Máscaras por trás da reverência à maternidade

Texto de Daiana Barasa para as Blogueiras Feministas.

Há algum tempo o tema ‘maternidade’ faz parte da minha vida. Não, ainda não sou mãe e não sei de forma definitiva se gostaria de ser, porém já me interesso por questões em torno do assunto. Vejo na maternidade mais do que um papel social, que a mulher pode escolher desempenhar ou não, percebo que dentro desse papel e escolha há uma série de barreiras que precisam ser vencidas.

De acordo com o estudo: Maternidade e carreira: desafios frente à conciliação de papéis; é destacado que a maternidade passou a apresentar novas características frente à sociedade contemporânea e que com a diminuição da natalidade e consolidação da mulher no mercado de trabalho, é mais comum que mulheres pensem na maternidade como objetivo futuro ou evento tardio.

Na mesma pesquisa a emancipação feminina é apresentada como uma soma de responsabilidades, como o de conciliar o papel de ser mãe e de ser profissional. Mas a complexidade está na impossibilidade de viver os dois papeis separadamente, de maneira que um não possa influenciar o outro, já que para a construção da carreira, as metas de vida pessoal e profissional precisam ser pensadas em concordância.

Mas quem dera as dificuldades se resumissem apenas no desdobramento feminino em lidar com o cuidado com os filhos e preocupações com a carreira. É nesse âmbito que pode ser mencionado o monstro do preconceito e raízes machistas.

De acordo com estudo conduzido pelo portal de maternidade Trocando Fraldas, Carreira e Maternidade 2017 no Brasil – Combina?; de 11.000 mulheres que participaram da pesquisa, 56% consideram improvável o sucesso profissional com filhos e 3 em cada 7 mulheres têm ou tiveram medo de perder o emprego ao engravidar.

Ao mesmo tempo em que este papel social feminino é reverenciado como se a ‘graça de parir’ fosse o único evento magnificente capaz de ser vivenciado pelo ser feminino, é como se a mulher tivesse de provar, se esforçar mais para mostrar a que veio, suas competências e habilidades.

A ‘mãe dos filhos’ a ‘mulher (mãe) mais importante da vida de alguém’, mas que precisa lutar bravamente para se sentir importante para si mesma, porque é essencial que se nasça a mulher em si em algum momento da vida do ser feminino. O que vai muito além do exercício da maternidade ou de ter uma vagina.

‘É tão jovem, bonita, mas não tem filhos’, porque escolher pela abdicação da maternidade pode representar uma confissão de ser menos mulher, de estar no mundo como um ser envolvido por uma espécie de maldição.

Se a mulher é uma profissional dedicada, alguém dirá que seu sucesso existe em detrimento do mal cuidado dos filhos. Se decide dedicar-se unicamente à criação dos filhos, alguém apontará a sua ausência de ambição em não ter tido a vontade de ter uma carreira, uma vida profissional engajada.

A reverência à maternidade é carregada de símbolos, hipocrisias, assim como a magnificência por trás do ser feminino que pode dar à luz não é tão genuína quanto parece. Se a mulher decide não gerar filhos, a sociedade imediatamente a coloca em um lugar de ser que deu às trevas. Como se filhos fossem apenas pessoas e não pudessem ser suas aspirações, seus pensamentos e exercício vivo de SER revolucionário.

Não é só ter filhos, não é por ter vagina, não é por ter um nome feminino, ser mulher no mundo está ligado a se perceber não apenas em desvantagem no universo, mas desejar mudar essa realidade, desejar estar entre seres revolucionários com a mesma ânsia por transformações.

Ainda é preciso ‘provar’ quando se luta por uma carreira profissional, e que esse ato seja realizado com todo afinco, com toda astúcia, com toda a fibra revolucionária repassada por nossas ancestrais ‘loucas’ e completamente ‘histéricas’.

Referências

BELTRAME, Greyce Rocha; DONELLI, Tagma Marina Schneider. Maternidade e carreira: desafios frente à conciliação de papéis. (2012). Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Aletheia 38-39, 206-217.

Estudo: Carreira e Maternidade 2017 no Brasil – Combina? Portal Trocando Fraldas.

Autora

Daiana Barasa é jornalista freelancer e escritora. Mora em São Paulo e acredita que evoluir é a razão pela qual o ser humano existe.

Imagem: Ilustração de Paola Saliby. Blog Mamatraca/UOL.