O machismo e a máquina de escrever

Texto de Danielle Cony.

Gostaria de começar esse texto falando sobre a capacidade de ouvir. Não somente a capacidade de escutar, mas sim ouvir, refletir. Não posso negar que o ato de ouvir é diferente entre homens e mulheres. E, não por qualquer questão genética ou fisiológica. Ouvir é uma questão cultural mesmo.

Quantas e quantas mulheres já se viram querendo expressar sua opinião e não foram ouvidas? Ou pior, ser desqualificada por dizer algo ou pensar algo que não se enquadra no status quo. Ou no trabalho, ou em casa, ou na família. Mas… Se de repente seu discurso for endossado por um homem, esse discurso se torna válido.

Já experimentamos isso, inclusive em discussões na blogosfera. Num episódio com o Nassif, falamos, argumentamos e fomos publicamente desqualificadas. Quando os blogueiros Idelber Avelar e Paulo Cândido tomaram partido, endossando nosso discurso, a coisa mudou de situação e foi repensada.

Acho importante a democratização da internet e a abertura para o diálogo. O que incomoda de fato é a desqualificação contínua do diálogo quando esse é realizado por uma mulher (ou várias mulheres). Muitas vezes vejo que as mulheres argumentam e argumentam com números, estatísticas, campanhas, dados e no final só escutamos: “Não dá para leva-la a sério”; “Mal amada! Feminista mal resolvida, vai procurar o que fazer”.

O mundo está mudando, mas algumas pessoas ainda se prendem ao conservadorismo. Só posso imaginar que seja por medo da mudança. Não saber ouvir é um tiro no pé. A manutenção dos previlégios de forma impositiva não se sustentará, pois o próprio mercado não o sustenta. Como vimos nos anos 30, as mulheres começaram a trabalhar por uma necessidade de mercado. Os homens foram para a guerra, então quem fabricariam as armas? As mulheres. Então, o mercardo capital, por vezes denota mudanças culturais. Essas mudanças podem ser boas e ruins, mas de qualquer forma são mudanças.

O que quero dizer com tudo isso é que hoje se uma empresa não ouve seu consumidor sua imagem fica muito arranhada. Vide a história do meu carro falha. E então, se a empresa não ouve, as redes sociais escutam. E vai tentar dialogar depois da imagem se arranhar amplamente. É muito pior. Muitas vezes o marketing negativo e os processos legais são irreverssíveis.

O mesmo acontece com o discurso machista. Temos mudanças sociais por todos os lados, as mulheres com o seu trabalho de formiguinha, estão cada vez mais ganhando espaço. Contudo, infelizmente, ainda temos essa imposição articulada do discurso e comportamento machista. Imposição sim, porque muitos não querem ouvir o que a mulher tem a dizer. E, acredito que isso se extenda a todos os níveis da sociedade. O crescimento dos grupos masculinistas, a dificuldade de se aplicar a lei Maria da Penha, a homofobia são alguns dos exemplos da reivindicação de quem reproduz esse discurso.

“O mundo é assim e pronto”. O grande problema de quem pensa dessa forma é que não está aberto ao diálogo. E quem reproduz esse discurssso, não consegue entender que impor esse modelo não fará que o mundo continue assim. Funcionou por muito tempo, mas hoje, a democracia, os movimentos sociais, a articulação nas redes sociais e o ciberativismo provocam transformações. Observe o que está acontencendo com os países árabes. Ou seja, quem se posiciona políticamente dessa forma precisa aprender a ouvir e em seguida a pensar. Sei que dói um pouquinho, pois desconstrói tudo em que se acredita, mas com isso a pessoa se tornará muito melhor. Acredite.

Então, meu caro amigo machista, manter o discurso nesse formato só vai fazer com que vocês se sintam excluídos. E depois não adianta vir com o mimimi. Manter o discurso machista é o mesmo que argumentar a utilidade da máquina de escrever. Pode ser até útil, mas tem certeza que com as opções do mundo de hoje você quer usá-la?