Capitalizando nossos corpos

Outro dia, me caiu nas mãos este artigo, do jornal inglês The Guardian, na verdade, uma critica literária, ao estudo da pesquisadora inglesa Catherine Hakim, Honey Money: The Power of Erotic Capital.

 O artigo, escrito pela escritora Elizabeth Day, faz uma objeção pesada às conclusões de Hakim, que coloca, como principal objetivo de uma mulher (não li o estudo, mas pelo que constou no artigo, e consta também na capa do livro de Catherine Hakin, com mãos femininas, bem cuidadas e de unhas pintadas) fazer um uso proveitoso o que ela chama de “capital erótico”.

Capa do livro da inglesa Catherine Hakim

O que seria este “capital erótico”, Hakim explica: “uma combinação nebulosa mas crucial de beleza, sex appeal, habilidades sociais e boa apresentação… que faria alguns homens e mulheres uma companhia agradável, atrativa para todos os membros de sua sociedade, e especialmente, para o sexo oposto”

De acordo com o portal RBS, onde encontrei um artigo sobre o “capital erótico e quais são suas características, baseado no livro de Hakin, o conceito englobaria:

:: Beleza: conceito variável no tempo e cultura, mas sempre valorizado. A ideia atual destacaa fotogenia, o que leva a valorização de homens e mulheres de olhos grandes, lábios carnudos e pele bronzeada.

:: Atratividade sexual: tem a ver com um corpo sexy, o estilo e a personalidade. Ou seja, a beleza pode ser percebida numa foto, mas o jeito como a pessoa fala e se move, não.

 :: Atratividade social: é uma mistura de graça, charme e outros dotes sociais, como a habilidade para deixar o outro à vontade, feliz e com vontade de conhecer você, possivelmente, desejando você também.

:: Vivacidade: aqui também trata-se de um mix de condicionamento físico, energia social e bom humor.

:: Apresentação: o modo como você se veste, usa maquiagem, o estilo do cabelo e acessórios é o que dá a uma pessoa uma boa apresentação.

:: Sexualidade: a categoria é ampla e inclui competência sexual, energia, imaginação erótica, entre outras. Não tem relação com libido e se define em particular.

:: Fertilidade: segundo a autora, a característica só vale para mulheres e em certas culturas que enxergam dotes especiais nas mães de crianças saudáveis e bonitas.

De forma interessante, e reveladora, mais uma vez fica claro que o conceito se aplica mais às mulheres que aos homens, ou pelo menos, assim tem sido entendido, já que, significativamente, a maioria das matérias brasileiras sobre o livro encontra-se nas categorias dirigidas ao público feminino, como o referido portal RBS, que tratou do assunto na coluna Donna, categoria “relacionamentos”.

 Como já disse a autora da crítica do Guardian, Elizabeth Day, parece óbvia a afirmação de que beleza e uma dose substancial de charme podem ajudar a ser bem sucedido. E a própria autora do livro Honey Money, elaboradora da tese do “capital erótico”, reconhece que se trata de uma afirmação óbvia, surpreendendo-se de que não tenha sido tratada antes.

Ora, já refuta Elizabeth Day:

Perhaps because it has never needed to be? Perhaps because in placing so much emphasis on how we appear (both aesthetically and socially) we are implying that style is more important than substance, that it doesn’t matter what you say as long as you say it with a tooth-whitened smile? Perhaps because Hakim’s ideal society would be one where cosmetic surgery was the norm, where sexuality was flaunted and where the ugly, the overweight, the depressed or the mentally ill became trampled-on Untermenschen who worked for the public sector (“All studies find a higher concentration of attractive people… employed in the private sector than in the public sector,” Hakim notes breezily).

Talvez porque nunca foi necessário? Talvez porque colocar tanta ênfase na aparência, tanto estética quanto social, estaria implicando que estilo é mais importante que substância, que não importa o que se diz, desde que seja dito com um sorriso clareado e perfeito. Talvez porque a sociedade ideal de Hakim seria uma onde a cirurgia cosmética seria a regra, onde a sexualidade seria exibida de forma ostentosa, e onde as pessoas feias e acima do peso, os deprimidos ou doentes mentais seriam chutadas, esses “povos inferiores”, Untermenschen (da ideologia nazista), para trabalharem no setor público, onde Hakim alega que todos os estudos mostram uma alta concentração de gente menos atraente que no serviço privado. – (tradução livre pela autora do post)

No artigo do Guardian, Elizabeth Day faz uma crítica ferrenha ao livro e às conclusões da autora.

Segundo Hakim, o “patriarcado”, as “feministas” e o “cristianismo”, juntos conspiraram para garantir que as mulheres não se apropriassem dessa considerável força que é o capital erótico. (???) Mistura no mesmo pacote conceitos antagônicos, demonstrando desconhecimento das teorias feministas em geral, fazendo o que em geral é feito: estereotipar e ridicularizar os feminismos.

