Sigamos na diferença.

Texto de Thayz Athayde para as Blogueiras Feministas.

Em 2018, com o assassinato de Marielle Franco, parece que um sopro nos foi retirado, ao mesmo tempo que uma raiva de lutar contra o sistema machista e racista que a assassinou se tornou mais potente. Com as eleições, o nosso cansaço misturado com a vontade de lutar também nos fez repensar: e a nossa saúde mental? Afinal, tudo que aconteceu junto com o resultado das eleições que vieram com uma resposta neoconservadora e fascista afeta diretamente a vida de muitas mulheres, algumas mais e outras menos. Mas, no final de outubro houve a certeza: a luta vai continuar, mas a partir de um caminho permeado de violências. É necessário nos proteger.

O ano começou amargo. Não apenas pela eleição do novo presidente do Brasil, mas também por tudo que vem acontecendo desde 2016. O golpe que veio recheado de várias formas de machismo. As críticas à Dilma sempre tinham um caráter misógino e relacionado a uma loucura feminina, ao descontrole, com uma suposta falta de capacidade de gerenciar sempre ligadas as mulheres.

As perguntas feitas a partir desse cenário foram muitas. Infelizmente não há respostas, mas apostas. Nós, das Blogueiras Feministas, temos tentando olhar para trás para pensar o presente e não para dizer que o passado irá se repetir. Muitas pessoas têm gritado que estamos em 1964 novamente, que uma ditadura semelhante do que já aconteceu no Brasil iria voltar. Que o fascismo italiano irá penetrar no nosso dia a dia. A questão é que estamos em 2019 e é isso que iremos encarar: algo novo. Temos pistas do que vai acontecer, mas estamos também aprendendo com o que vai acontecer.

Rio de Janeiro, março de 2018. Protesto no Centro do Rio de Janeiro contra o assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Foto de Lucas Landau/Folhapress.

Apesar de tantos retrocessos e violências cotidianas avançamos também em eleger uma diversidade de mulheres feministas. Conseguimos colocar certos debates nas ruas e isso não tem volta: muitas mulheres já aprenderam a questionar a cultural patriarcal, o racismo, as questões de classe, a LGBTfobia, o capacitismo, a gordofobia.

A luta não pode ser esquecida, mesmo que seja difícil e que nosso objetivo às vezes pareça quase impossível. Não é por isso que vamos desistir de tentar. É nessa tentativa que podemos nos reinventar e achar novas estratégias. A única estratégia que não podemos nos deixar levar é o medo. É uma estratégia política tão potente que nos paralisa.

Para muitas pessoas é insuportável olhar para a diferença. Acreditam que o melhor é repetir exaustivamente aquilo que consideram natural e original, esquecendo que não há nada de natural e original no que fazem e propõem. Essa é só mais uma forma de controle de corpos que escapam das normas de gênero e sexualidade. De não lidar com a diferença do outro. De querer que todas as pessoas sejam cópias apoiadas em categorias normativas. De querer eliminar o outro até que a diferença não exista mais.

Não vamos esquecer que lutamos para viver coletivamente na diferença e não para ter aquilo que eu individualmente quero. E ao mesmo tempo não podemos esquecer do cuidado de si: ele pode ser uma potente estratégia para enfrentar o medo. Sigamos juntas sem esquecer de si e de parar de vez em quando.

A história está aí para dizer que isso não funciona. A resistência acontecerá enquanto existirmos. Sigamos na diferença.