O caderninho da Vó

Texto de Deh Capella.

Dentro de um armário de cozinha na casa de minha avó, que esvaziávamos para colocar à venda, encontrei um caderninho cheio de recortes e anotações à mão, encapado com uma figura recortada de revista. Imaginei que fosse mais um caderno de receitas.

As páginas bastante amareladas e já quebradiças, a letra que eu já conhecia como sendo da Vó. A primeira página traz floreios coloridos e uma figurinha colada, logo acima do texto:

Que edificante modelo o da Sagrada Família.

S. José, chefe, labuta com santo interêsse para o sustento dos entes que Deus lhe confiou.

Nossa Senhora cuida com diligência de seu querido lar e afazeres domésticos.

O Menino Jesus obedece e trabalha com simplicidade e amor.

Êste modelo de Família deveria ser imitado por todos os cristãos, só assim reinaria paz, amor e felicidade nos lares.

Viramos a página, cujo verso está lotado de pequenos recortes de receitas. A página seguinte traz a definição de Economia, seguida da explicação do que é Economia Doméstica:

É tudo o que se refere ao lar, dentro ou ao redor da casa; desde os cuidados que devem ser dispensados aos animais domésticos que habitam em o nosso quintal até os arranjos da habitação. O principal fim da Economia Doméstica é atrair a mulher para o lar, sua principal função social.

As necessidades da vida atual levam muitas vêzes a mulher a trabalhar fora de casa e por isso o governo pensou em criar nas escolas uma disciplina que dê bases sólidas às futuras donas de casa. Quereis vós saber o que faz uma nação? ‘É o coração das esposas, das mães, das filhas, das irmãs e das noivas’ (diz um pensador francês).

Se derdes a um povo mulheres (mães) fortes, corajosas e amigas do lar, podereis responder por esse povo por que ele saberá ser valente e patriota, invencível.

Em Economia Doméstica a principal parte é a que se refere à arte culinária. A Economia requer um exame minucioso sôbre as necessidades e custos da vida atual. Desde a preparação de sabão, limpeza de metal, assoalho, paredes, roupas, etc.

O caderninho explica exatamente o que a mulher tem a ver com isso:

Por excelente que seja a educação científica, literária e artística de uma jovem, ou a sua profissão, ofício ou negócio, não servirá ela para mulher casada (dona de casa) se não tiver os indispensáveis no matrimônio para governo de casa do que tudo quanto lhe possam ensinar nas escolas. O valor do dinheiro e a sua aplicação; o valor nutritivo dos alimentos, e a melhor maneira de os preparar sem desperdício ou prejuízos; o arranjo e a limpeza dos aposentos, o cuidado com os enfêrmos, a manufatura de bordados e peças do vestuário, a judiciosa distribuição do tempo, do lugar, do trabalho e do dinheiro são outros tantos temas capitais dos estudos e da aprendizagem para as aspirantes ao matrimônio ou a boa dona de casa.

Esse caderno de Economia Doméstica é, com certeza, produto do final dos anos 1940, início dos fifties: Segunda Guerra Mundial ou período imediatamente posterior ao seu final. As importações brasileiras caíram durante a guerra e não era possível contar muito com as exportações. O cenário era de cautela, daí — imagino — a ênfase na qualidade “econômica” atribuída à boa dona de casa.

Ainda que a massificação em torno das qualidades da boa dona-de-casa fosse grande, que a pressão sobre as moças começasse cedo e viesse de todos os lados, penso bastante sobre as situações em que as moças fugiram desse modelo. Tenho dúvidas até sobre o quanto minha avó incorporou desse discurso.

Uma coisa que salta aos olhos desde a primeira vez em que folheei esse caderno é; o homem não precisa ser instruído para se tornar um bom chefe de família. Ele trabalha e provê o necessário ao sustento da casa. Ou alguém já viu manuais de educação masculina? À mulher cabe todo o restante. Ela sim é alvo de instrução, educação — inclusive no sentido formal, como o caderno da minha avó prova. O grosso da educação da mulher para a função de boa esposa, boa mãe e boa dona-de-casa é dado em sua educação, pela mãe, pela avó ou por tias, irmãs mais velhas.

Os conselhos, o modelo de família e, sobretudo, de mulher apregoados pelo caderninho me fazem também pensar bastante em similaridades, continuidades, permanências. Existe hoje uma vastíssima gama de publicações dirigidas ao público feminino. Trazem receitas, truques domésticos, dicas de beleza, artigos sobre educação, relações familiares, decoração e — uma grande diferença em relação a revistas femininas dos anos 1940 em diante — trabalho e sexo.

Nesse último caso, novamente instrui-se a mulher no que fazer para “enlouquecer seu homem”: pompoarismo, striptease, pole dance, depilação artística. De novo: não vejo por aí “manuais” ensinando homens a “apimentar a relação”. São raros os casos.

Fica a questão: a mulher hoje está totalmente livre do que o caderno de Economia Doméstica da minha avó ensinava nos anos 1940/1950? Pensem nas entrelinhas, pensem nos comerciais de produtos de limpeza, nas publicações e na programação televisiva voltada ao público feminino, nas situações domésticas corriqueiras envolvendo o cuidado com a casa e com os filhos.

Eu, sinceramente, acho que não.

Autor: Deh Capella

Sou bibliotecária, mãe, feminista, leitora, musical, curiosa. Baby, we were born to run.

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