Ainda, Hakim afirma que “as feministas sofreram tanta lavagem cerebral pelo patriarcado que são incapazes de entender como a sexualidade e o capital erótico podem ser fontes de poder feminino”. E ironiza Elizabeth Day: “se eu for uma feminista e usar brilho labial, em que isso me transforma? Uma criação da minha própria imaginação?”

Quando li o artigo, me lembrei da Letícia, do blog Cem Homens, uma pessoa que vem sendo alvo da artilharia pesada do controle social brasileiro, por ousar demonstrar uma atitude de “ostentação sexual”, não encontro outra palavra. Lola e Cynthia já escreveram sobre os ataques covardes, não de trolls anônimos, mas de uma grande emissora de TV, a mesma que acha normal mostrar cenas de homofobia e violência doméstica mas teme chocar os mais “sensíveis” da digníssima classe média branca heterossexual e católica ao mostrar a afetividade homossexual ou colocar negros e negras em posições melhores que as subalternas.

E fico pensando no “estudo” de Hakim, e em como no Brasil a gente vive essa contradição… somos um país que vende no exterior a beleza e a sensualidade femininas, mais do que qualquer país de que eu tenha notícia. A publicidade de uma sandália de dedo, recentemente usou dessa mesma fama, da beleza e da sexualidade da mulher brasileira, estereotipada, como mote para uma de suas campanhas.

Esse mesmo país, essa mesma sociedade, que faz uso da sexualidade da brasileira para vender sua imagem no exterior, aqui, reprime qualquer manifestação de sexualidade livre.

Aqui, e infelizmente, creio que em quase todo lugar, uma mulher não pode ter êxito na carreira senão as custas de sua sexualidade e de seu uso direcionado. Muitas vezes, a voz comum é que  se uma mulher é promovida, deve estar “dando” para o chefe. Se a chefe, no caso, for mulher, obviamente, deve ser lésbica, e a promovida também “deu”  (dar, oferecer, submeter-se… sempre na posição de passividade).

Experimente usar livremente da sua sexualidade. Jamais.

Como deixa aparenta deixar claro o estudo, a sexualidade e o capital erótico não devem ser usados para o prazer feminino, mas tão somente para obter coisas, bens, relações, pessoas. Obter ganhos.

A beleza, o estilo, a simpatia, o charme. Tudo transformado em uma mercadoria de troca.

Capitalizando nossos corpos - somente assim nos é permitido usar nossa sexualidade. Imagem: Alamy. Matéria do The Guardian.

Claro, disso a gente já sabia. O que a inglesa Catherine Hakim aparentemente fez, foi simplesmente “dar nome aos bois”.

Mas foi mais do que isso: quando um fato do dia a dia é revestido de uma estrutura “científica”, assume ares de “verdade absoluta”, nesse fetichismo das ciências em que vivemos desde o século retrasado.

E podemos observar que, via de regra, o fetichismo da ciência encontra-se a favor do status quo: capitalista, eurocêntrico, cristão. As ciências já foram utilizadas para justificar a inferioridade de certas raças e etnias, a opressão das mulheres, a subalternidade das homossexualidades. *Como trabalho na área do Direito, sempre me veem à mente Lombroso e sua teoria do Homem Deliquente.

Quando uma mulher age livremente, disponde de sua sexualidade como deseja, ela abala os alicerces do capitalismo. Como assim, sexo sem procriação? Como assim, ela não está nem obtendo “lucro” com o sexo que pratica (esse lucro,  na cabeça de alguns, pode ser financeiro, como alguns propõe que Leticia seria mais aceitável se fosse prostituta, afinal, prostituta é paga, ou emocional – conseguir um marido, um provedor, ou mesmo um emprego.). Abala os alicerces do capitalismo porque abala uma das estruturas sobre as quais ele se sustenta: sucessão hereditária. Se uma mulher dispõe livremente de seu corpo – e de seus óvulos – como garantir que a prole, que herdará o mundo, é de fato a prole do “pater famílias”? ( Agenita Ameno fala sobre isso no livro “Crítica à tolice feminina”, obra na qual propõe uma sociedade de usofruto, e não de sucessão).

Geisy e o vestido da discórdia

Mas, ora ora, como são hipócritas: lembram-se de Geysi Arruda, da UNIBAN? Se vestia livremente, de forma “despudorada”. Foi linchada moralmente. Recebeu apoio, e em seguida, usou a fama e “

capitalizou” seu corpo e seus minutos de fama. O que aconteceu? Apedrejada moralmente… todos já sabiam que era isso que ela queria…

Imagino se Leticia um dia vier a público, sem o pseudônimo, e realmente “capitalizar” seu erotismo. Alguma dúvida de qual será a reação de nossa sociedade?

