A construção da violência contra a mulher
Quando cheguei em Curitiba, lembro que todos queriam que meu namorado ficasse aqui e eu morasse no interior com os pais dele, pois dessa forma ele juntaria dinheiro o suficiente pra me sustentar. Eu achei estranho, falei que não era necessário, pois eu me sustentaria, ora bolas! Me perguntaram como já que eu tinha uma faculdade pra pagar (e acharam desnecessário eu fazer a faculdade, seria melhor trancá-la), até que eu falei: gente, eu vou trabalhar e ganho muito bem no que eu faço. O queixo de todos cairam e formaram uma cratera no chão, ninguém tinha imaginado que eu iria trabalhar e fazer faculdade, era demais para uma mulher. E foi assim que eles descobriram que eu não era uma mulher que iria ficar dentro de casa cozinhando, lavando e esperando ser sustentada pelo namorado.
Quis relatar esse caso, pois pra mim isso é um tipo de violência sim! Esse é um dos tipos de violência que as mulheres sofrem todos os dias e esse tipo de conceito é que forma ações violentas, aquelas que todos nos preocupamos: agressão física e a morte.

Eu quero falar dessa violência silenciosa que é formada todos os dias na sociedade. Construímos essa forma de preconceito de uma forma tão suave, tão leve, tão devagar, que obviamente no final das contas não sabemos o que diabos aconteceu. Pode começar de uma forma tão inocente, como uma propaganda, por exemplo. Tem sempre a pergunta redundante: por que a mulher sempre aparece em propaganda de cerveja, magras, lindas e felizes, afinal, somos obrigadas a ser assim, né?
A partir daí, a violência é construída no sentido de exigir que um único tipo de padrão para a mulher, no qual ela deve seguir rigorosamente o estilo mulher bombril: conseguimos fazer tudo sozinha, não precisamos da ajuda de vocês, tá?
Essa imagem ai de super mulher maravilha ultra mega power me incomoda, ela conversa diretamete com o machismo, ela diz assim: as mulheres fazem tudo e a gente fica aqui esperando por tudo. Porra! Desde quando mulher nasce com gene de dona de casa, que faz também com que eu tenha o ato heróico de ser magra, linda, mãe, boa filha, estudante, profissional, sedutora profissional, boa de cama, auto estima 100% e claro, feliz. Ninguém quer uma mulher mal humorada do lado, né? E por favor, se fizer tudo isso em cima de um salto é melhor ainda.
Não estou criticando mulheres que fazem ou gostam de trabalhos domésticos, o que incomoda é a obrigação de termos que fazer certas coisas só pelo fato incrível de termos uma vagina. E é nesse tipo de pensamento que acontecem as violências, as agressões e a mulher, como uma boa servidora do seu macho, é obrigada a agüentar. NÃO! BASTA!

É exatamente ai que entra o feminismo, na liberdade de escolha da mulher! Inclusive na liberdade dela ficar linda, colocar uma maquiagem que arrasa e um salto fenomenal e mesmo assim ser levada a sério, mesmo assim poder ser uma mulher e não reduzida a uma mercadoria que pode ser a venda na banca de revistas mais próxima de você.
Sério, às vezes eu acho que a única coisa que falta é fazerem um carro igual aqueles de sorveteiro que passam nas ruas perto da sua casa, justamente quando você está tranqüilo e quase dormindo, passando assim: Alô Você, está passando a mulherada! Traga os babadores e tenham as mãos livres para apalpá-las. Acho que isso ai é o inicio do fim. Aliás, acho que estamos chegando lá, né? Confiram: http://www.paixaonacional.org/
O que o feminismo quer que as pessoas entendam é que o lugar da mulher é onde ela quiser, onde ela achar que deve ser, onde ela for feliz! E a questão não é que você não acha nada demais em um elogio ou em uma propaganda, o fato é começar a se preocupar com o que as mulheres – o objeto que está sendo usado- acham disso. Ninguém tem que acusá-la ou cobrá-la por algo que ela deve ser. Depois disso de achar que a mulher é uma mercadoria e que pode ser cobrada sobre o que ela quer ser, a coisa pode ser levada para um pensamento de violência. Eu sei, você não pensa assim. Mas, isso é você. E quanto às outras pessoas que não pensam como você? É simples. Então, quando podemos começar? Vai deixar que essa violência continue com você? Sua filha? Irmã? Prima? Cunhada? Tia? Com todas as mulheres que você ama?