Mulheres desequilibradas e o machismo estrutural

Texto de Thayz Athayde para as Blogueiras Feministas. 

Essa semana a capa da Isto É colocou a presidenta Dilma Rousseff como alguém que está perdendo o seu equilíbrio emocional. Aliás, não apenas a capa, mas a matéria da revista sobre Dilma parece querer a todo momento afirmar que ela não está aguentando a forte pressão da crise política, chegando inclusive a compará-la com “Maria, a Louca”, que foi a primeira Rainha do Brasil. Na matéria, também há especulações sobre remédios que Dilma estaria tomando, além de opiniões de especialistas sobre o possível desequilíbrio de Dilma.

Bem, você pode se perguntar qual a relação disso com o feminismo. A questão é que você pode discordar da Dilma, do governo dela, do partido, etc. E eu entendo que você tem razão pra isso. Sou mulher e por isso tenho várias razões para criticar esse governo. Só que justamente por ser mulher, sei que o machismo estrutural nos atinge das mais variadas formas. E claro, não seria diferente com Dilma. A revista Isto É resolveu se utilizar de uma imagem de mulher louca, mulher surtada, mulher histérica para explicar tudo o que está acontecendo politicamente.

A histeria

Durante um tempo a histeria foi encarada como uma doença que seria causada por um “mal feminino”. Não queria casar? Histérica. Não se interessava por homens? Histérica. Queria estudar e trabalhar? Histérica. Mulher independente? Histérica. Ou seja, ser histérica no final dos anos 1800 e início dos anos 1900, era também desviar das categorias normativas de gênero, entre outras coisas. Muito tentou se fazer para “curar” a histeria, como por exemplo, retirar o útero ou terapias de choque. Vocês tem ideia de quantas mulheres foram arrastadas até manicômios por acreditarem que histeria era uma doença “biologicamente feminina”? Ser diagnosticada como histérica naquela época também poderia ser uma das formas de controle dos corpos das mulheres. Era uma das muitas formas de dizer que as mulheres não poderiam fazer o que elas quisessem.

Depois da teoria de Charcot sobre a histeria, foi a vez de Sigmund Freud levantar algumas hipóteses. É necessário marcar que Freud negou as origens biológicas da histeria e fez um gesto muito importante: ouviu as mulheres. A partir da escuta dessas mulheres histéricas, Freud fundou a psicanálise. Ali foi necessário entender que a histeria era muito mais que um simples “probleminha feminino”, mas tinha um real sofrimento. Aqui, invoco uma visão muito particular sobre a psicanálise. É necessário estar atenta sobre o período que estamos falando. Naquela época, as mulheres tinham poucos “destinos”: ser mãe, ser esposa, ser filha, ser irmã e dificilmente ser o que ela quiser. Arrisco-me a dizer que o discurso de muitas mulheres diagnosticadas como histéricas também foram importantes para que soubéssemos que aquelas mulheres não estavam felizes. Havia um sofrimento real, um sofrimento que também poderia ser atravessado pelo machismo estrutural.

Post da página Think Olga sobre Gaslighting no Facebook.
Post da página Think Olga sobre Gaslighting no Facebook.

A histeria é uma forma de neurose, que por sua vez é uma estrutura psíquica, segundo Lacan, que aponta um modo de lida pulsional e de gozo com o objeto do desejo, sempre pelo modo do sofrimento e da impossibilidade de alcança-lo. Dito isso, é importante destacar que alguns psicanalistas acreditam que o feminismo é uma luta de igualdade para atingirmos aquilo que supostamente as mulheres (diga-se de passagem, eles acham que todas as mulheres são cis) não tem, ou seja, alcançar uma suposta falha anatômica.

A psicanálise está aí para ser lida e interpretada. Eu posso escolher uma visão machista, por exemplo. Mas, eu escolho ler e interpretá-la de forma feminista. A histeria para mim pode ser uma forma de fazer movimentar os discursos engessados. Na impossibilidade de alcançar o objeto de desejo, a histérica sofre, mas continua questionando mesmo aquilo que não é questionado, ou ainda que não há nada a ser questionado. Ser histérica, para mim, é uma afronta a tudo isso que está dado e estático. E é possível sim ver muitas histéricas em um movimento social, como o feminismo, por exemplo. Afinal, qual o melhor lugar para duvidar daquilo que está dado, não é mesmo? Por isso, para a psicanálise (pelo menos da forma que leio), a histeria não é um xingamento. Histeria pode ser lida como uma forma de perturbar questões estáticas. E não seria o machismo estrutural uma delas?

Sobre os novos dispositivos de controle do corpo da mulher

Os dispositivos de controle das mulheres se modificam, mas vem com heranças. A teoria de Charcot sobre a histeria pode ter ido por água abaixo. Contudo, o machismo estrutural ainda nos atinge. De forma diferente do que na época em que a histeria foi catalogada como uma doença, é claro. Mas os resquícios estão aí.
Estamos em 2016 e o fantasma da mulher histérica ainda nos acompanha. Estamos diante de uma grave crise política, é claro que Dilma deve estar passando por um momento difícil. Isso não quer dizer que ela está descontrolada, passando por uma crise emocional ou ainda que ela é a nova “Maria, a Louca”.

Talvez um dos motivos da capa da Isto É seja justamente porquê Dilma é mulher. Ela nunca vai conseguir governar de forma serena e tranquila como um homem governaria, segundo eles. Para essa revista, mulheres não conseguem lidar com uma forte pressão.

Os novos dispositivos de controle do corpo da mulher são cada vez mais sofisticados. Por que não aproveitar que o país está dividido, em plena crise política, com milhares de pessoas odiando o PT sem nem mesmo saber o motivo, para eleger a mais nova “Maria, a Louca”? Em vez de fazer críticas ao seu governo, a Isto É apostou no machismo mais uma vez. A ideia é dizer que nenhuma mulher pode ocupar um lugar que acreditam ser masculino. Desde o início do seu governo, Dilma é chamada de sapatão (mal sabem eles que isso é um elogio, né queridãns?), acusada de não ter um homem ao seu lado, disseram que era gorda, que se vestia mal, que emagreceu demais, que não se cuida e agora, que é louca. Quantas mulheres ouvem coisas assim todos os dias?

Nós, mulheres, podemos votar, podemos estar no cenário político e em vários lugares importantes, mas não podemos exercer nossos cargos e nem fazer o que bem entendermos com nosso corpos e desejos sem ser julgadas. Não podem mais nos mandar para o manicômio e nem fazer terapias de choques e cirurgias para retirarem o nosso “problema”, mas ainda podem fazer com que todos acreditem que estamos loucas e que não somos capazes. Talvez, podemos pensar que esses discursos de um desequilíbrio emocional da mulher sejam uma nova forma de dizer que as mulheres não podem exercer uma função classificada como masculina e muito menos errar. Caso erre, será sempre lembrada que o fez porque não aguenta a uma forte pressão, porque está surtada, porque é mulher.