 Não sei como fazer isso, ainda estou engatinhando nas teorias acadêmicas, nos diversos feminismos. Mas, de uma coisa, cada dia me convenço mais: o capitalismo É inimigo da igualdade. E se o feminismo É a busca da igualdade, e eu acredito que seja, feminismo e capitalismo SÃO incompatíveis.

* O livro ainda não foi traduzido, e não encontrei em PDF. No entanto, o artigo que lançou a teoria, publicado na European Sociological Review, em março de 2010, está disponível, em inglês.

up-dating: gente, o link quebrou, e agora, qdo tento abrir a revista, eles estão pedindo senha e cadastro. Vou tentar achar de novo, livre, e posto outro link, ok?

Renata Lima

Mulher em um mundo masculino. Delegada de Polícia. Tuiteira, blogueira, leitora compulsiva. Feminista, libertária, de esquerda. Contradição? Não. Liberdade.

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15 thoughts on “Capitalizando nossos corpos

  1. Rê, nada pessoal, você sabe que eu sou sua fã. Mas tenho agumas críticas a este texto.

    1) Acho bem complicado – bem MESMO – você utilizar fontes terceiras pra gerar uma opinião sobre o trabalho da tal inglesa. Eu tampouco o li e acho bem perigoso porque uma das coisas que vai vemos são os trabalhos sobre gênero sendo distorcidos, etc. quando apropriados pela mídia de massa. Internet, jornalhões, blogs, etc. somos todos mídia de massa. Então a escolha que você fez de construir teu texto em cima das críticas de um artigo de um jornal eu acho bem ruim, pra falar a verdade. Porque aí o texto não se sustenta, manja?

    Por exemplo, você disse: “Mas foi mais do que isso: quando um fato do dia a dia é revestido de uma estrutura “científica”, assume ares de “verdade absoluta”, nesse fetichismo das ciências em que vivemos desde o século retrasado.”. Sem ler o tal trabalho original como é que você pode dizer que é um fato do dia-a-dia “revestido” de ciência e não uma teoria, sólida, baseada em dados, etc.? Não dá, né, flor? (com todo o respeito)

    2) Minha segunda crítica é que o texto ficou bastante confuso – talvez porque justamente sem ler o trabalho original você nao tenha entendido de forma mais orgânica (e aí não passou isso no texto) o que é esse novo conceito, de capital erótico. Não fica claro – e eu achei meio despropositado – o que tem a ver o tal capital erótico com a história da Letícia.

    Beijos!

  2. Mari,

    1 – Vc tem razão quanto ao fato de eu não haver lido o livro original. No entanto, a sensação que tive ao ler o artigo, e os trechos do estudo, foi de retrocesso.
    Agora que você apontou, busquei o trabalho original, que está publicado na European Sociological Review, um texto de 20 páginas no qual a autora se baseou para apresentar a teoria do capital erótico, e fundamentou o lançamento recente do livro, ainda não traduzido em português.
    Vou editar e disponibilizar no post para quem desejar ler.
    Checando o artigo acadêmico que originou o livro, entendo que a crítica do Guardian foi bem de encontro ao que eu penso: a autora, que é socióloga, e pesquisadora da London School of Economics, desenvolveu uma teoria na qual o que ela chama de capital erótico vai ser o mote para revolucionar a forma da relação entre os gêneros, empoderando as mulheres, já que nós teríamos mais capital erótico que os homens, o que os leva a negar a existência mesmo desse poder erótico.

    Em alguns trechos do artigo, a pesquisadora fala das “aplicações da teoria” no “mercado de relacionamentos e casamentos”, na “barganha entre parceiros” e no “mercado de trabalho”, onde o capital pode ser negativo se vier na forma de assédio sexual, mas positivo se forem na forma de “flertes casuais”.

    Quando me refiro à questão de fatos do dia a dia, como o senso comum, os preconceitos, por exemplo, se revestem de cientificismo, me recordo de Lombroso, e de sua criminologia do “homem delinquente”, que durante tanto tempo fundamentou teorias de eugenismo, entre outras. Me recordo ainda de teorias que sustentavam (e as vezes ainda sustentam) a inferioridade feminina, como cérebro menor, ou coisa que o valha.
    Com todo o respeito à sua verve de pesquisadora, dados são dados. Podem ser manipulados, e torcidos, para favorecer o olhar de quem o utiliza. Nem sempre o são, mas, veja, ela utiliza, no artigo, dados de pesquisas diversas, constatando percentuais de pessoas que seriam medianas, feias, atraentes, e sua colocação no mercado de trabalho, entre outros dados estatísticos. Então, creio que ela utilizou-se de critérios científicos, sim.
    E no meu entendimento, ela chegou a uma conclusão que ao mesmo tempo me é óbvia, já que vivemos em uma sociedade de culto ao corpo, à juventude e à aparência, e é bizarra, no sentido de que, no artigo, ela conclui que a teoria do que ela chama de capital erótico será o mote de transformação e empoderamento das mulheres.
    Me chama a atenção este trecho: “Feminist theory erects a false dichotomy: either a woman is valued for her human capital (her brains, education, work experience, and dedication to her career) or she is valued for her erotic capital (her beauty, elegant figure, dress style, sexuality, grace, and charm). Women with brains and beauty are not allowed to use both—to ‘walk on two legs’ as Chairman Mao put it.”
    Qual teoria feminista anglo-saxã? É a única? Eu, que nem tenho o conhecimento acadêmico aprofundado das diversas teorias feministas, me sinto incomodada quando uma pessoa usa o termo “teoria feminista”, com se fosse “A” teoria feminista.

