“Ilusões (des)necessárias”

“Se você não tiver cuidado os jornais vão ensinar a odiar os oprimidos e amar os opressores”

(frase atribuída a Malcolm X)

Essa frase, recentemente espalhada por muitos pelo Facebook, me remete a dois conceitos esboçados em um livro com que tive contato não há muito tempo e cujas ideias merecem ser tratadas no BF. Trata-se das ilusões necessárias e da fabricação do consentimento, apresentadas por Noam Chomsky em Ilusões Necessárias.  

O objetivo do autor no texto é comentar como “os meios de comunicação e elementos afins da cultura intelectual de elite” levam a cabo um controle de pensamento. A crítica e os comentários ali presentes se relacionam com episódios como aqueles de guerra (Vietnã, Golfo, Iraque, Afeganistão) em que, de alguma forma, era preciso justificar e convencer os cidadãos da necessidade e da importância da empreitada militar.

Nesse contexto, – que, importa dizer, não é o único possível de se aplicar a tese do autor, como faremos adiante – os meios de comunicação, representados, em nações como os EUA e o Brasil, por grandes corporações detentoras do controle dos diversos canais de comunicação, ocupam papel fundamental ao criar ilusões necessárias capazes de sustentar os interesses dos grupos dominantes – nesse caso, a guerra. Uma publicidade bem arquitetada associada à massiva utilização do noticiário que repetida e constantemente apresenta “dados” e “informações” a respeito do terrorismo, da violência, do perigo, do medo são os meios e os instrumentos para tal produção de ilusões.

O cidadão, de participante de uma sociedade democrática, transforma-se em um apático e obediente observador, colocado de fora, portanto, do debate e da ação política. E, nesse momento, dá-se o que o autor denomina de fabricação do consentimento. Antes e teoricamente, o consentimento que deveria ser livre e democrático, agora e na prática, o consentimento será apenas a reprodução do interesse desses grupos, veiculado através de suas ilusões necessárias.

foto: acervo pessoal

E, nesse caminho, a agressão se transforma em autodefesa, a vítima se transforma em agressor, o oprimido em opressor e todas essas ilusões que vamos nos acostumando a comprar sentados diante da TV, do jornal diário, da revista semanal ou do computador.

Em uma das passagens do livro, o autor relata como nos EUA, nos anos 40, “recorrendo-se uma vez mais a ilusão necessária se reivindicou, como ainda se reivindica, que as universidades praticamente haviam sido tomadas por totalitários de esquera – isto é que a ortodoxia havia perdido algo de sua força”. Nada mais adequado e atual, nesses tempos em que estudantes são tomados por criminosos.

É claro que essa prática não vem sem exageros e abusos dos meios de imprensa. Pelo contrário, esse extrapolar os limites é constante e ameaça, muitas vezes, a própria existência das instituições democráticas. No entanto, todo aquele que se insurge contra ditos abusos, tentando impor normas de responsabilidade e controlar os excessos, é e será acusado pelos meios de imprensa de exercer censura.  

Na verdade, e agora transportando a ideia de Chomsky para a nossa realidade, diferente não acontece por aqui. Com essa mesma lógica publicitária e midiática, somos diariamente convencidos de quem são os nossos inimigos. Nessa onda, é comum – se não é constante – ver a transformação do oprimido em inimigo e uma série de ilusões necessárias são embutidas e compradas. E, assim como naquela nação discutida pelo autor, também concordamos, sem concordar, em substituir nosso consentimento livre e democrático pelo consentimento fabricado.

E aí,

– a mulher que luta pelo direito ao seu próprio corpo é inimiga da vida;

– a publicidade que expõe a mulher como objeto que se limita a usar o corpo para conseguir o que quer, submeter-se ao marido, ou comemorar efusivamente um novo produto de limpeza (WTF) é apenas bom humor, nada mais; e os grupos que pretendem discutir tal  publicidade, censores;

– os estudantes que pretendem discutir sua segurança e proteção contra a violência institucional são todos maconheiros, filhinhos de papai e vagabundos;

– moradores de comunidades “dominadas” pelo tráfico são criminosos e a infeliz contingência de terem seus direitos violados diariamente em ocupações e operações já não surpreende ninguém, convencidos todos que estamos da necessidade de segurança.

É possível produzir uma lista infinita das desnecessárias ilusões que compramos. E a lista aumenta cada dia mais com a força de uma nova ferramenta: as redes sociais. A facilidade de disseminação de informações na rede proporciona uma renovação na forma de se fabricar o consentimento, na velocidade de retweets e compartilhamentos de posts. A absorção apática é a mesma antes citada e, talvez, um pouco pior, dada a facilidade e a velocidade comentadas. Não é preciso pensar, refletir, escrever, debater. As ideias já chegam prontas, transformadas em textos, figuras, frases de efeito, piadas. Basta um clique e você agora é o “dono” daquela ideia de cuja criação nem participou, excluído do debate que está por ter se contentado em simplesmente reproduzir consentimentos fabricados.

E é nesse cenário sufocante que movimentos sociais como o feminista, o LGBT, o movimento estudantil, os movimentos defensores de direitos humanos, as ONGs e comunidades militantes contra o racismo e tantas outras transformam-se em inimigos do consumidor de ilusões midiáticas. Mas é também nesse cenário sufocante que movimentos como esses se constituem em um real espaço democrático, de debate, dissenso e consenso livres. E quanto mais fortes, mais serão tidos por inimigos.

Por isso me parece apropriado finalizar com uma passagem genial do texto:

Meu sentimento pessoal é de que os cidadãos das sociedades democráticas deveriam empreender um curso de autodefesa intelectual para protegerem-se da manipulação e do controle e para estabelecer as bases para uma democracia mais significativa. 


Autor: Camilla de Magalhães Gomes

Professora, advogada, criminóloga wannabe e feminista. Genótipo + Fenótipo + Teimosia. Sonhando com uma vida mambembe, mais vadia e mais livre. "La frente muy alta, la lengua muy larga y la falda muy corta"

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