#BlogFem entrevista candidatas feministas: Albanise Pires

Esse mês, estamos publicando uma série de entrevistas com candidatas a vereadoras de várias cidades brasileiras, que declaram-se feministas, com o objetivo de publicizar propostas feministas e incentivar maior participação das mulheres na política.

Albanise Pires é candidata a vereadora pelo PSOL na cidade de Recife/PE.

Coligação: PCB/PSOL. Página do Facebook: Albanise Pires.

1. Você pode fazer um resumo sobre sua trajetória política até essa candidatura?

Nasci no Recife, nos primeiros anos da ditadura militar e desde muito jovem me inquietava diante das injustiças sociais, da desigualdade e de todas as formas de opressão. Em meados dos anos 80, ingressei no movimento estudantil quando estudava Engenharia na Escola Politécnica de Pernambuco.

Nessa época, me filiei ao PT e participei ativamente da primeira candidatura do ex-presidente Lula, em 1989 até a vitória em 2002. A partir daí as contradições e disputas internas do partido acirraram-se, levando-me à desfiliação em 2004, vindo a contribuir para a fundação do PSOL em junho do mesmo ano. Desde então, componho a direção do PSOL-PE, ocupando hoje a posição de Presidenta Estadual da sigla; sou Secretária de Comunicação na Executiva Nacional do partido e membro do Setorial Nacional de Mulheres do PSOL, tendo participado como militante, dirigente e coordenadora das campanhas do PSOL em 2006, 2008 e 2010.

Em 2012, me candidatei a vice-prefeita do Recife na chapa da Frente de Esquerda PCB/PSOL e em 2014 disputei vaga para o Senado Federal pelo PSOL. Atualmente, sou candidata a vereadora do Recife e desejo construir um mandato das mulheres e para as mulheres, pois acredito que uma cidade segura e saudável para as mulheres é uma cidade segura e saudável para todas as pessoas. Tudo isso também como uma alternativa de enfrentar o contexto de avanço do conservadorismo e de ameaça aos direitos conquistados a duras penas pela população brasileira.

2. Quais os principais problemas a serem enfrentados pelas mulheres hoje?

É fato que o avanço da onda conservadora — que se materializou no impeachment da Presidenta Dilma — ataca direta e primeiramente a nós, mulheres. Há uma articulação machista, misógina, racista e LGBTfóbica que, insatisfeita com as conquistas dos últimos anos, tenta impedir o avanço das pautas ditas progressistas e atacam diretamente os direitos de mulheres, negras e negros e [comunidade] LGBT.

Neste momento, é fundamental construir uma unidade de resistência que seja capaz de impedir que os direitos por nós conquistados sejam retirados, e ainda para que as políticas afirmativas sejam implementadas e ampliadas. É preciso qualificar e ampliar as unidades de atendimento à mulher vítima de violência ao mesmo tempo em que se combate a cultura do estupro que se instaurou em nossa sociedade. É preciso ampliar a oferta de creches, na mesma medida em que se garante qualificação profissional para todas as mulheres. É preciso repensar a lógica sob a qual temos construído nossas cidades, com ruas escuras, espaços desertos, ausência de policiamento.

3. Qual tema feminista você tentará ter como foco caso seja eleita? 

Certamente, o foco do nosso mandato será a questão da cidade segura para as mulheres. Porque essa questão envolve uma série de políticas transversais, que perpassam pela saúde, pela educação, pela qualificação, emprego e renda, pela habitação, pelo lazer, pela cultura, enfim, pela construção de um espaço urbano seguro e saudável para as mulheres, compreendido em toda sua complexidade. A cidade é um organismo, um organismo adoecido, especialmente quando tratamos das pautas das mulheres. Por esse motivo é fundamental que possamos pautar essas questões nas instituições políticas.

4. Quais as dificuldades de ser uma candidata feminista no sistema político brasileiro?

Ser mulher e disputar espaços de poder é sempre bastante difícil; às mulheres sempre reservou-se o privado, enquanto o público era espaço masculino. Por isso, seja qual for a iniciativa de disputa política teremos que enfrentar a naturalização do machismo e da misoginia que sequer garante fala para as mulheres.

No Congresso Federal, por exemplo, cerca de 10% das vagas é ocupada por mulheres, enquanto que somos mais de 52% da população. No Recife, a situação é bastante parecida, das 6 mulheres que ocupam cadeiras na Câmara Municipal, 2 compõem a bancada fundamentalista. É preciso enfatizar que não basta ampliar a atuação feminina, é preciso ampliar a atuação e representação feminista.

No PSOL, nós conseguimos, após ampla discussão, garantir a paridade de gênero em todas as instâncias de direção do partido e agora acreditamos que é hora de levar essa luta para além do âmbito partidário. O machismo está nas nossas casas, nas ruas, nos partidos, nas escolas, nas universidades, nos ambientes de trabalho, na política e, por isso, o feminismo também precisa estar em todos esses espaços; é fundamental valorizar e empoderar a luta de cada companheira que se dispõe a enfrentar o machismo onde quer que atue e garantir que elas tenham vez e voz no poder Legislativo.