    2 – Quanto à questão do capital erótico e de sua relação com o blog da Letícia, eu relacionei da seguinte forma: diversos comentaristas e mesmo outros blogueiros e jornalistas, acham um absurdo ela não “ganhar” nada enquanto “dá” para cem homens (lógico que eles não leram um post inteiro do blog para entender que a proposta podia ser essa, mas mais que o objetivo, o interessante era a trajetória, as experiências e o aprendizado – pelo menos, prá mim). Acho que não deixei claro o trocadilho com o nome da teoria e a questão da “capitalização” no sentido de lucrar.
    E enquanto uma pesquisadora inglesa, relativamente conceituada, já que sua teoria repercutiu minimamente, fala em utilizar o “capital erótico” para empoderamento, eu vejo retrocesso, pois entramos na mesma dicotomia que ela alega combater, a de cérebro x aparência-sexualidade.

    Por outro lado, não tive aqui a pretensão de fazer uma crítica aprofundada da teoria, apenas de externar meu desconforto, até mesmo, como vc disse, pela forma como foi divulgada na mídia a questão da teoria. Pode ser que lendo o livro, eu até concorde com a autora, vai saber… a pesquisadora se coloca como propositora de uma nova agenda para a pesquisa e a teoria não só feminista, mas sociológica.

    Estou no horário do almoço, mais à noite eu volto. Obrigada pelo comentário!
    Bjs!

    • Flor, primeiro de tudo obrigada por ir atrás do artigo, iêi! Vou Lê-lo também pra saber se concordo com suas críticas antes de falar qualquer coisa, ok? Assim a gente pode buscar entender melhor os problemas e os pontos interessantes dessa tal teoria. :)

      Fiquei curiosa quando você disse: “Em alguns trechos do artigo, a pesquisadora fala das “aplicações da teoria” no “mercado de relacionamentos e casamentos”, na “barganha entre parceiros” e no “mercado de trabalho”, onde o capital pode ser negativo se vier na forma de assédio sexual, mas positivo se forem na forma de “flertes casuais”.”

      Assim, claro, ainda não li. Mas pelo que você diz aqui eu não entendi qual o problema disso. Não me parece, pela sua citação, que a autora está dizendo que isso é bom ou ruim, mas que é assim que ela está definindo um pedaço do que chama de capital erótico. Não?

      Eu tinha entendido o que você quis dizer sobre senso comum que se reveste de cientificismo. Só não concordei que uma teoria elaborada e publicada no European Sociological Review seja senso comum revestido de cientificismo. Acho improvável, embora possível. Mais uma vez: ainda vou ler o artigo pra ver melhor também.

      E me restou uma dúvida: por que você acha bizarro que o capital erótico possa ser mote do empoderamento?

      • Bem, Mari, eu acho que essa forma de empoderamento pode ser capciosa. Acho limitadora, e acho que ela partiu de premissas de que as mulheres teriam mais acesso ao que ela chama de “capital erótico” devido ao cuidado com a aparência, à vaidade, etc, que seriam “naturais” da mulher.
        Ainda não li Beauvoir, mas já li sobre. E entendo eu, posso estar equivocada, que a frase “não se nasce mulher, se torna mulher”, pode ser aplicada para desconstruir aí esse naturalismo da vaidade e do cuidado feminino.
        Quantos bilhões de lucro o sistema capitalista obtém anualmente, explorando o culto à beleza e aos “cuidados” que são “inerentemente” femininos?
        Acredito que o feminismo é a busca da igualdade, e que usar de artifícios que podem se voltar contra nós, na luta pela igualdade, seria um retrocesso.
        Não nego, já fiz uso, sim, de minha boa aparência (modéstia às favas) nas épocas em que estive mais de acordo com o padrão vigente (magra, mais jovem, etc), e mesmo agora, já mais velha e mais cheinha. Só não quero ser reconhecida só por isso.
        Entenda, não é uma crítica a quem se arruma (se algumas pessoas que entendem que feminista não se depila, não se maquia, não usa salto, vissem meus armários, jamais acreditaria que eu me defino como feminista, ardorosamente feminista).
        É acreditar que somente um fator estético-erótico, não será suficiente para romper com séculos de patriarcado e objetificação feminina.
        Não desprezo quem sabe usar seu sex appeal. Muitas vezes, é a única “arma” à nossa disposição. Mas sou contrária a fazer dele a única arma.
        O texto parece ser bom, e posso estar equivocada em alguns conceitos, mas não consigo dissociar “capital” do conceito de “acúmulo”.
        E por outra, ainda temos que considerar que muitas pessoas, homens e mulheres, não dispõem ou da disposição/ânimo ou dos recursos necessários para construir um “capital erótico”, e aí, temos, mais uma vez, os excluídos…
        Bjs e valeu pelas observações!
        Depois quero saber suas conclusões, aqui ou na lista!

