A construção da violência contra a mulher

Texto de Thayz Athayde.

Quando cheguei em Curitiba, lembro que todos queriam que meu namorado ficasse aqui e eu morasse no interior com os pais dele, pois dessa forma ele juntaria dinheiro o suficiente para me sustentar. Achei estranho, falei que não era necessário, pois eu me sustentaria, ora bolas! Me perguntaram: como? Já que eu tinha uma faculdade pra pagar (e acharam desnecessário eu fazer a faculdade, seria melhor trancá-la), até que falei: gente, vou trabalhar e ganho muito bem no que eu faço. O queixo de todos caiu e formaram uma cratera no chão, ninguém tinha imaginado que eu iria trabalhar e fazer faculdade, era demais para uma mulher. E, foi assim que eles descobriram que eu não era uma mulher que iria ficar dentro de casa cozinhando, lavando e esperando ser sustentada pelo namorado.

Quis relatar esse caso, pois para mim isso é um tipo de violência. Esse é um dos tipos de violência que as mulheres sofrem todos os dias. É esse tipo de conceito que forma ações violentas, aquelas que todas nos preocupamos: agressão física e a morte.

Quero falar dessa violência silenciosa que é formada todos os dias na sociedade. Construímos essa forma de preconceito de uma forma tão suave, tão leve, tão devagar que obviamente no final das contas não sabemos o que aconteceu. Pode começar de uma forma tão inocente, como uma propaganda, por exemplo. Tem sempre a pergunta redundante: por que a mulher sempre aparece em propaganda de cerveja, magras, lindas e felizes? Afinal, somos obrigadas a ser assim, né?

A partir daí, a violência é construída no sentido de exigir um único tipo de padrão para a mulher, no qual ela deve seguir rigorosamente o estilo mulher bombril: conseguimos fazer tudo sozinha, não precisamos da ajuda de vocês, tá?

Essa imagem ai de Super Mulher Maravilha me incomoda, porque conversa diretamente com o machismo. Ela diz assim: as mulheres fazem tudo e a gente fica aqui esperando por tudo. Porra! Desde quando mulher nasce com gene de dona de casa, que faz também com que eu tenha o ato heróico de ser magra, linda, mãe, boa filha, estudante, profissional, sedutora profissional, boa de cama, auto estima 100% e claro, feliz. Ninguém quer uma mulher mal humorada do lado, né? E por favor, se fizer tudo isso em cima de um salto é melhor ainda.

Não estou criticando mulheres que fazem ou gostam de trabalhos domésticos, o que incomoda é a obrigação de termos que fazer certas coisas só pelo fato incrível de termos uma vagina. E é nesse tipo de pensamento que acontecem as violências, as agressões. E, a mulher, como uma boa servidora do seu macho, é obrigada a agüentar. NÃO! BASTA!

É exatamente ai que entra o feminismo, na liberdade de escolha da mulher. Inclusive, na liberdade dela ficar linda, colocar uma maquiagem que arrasa, um salto fenomenal e mesmo assim ser levada a sério, mesmo assim poder ser uma mulher e não reduzida a uma mercadoria que pode ser a vendida na banca de revistas mais próxima de você.

Sério, às vezes acho que a única coisa que falta é fazerem um carro igual aqueles de sorveteiro, que passam nas ruas perto da sua casa. Justamente quando você está tranqüila e quase dormindo passam com seu megafone: “Alô Você, está passando a mulherada! Traga os babadores e tenham as mãos livres para apalpá-las”. Acho que isso ai é o inicio do fim. Aliás, acho que estamos chegando lá, né? Confiram: http://www.paixaonacional.org/

O que o feminismo quer é que as pessoas entendam que o lugar da mulher é onde ela quiser, onde ela achar que deve ser, onde ela for feliz! E a questão não é que você não acha nada demais um elogio ou uma propaganda, o fato é começar a se preocupar com o que as mulheres acham disso.

Ninguém tem que acusá-la ou cobrá-la por algo que ela deve ser. Depois de achar que a mulher é uma mercadoria e que pode ser cobrada sobre o que ela quer ser, a coisa pode ser levada para um pensamento de violência. Eu sei, você não pensa assim. Mas, isso é você. E quanto às outras pessoas que não pensam como você? É simples. Então, quando podemos começar? Vai deixar que essa violência continue com você? Sua filha? Irmã? Prima? Cunhada? Tia? Com todas as mulheres que você ama?

Autor: Thayz Athayde

Nasci para fazer um musical na broadway e um filme do Tarantino. Enquanto isso, dou uma de psicóloga e pesquisadora na área de gênero. Sou a Rainha da Copacabana Feminista. Delicada e nervosinha. Mas, eu posso, sou a Vossa Majestade.

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