#BlogFem entrevista candidatas feministas: Maira Pinheiro

Estamos publicando uma série de entrevistas com candidatas a vereadoras de várias cidades brasileiras, que declaram-se feministas, com o objetivo de publicizar propostas e incentivar maior participação das mulheres na política.

Maira Pinheiro é candidata a vereadora pelo PT na cidade de São Paulo/SP.
Coligação: PT/PDT/PR/PROS. Página no Facebook: Maira Pinheiro.

1. Você pode fazer um resumo sobre sua trajetória política até essa candidatura?

Comecei minha militância no movimento estudantil, na Faculdade de Direito da USP. Fiz parte do centro acadêmico e de projetos de extensão e estágios voltados para pauta do cárcere e dos direitos humanos, e também do combate à violência doméstica. Sou filiada ao Partido das Trabalhadoras há sete anos e faço parte da Juventude do Partido. Também fui secretária-geral da União Estadual dos Estudantes de São Paulo.

Com a gravidez, me engajei na luta pela humanização da assistência ao parto e nascimento, e decidi ajudar outras mulheres em suas experiências com a maternidade trabalhando como doula e me envolvendo com o empreendedorismo materno. A decisão da candidatura veio da vontade de fazer uma política diferente, do nosso jeito, com a cara da juventude e do protagonismo das mulheres, que acredita em horizontalidade, na construção coletiva e na importância de sermos felizes e vivermos bem, seja através da militância, seja na militância, seja esse o objetivo da militância.

2. Quais você considera que são os principais problemas a serem enfrentados pelas mulheres hoje?

São vários. O machismo nos expulsa dos espaços públicos, dos espaços de poder, de diversas formas. Precisamos enfrentar várias barreiras para sermos levadas a sério, para sermos ouvidas. Nossas pautas são tratadas como se não fizessem parte da “política geral”, da “grande política” e isso se torna uma barreira na hora de levar um olhar sobre gênero de forma transversal para as políticas públicas e ultrapassar a fronteira dos projetinhos. E aí, o fato de não estarmos tão presentes assim nos espaços de poder faz com que homens tenham que decidir que um olhar sobre a condição de vida das mulheres deve estar presente em todas as políticas públicas.

Mesmo dentro da militância existe uma divisão sexual do trabalho, em que cabe às mulheres o trabalho de base e a realização de determinadas tarefas. Dentro do PT ainda temos ao menos a conquista da reserva de vagas para mulheres em todas as instâncias do partido, mas isso por si não resolve o problema da subrepresentação. As campanhas femininas são subfinanciadas (as jovens mais ainda) e a falta de estrutura contribui para nossa invisibilização. Mas seguimos resistindo.

3. Qual tema feminista você tentará ter como foco caso seja eleita?

O olhar sobre a condição de vida das mulheres estará presente em todas as nossas lutas. Defendemos a autonomia das mulheres para o pleno exercício de seus direitos reprodutivos. Como não dá pra legalizar o aborto através da vereança, lutaremos para que o serviço de aborto legal seja oferecido no SUS sem violência obstétrica ou estigmas e revitimização.

Também lutaremos por uma assistência ao parto e nascimento que seja humanizada, pautada no respeito aos direitos humanos, na autonomia e no protagonismo da mulher. Isso se dá através de formação e sensibilização de profissionais de saúde, adequação da ambiência nos hospitais e criação de mais casas de parto e centros de parto normal, equipes de parto domiciliar e doulas pelo SUS e criação de grupos de gestantes e de pós-parto nas UBSs.

Também lutaremos por políticas públicas de apoio à amamentação, através do incentivo a lactários, do atendimento individualizado nos primeiros dias, do incentivo às mães a seguirem com a amamentação mesmo quando as crianças ingressam na creche. As creches aliás também são uma pauta importante, defendemos creches sem terceirização, verdadeiramente públicas, e uma educação que seja laica, de qualidade, voltada para o desenvolvimento da criança e para a cidadania e o pensamento crítico, construída com a participação da comunidade, sem mordaças, ao contrário do que buscam projetos fascistas como o Escola sem Partido.

Também estamos trazendo a bandeira do empreendedorismo e da economia solidária com recorte específico para as mulheres. Em tempos de crise e de precarização do trabalho, a economia solidária se coloca como uma alternativa (não panacéia) para garantir a autonomia financeira das mulheres, inclusive como forma de saída de situações de violência e de relacionamentos abusivos. Também defenderemos a ampliação da rede de proteção a mulheres vítimas de violência.

4. Quais as dificuldades em ser uma candidata feminista no sistema político brasileiro?

Uma candidata feminista compra muitas brigas. Em tempos de avanço do conservadorismo, falar em aborto, em autonomia, em protagonismo das mulheres pode chocar, mas isso não nos impedirá de ocupar os espaços. Nos querem belas, recatadas e do lar, desempenhando os papéis de acordo com o script do patriarcado, e quando nossas narrativas desviam desse script, o machismo tenta a todo custo nos colocar de volta naquele que seria o “lugar de mulher”. Se for mãe solteira então, vai ser o tempo todo cobrada quando não estiver com a cria, e quando estiver vai ser tratada nos espaços políticos como um incômodo. Mas resistir é das mulheres, e nosso olhar, nossa luta, e nossa forma de ver o mundo precisam estar presentes nos espaços de poder.