        • Flor, o link não está funcionando! Todas chora!!! :(
          (hehe)

          Ó, pra desmitificar um pouco a Beauvoir, a maioria das autoras da área de estudos de gênero hoje critica a própria teoria dela em O Segundo Sexo, por aproximar a dominação a questões biológicas em vários momentos. Então essa frase, assim, destacada, a gente interpreta hoje de várias formas. Mas é importante lermos a teoria toda (aliás, tem umas meninas querendo começar um grupo de estudos pra ler junto na lista, é uma boa né, a gente vai lendo e discutindo e tal).

          Sobre o lucro que instituições do sistema capitalista obtém no mercado do feminino, não há dúvidas. No capitalismo há uma exploração excessiva dos grupos não-dominantes. Ganhamos menos salário e, se formos negras, ganhamos menos salário ainda! Mas é importante a dissociação que várias teóricas já fizeram (e da qual às vezes nos esquecemos) entre o sistema capitalista e a dominação de gênero. Porque ela existe em sociedades não-capitalistas e em outras formas de organização econômica e social.

          Bom, sobre os mecanismos que podem se voltar contra nós: isso é bem relativo. Porque praticamente qualquer mecanismo pode se voltar contra nós. Pode não, haha, se volta né? :) Acho que esse não é um problema dessa teoria, portanto.

          Você diz que não quer ser reconhecida só por isso (“boa” aparência). Concordo. Mas eu duvido que seja isto que a autora esteja propondo mas, de novo, só poderei baixar esse artigo na quinta (a nao ser q vc me envie por email antes hehe), quando irei à universidade.

          Novamente, Rê, não li ainda, mas duvido que a autora esteja dizendo que “somente um fator estético-erótico, (…) será suficiente para romper com séculos de patriarcado e objetificação feminina”. Também é importante entender aqui essa coisa de patriarcado. A área de estudos de gênero há muito já dissociou a existência da dominação de gênero ao patriarcado, embora reconheça que no capitalismo estas coisas andam juntas.

          Capital, por fim, não é o mesmo que “acúmulo”, nem o mesmo que “lucro”, embora no senso comum seja utilizado largamente desse jeito. O conceito de capital vai além disso. O exemplo clássico pra ilustrar o que é capital compara guardar dinheiro embaixo do colchão (esse dinheiro não seria cpital) ou guardar numa poupança (seria capital, porque gera mais dinheiro). Então é preciso tomar cuidado na hora de entender esses conceitos. Capital gera capital.

          Sobre muitas pessoas não possuírem esse tal “capital erótico”, é importante lembrar que segundo me parece pelas notícias e resumos que li (de novo, ainda falta elr o texto haha), ela constrói esse conceito não só a partir de aparência física, né? Então potencialmente todo mundo teria capital erótico. Mas, claro que mesmo assim deve haver gente que não possui esse capital, ou possui em menor quantidade.

          Outra coisa que é fato sobre capitais em geral é que eles sempre são, na nossa sociedade, distribuídos de forma heterogênea entre as pessoas e entre grupos de pessoas (homens/mulheres, negros/brancos, etc). Então isso não seria um “problema” necessariamente. A não ser que você pense que as pessoas terem acesso à educação, à cultura legítima e ao conhecimento legitimado no sistema escolar pra se empoderarem também seja algo ruim.

