturalizada e invisibilizada, a exclusão e desigualdade que faz com que as mulheres que vivem na cidade de Fortaleza estejam mais vulneráveis  exposta, dai o não acesso a saúde, educação, moradia digna, mercado de trabalho vão se somando. São as mulheres as que mais sofrem com este contexto de violências. seja de maneira direta, seja por restar às mulheres assumir as dores de perder filhos ou visita-los nos centros educacionais ou presídios.

3. Qual tema feminista você tentará ter como foco caso seja eleita?

Sem dúvida que é preciso pensar a partir de um tema, mas sempre pensando que devemos articular diferentes dimensões de nossas realidades. Assim, acho que o direito a cidade a partir da perspectiva feminista pode ser este ponto de partida. Redesenhar a cidade para tornar possível a vida de milhares de mulheres hoje alijada de seus direitos e dai a garantia do acesso a saúde, moradia digna, educação que devem ser articulado com o debate aborto seguro, violência, diversidade. Dar expressão a estes temas uma vez que hoje a câmara municipal tem uma maioria conservadora e fundamentalista, avançando na proposição de politicas públicas.

4. Quais as dificuldades em ser uma candidata feminista no sistema político brasileiro?

Estar candidata tem feito com que eu pense muito sobre nossas tarefas neste momento politico. Há distancias ainda grandes entre o movimento de mulheres e uma grande parcela das mulheres não organizadas. Precisamos reconhecer isso para traçar estratégias de dialogo, de formação e de organização. Mesmo que sejam as mulheres as maiorias nos movimentos sociais, ainda não somos maioria como referências politicas. Ainda não somos reconhecidas pelas mulheres para representa-las. Basta ver a quantidade de mulheres pobres, segurando bandeira de homens e mulheres que são machistas, racistas e homofóbicas. Quantas ainda trocam o voto por uma cirurgia de ligação de trompas?( esses dias uma mulher jovem, gravida me pediu se podia ajula-la com uma ligação de trompa).

Há uma descrença grande e uma desconfiança imensa dos e nos políticos e isso recai sobre as candidatas mulheres e sobre as feministas. Nossas pautas neste contexto de ataques aos direitos e as liberdade enfrenta grande obstáculos. Debate sobre família tradicional, escola sem partido, direito a vida, direito ao corpo, intolerância, gênero, orientação sexual, aborto…torna-se temas de resistência nestes tempos cinzas.