      • Marília, você perguntou à Renata o que ela acha bizarro no fato de o capital erótico ser mote para o empoderamento.
        Olha, em primeiro lugar, não acho que seja verdadeiramente empoderamento o que a Hakim propõe, embora ela o chame assim. Não li o artigo, e vi apenas a reportagem apresentada no The Economist: http://www.economist.com/node/21526782

        Vou tentar explicar meu ponto de vista usando como exemplo a teoria do Hernando de Soto (http://pt.wikipedia.org/wiki/Hernando_de_Soto_Polar), um economista peruano que ficou famoso pela idéia de promover o “empoderamento” de trabalhadores do setor informal pela cessão de títulos de propriedade de habitações em situação irregular. A idéia, exposta da forma mais simplificada e grosseira possível, é de que trabalhadores ou moradores irregulares não podem exercer todos os direitos de propriedade, já que o terreno onde se encontram não lhes pertence. Por não terem a propriedade, não se arriscam a fazer um investimento maior em seus negócios informais, nem possuem garantias de pagamento para requerem o financiamento de bancos. Assim, De Soto propôs que o Estado peruano cedesse a propriedade a moradores irregulares, a fim de que, com um título de propriedade, eles pudessem levantar financiamentos para se inserirem no mercado formal. Mas o que acontece nesse contexto? Se todo mundo tem propriedade o que ocorre com o valor dela num sistema capitalista? Ela se reduz, além de como consequencia ter-se criado uma hierarquia que separa propriedades “verdadeiras” das “cedidas”. E o que acontece com alguém que tem o valor de uso de uma casa convertido em valor de venda, se essa pessoa é pobre e não é beneficiária de políticas de inclusão social? ELA VENDE O IMÓVEL E RETORNA À ILEGALIDADE. Isso não é empoderamento. Isso é uma tentativa inocente (ou muito perversa) de capitalizar o direito à moradia. É o mesmo raciocínio da Hakim, de internalizar no sistema econômico um valor social. E qual é o valor social que ela quer internalizar? O senso comum de que pessoas mais bonitas são mais bem-sucedidas, mais aptas ao mundo dos negócios ou ao trabalho, mais merecedoras de contratações e de melhores salários. Em outras palavras, a ideia de que aparência se confunde com essência. Isso é verdade? Não necessariamente, embora esse tipo de pensamento compartilhado exista numa subconsciência coletiva. E qual é o risco disso se internalizar este valor? A gente ver o estabelecimento (hoje apenas ainda submerso) de um padrão de beleza para pessoas, como se esse padrão fosse, por si só um valor precioso ao desenvolvimento da sociedade, ou, ao menos, da economia. Esse problema, da instituição de uma ditadura da beleza foi abordado pela Naomi Wolf no livro O mito da Beleza (http://brasil.indymedia.org/media/2007/01//370737.pdf), em que ela relaciona a imposição de um padrão estético “bem sucedido” a mulheres, como forma de controlar suas escolhas de vida.
        Capital erótico, como tudo o que envolve a acumulação e concentração de qualquer coisa, gera, necessariamente, desigualdade. E o verdadeiro empoderamento feminino depende, na sua essência, do tratamento igualitário e fraterno entre seres humanos.

        • Ana, eu acho que chega um ponto desta discussão em que estamos realmente limitadas, todas nós, por não termos lido o artigo e nem o livro. Até porque artigos geralmente são um pedacinho da pesquisa que depois vira livro, então não acho que as conclusões que tiramos aqui sejam lá muito confiáveis, haha. Mesmo assim acho que estamos aprendendo legal com esse debate, iêi! :D

          “É o mesmo raciocínio da Hakim, de internalizar no sistema econômico um valor social.” – Então, é bem difícil dizer isso sem termos lido né? Pelo que eu entendi do que ouvi falar (haha), não é isso que a Hakim está fazendo. Apropriar-se de uma noção da economia pra criar um novo conceito e uma nova teorial que dizem respeito ao simbólico é muito, mas muito diferente de internalizar no sistema econômico um valor social. Até porque ela não está propondo que quem seja bonito ganhe mais, certo?

          “E qual é o valor social que ela quer internalizar?” – Bom, ela não quer internalizar nada ou não seria publicada pela European Sociological Review, tenho a impressão. Ela quer construir uma teoria que dê conta de explicar e sistematizar cientificamente algo que vemos acontecer todos os dias há séculos. É bem diferente.

          “E qual é o risco disso se internalizar este valor? A gente ver o estabelecimento (hoje apenas ainda submerso) de um padrão de beleza para pessoas, como se esse padrão fosse, por si só um valor precioso ao desenvolvimento da sociedade, ou, ao menos, da economia” – Então, tenho uma novidade: a Hakim sistematizar isso em teoria não faz isso acontecer. Ela só pôde sistematizar isso em teoria porque isso acontece. Entende a diferença?

          “relaciona a imposição de um padrão estético “bem sucedido” a mulheres, como forma de controlar suas escolhas de vida” – Eu duvido muito que o livro da Hakim não dialogue e use a teoria da Naomi Wolf ao longos dos capítulos, aliás. Se esse padrão estético está sendo utilizado como forma de controlar as escolhas de vida, não é justamente através da subversão e do domínio deste campo que se poderia empoderar através do capital erótico? Acho que precisamos ambas ler o tal texto!

          “Capital erótico, como tudo o que envolve a acumulação e concentração de qualquer coisa, gera, necessariamente, desigualdade.” – Veja ali no meu comentário. Capital é diferente de acumulação e concentração. E é sempre desigual. A Hakim não está propondo que isso exista a partir de agora, defendendo que esse capital é a salvação. Ela está utilizando esse conceito pra explicar algo que existe – pessoas mais bonitas ganham mais e acedem mais a posições de prestígio. No caso das mulheres (por conta do que a Naomi Wolf explica), isso tem um peso maior ainda.

  3. Tem uma questão que eu acho que faltou ser abordada…Para além do fato de que o trabalho dessa Hamkim parece ser super equivocado, existe uma relação entre poder e estética que não pode ser esquecido.
    A aparência conta na forma como você será tratad@, na hora de conseguir muitos empregos (tem lugar que pede foto no currículo) ainda mais num mundo extremamente racista. Pode ter certeza que irão te contratar com muito mais facilidade se você tiver uma estética mais próxima dos padrões de consumo do que se você tiver traços de que é da classe popular…É claro que isso conta para ambos os sexos, mas no caso da mulher acho que isso se agrava já que antes de tudo, somos entendidas como objeto decorativo…Já passei por situações em que claramente me safei por conta do meu rostinho de menina de classe média alta. Eu não falaria em “capital erótico” por que isso é partir do pressuposto de que não é nada opressivo estar num mundo em que seu corpo é reduzido à mercadoria sexual, mas acho que um conceito como “capital estético” faria sentido por que explicita preconceitos de classe e racismos.

    • Bianca,
      De certa forma, concordo com vc, na questão de que “capital estético” explicitaria preconceitos. Mas creio que não é essa a intenção da pesquisadora.
      Ela fala em capital, em acúmulo, em vantagem. Se o capitalismo discutisse abertamente os preconceitos, não se sustentaria, já que sua base é a desigualdade, o poder de quem detem os meios de produção sobre quem é obrigado a vender a mão-de-obra (Marx me mataria agora ou lembrei mais ou menos do básico? rs)
      Eu também já fiz uso de vantagens decorrentes dos meus privilégios, não nego. É difícil fugir disso. Por isso me incomodou a conceituação de uma teoria que legitima tais privilégios. Porque, como disse para a Mari, no coment acima, nem todos tem os recursos ou o ânimo de se propor ao desenvolvimento de seu capital erótico, o que quer que isso seja.
      Abs

  4. Renata, ao contrário da Marília eu entendi perfeitamente o seu texto.

    Já vi dados sobre equidade em serviço público – onde as pessoas acessam a vaga via concurso – e eles sao mais igualitarios (genero e raça) do que os trabalhos na iniciativa privada – onde existe uma possibilidade maior de ocorrer preconceitos por beleza/magreza/feiúra etc. Só nao vou pegar agora os dados, mas na categoria bancária ja foi estudado, posso depois passar pra Marilia (acho que ela pode se interessar).

    Então pra mim essa história de empoderar via beleza não me agrada. Porque é um feminismo que deixa de fora as feias, as velhas, as gordas, etc…

    E o fato de analisar o que sai no jornal (com todas as distorçòes envolvidas) é interessante pois é o jornal que vai influenciar mais as pessoas – no geral o povo nao vai ler um estudo na íntegra. Então acho válido a Renata estar aqui abordado as impressoes que ela teve da matéria.

    Abraços!

    Amanda

  5. Bem, eu não li o estudo então vou comentar de um modo geral. Eu acho válido usar o carisma e um certo nível de sensualidade no dia a dia. Sendo que penso nisso como sendo uma característica da personalidade e não algo forçado, calculado. É muito agradável lidar com pessoas que estão à vontade consigo mesmas, têm a auto estima preservada e isso acaba sendo contagiante, seja mulher ou homem. Deixa aquele gostinho de quero mais. Já usar a beleza(na sua visão mais limitada) de forma predatória, como se fosse uma arma, não é saudável.

  6. Eu não costumo opinar muito por aqui, mas a minha proximidade física com a Renata nos faz conversar muito a respeito dos posts que escrevemos, conceitos, feminismo, tipos de feminismos, etc. Ao ler o post e os comentários, duas coisas me incomodaram.
    Primeira. Existe uma falsa impressão de que é preciso ler muito ou ter muito domínio sobre um assunto para escrever sobre ele. Oi? E o conhecimento empírico fica onde nessa história? Não é considerado? Todas nós, pelas nossas vivências e experiências podemos abordar todos os assuntos, é nossa opinião expressa em posts. Não são artigos acadêmicos a serem publicados em revistas científicas. Me sinto no direito de criticar dona Simone de Beauvoir sem que tenha a necessidade ou obrigatoriedade de desenvolver uma teoria para apresentar no lugar da dela. Temos poucos espaços onde podemos nos manifestar e acho que devemos incentivar participação. Discussões tão academicistas intimidam e não ajudam na formação teórica daquelas que ficam mais lendo, tentando aprender e apreender para quem sabe, um dia, ousar escrever também. É claro que é bom ler e se informar e tals, mas podemos opinar mesmo sem isso.
    Achei super válidas as observações, entendi perfeitamente e acho que se pode escrever sobre qualquer coisa. Propaganda na tevê, cena de novela, livro, artigo de jornal, fato real, etc.
    Segunda, é a resistência em admitir que o feminismo é inviável e impraticável no capitalismo. A Renata foi felicíssima na conclusão desse post e mesmo sem ser aprofundada teoricamente nem no feminismo e nem no marxismo (principal corrente de pensamento contrária ao capitalismo e que propõe sua superação e produziu sua melhor e maior crítica), ela conseguiu captar a essência dos dois. O capitalismo está fundado na opressão, de uma classe sobre outra, de uma raça sobre as demais, de um sexo sobre outro. O feminismo pressupõe igualdade. Logo capitalismo e feminismo são incompatíveis. Simples assim! E ou levamos as lutas pela superação da opressão de classe, raça e gênero meio que juntas e paralelas ou jamais teremos superação alguma.
    Uma única observação crítica. Às vezes é interessante fazer a citação em inglês, mas nem todo mundo lê em inglês com essa facilidade. Então, fica a dica, se possível fazer a tradução e postar junto. Ao dificultar a leitura perdemos o/a leitor/a.

    Beijo, Renata! *\o/*

  7. Bom, vou aproveitar o debate delícia (amanhã acho que consigo finalmente baixar o PDF e mando pra nossa lista ou ponho um link aqui pra quem mais quiser ler) e colocar mais fogo na lenha, haha! Viva!

    Achei uma entrevista com ela! (http://www.slate.com/id/2302762/)

    O repórter pergunta:
    “In your book, the main argument seemed to me more geared toward women—how they should be using their erotic advantage over men more than they are. I wanted you to expand on that.”
    “No seu livro, o argumento principal parece ser mais direcionado às mulheres e em como elas deveriam estar usando essa vantagem erótica sobre os homens mais do que eles fazem. Eu gostaria que você discorresse sobre isso.”

    Ela responde:
    “Just to correct that understanding, the reason I focus at the end of the book on women exploiting their erotic capital is because of the evidence in chapter 7 that shows that men are getting a higher return on their erotic capital. The whole book is about how valuable erotic capital is for men and women, but the main problem is there’s sex discrimination and that women are not getting the kind of economic returns that men are getting. They’re getting lower economic returns. And therefore, the argument is women need to do some catching up, and women need to make sure that they get the kind of return that men are already getting. That’s really the key point about this.”
    “Só pra corrigir esse entendimento, o motivo pelo qual me foco ao final do livro nessa coisa de as mulheres explorarem seu capital erótico é porque as evidências do capítulo 7 mostram que os homens têm tido um retorno maior de seu capital erótico. O livro todo é sobre quão valioso esse capital erótico é para homens e para mulheres, mas o problema principal é que há discriminação sexual e as mulheres não recebem o retorno econômico que os homens recebem. Portanto, o argumento é de que as mulheres precisam alcançar os homens e garantir que recebam o que os homens já recebem. Este é o ponto-chave disso tudo.”

    Na minha opinião isso é bem diferente de dizer que o empoderamento se daria pelo capital erótico, que o capital erótico é uma salvação, ou de propor que as mulheres sejam escravas do tal capital erótico.

    • “as mulheres precisam alcançar os homens e garantir que recebam o que os homens já recebem. Este é o ponto-chave disso tudo.”

      Ó, sinceramente? É mais fácil dizer que mulheres não sabem usar seu capital erótico do que dizer que A SOCIEDADE É QUE NÃO VALORIZA A MULHER COMO ELA É, capitalizando ou não seu erotismo.

      Uma mulher não deveria aprender a capitalizar seu erotismo pra vencer na vida. Prefiro as teorias que tratem da opressão e que procurem respeitar a mulher, porque quando há uma mulher respeitada, a capitalização do erotismo é irrelevante.

      Simples assim.

      • Amanda, não tem problema nenhum você não concordar com o que a autora diz. Aliás, é daí que nascem as críticas pertinentes! :)

        Minha crítica ao texto da Renata é que ela sequer leu o que a autora diz, não entendeu a teoria proposta, etc. e se baseou em um texto, de um jornal de massa completamente pouco crítico. Sabe?

        O ponto que eu acho interessante dessa teoria é a reflexão que podemos fazer. Existe um moralismo nosso que condena as mulheres que usam o capital erótico. Mulher não pode. Enquanto isso os homens usam e abusam desse tipo de capital e têm maior retorno.