Trabalho demais, dinheiro de menos, dona de nada

É quando a gente bota na ponta do lápis que percebe a dimensão das coisas. Talvez eu não tivesse a dimensão do abismo entre homens e mulheres no que se refere a oportunidades. Tudo bem, a gente sabe que é desigual, mas só sabe o ponto em que a coisa ainda está quando vê a conta feita.

Um relatório do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), celebrado este ano por contar que já somos 7 bilhões de pessoas no mundo, coloca em números a relação trabalho e recompensa dividida por gêneros. Nós, mulheres, realizamos 66% do trabalho no planeta, mas só recebemos 10% da renda e somos donas de 1% – isso mesmo unzinho por cento – das propriedades existentes.

E justo hoje a diretora-executiva da ONU Mulheres, Michelle Bachelet, está no Brasil para participar de uma série de eventos, incluindo a 3a Convenção Nacional de Políticas para as Mulheres. Amanhã, se encontra com a presidenta Dilma Roussef.

Daí eu fico pensando aqui com meus botões se essa coisa de políticas para mulheres não é algo de a gente começar a fazer no varejo também. A própria ONU Mulheres tem uma frase de que eu gosto bastante: igualdade significa negócios.

Michelle Bachelet. Foto de UN Women no flickr em cc, alguns direitos reservados.

Cada uma de nós, no nosso dia-a-dia, com mais ou menos esforço, com mais ou menos resultado, pode fazer algo para diminuir essa diferença abissal do resultado que nós colhemos do nosso trabalho.

A ONU Mulheres tem 7 princípios de empoderamento (odeio essa palavra, mas também não tenho ideia melhor) das mulheres, aplicáveis a todo tipo de empresa:

1. Estabelecer liderança corporativa sensível à igualdade de gênero, no mais alto nível.

2. Tratar todas as mulheres e homens de forma justa no trabalho, respeitando e apoiando os direitos humanos e a não-discriminação.

3. Garantir a saúde, segurança e bem-estar de todas as mulheres e homens que trabalham na empresa.

4. Promover educação, capacitação e desenvolvimento profissional para as mulheres.

5. Apoiar empreendedorismo de mulheres e promover políticas de empoderamento  as mulheres através das cadeias de suprimentos e marketing.

6. Promover a igualdade de gênero através de iniciativas voltadas à comunidade e ao ativismo social.

7. Medir, documentar e publicar os progressos da empresa na promoção da igualdade de gênero.

CEOs de empresas do mundo todo aderiram à ideia, incluindo 43 empresas daqui do Brasil, algumas públicas e outras privadas. No link tem um pacote completo de informações sobre o assunto e como aderir: Princípios de Empoderamento das Mulheres.

E eu, na verdade, fico tentando enxergar aí uma forma de cada uma de nós, mesmo que seja com pouco, se comprometer a fazer alguma mudança, alguma diferença, algum tipo de avanço.

Meu pai tinha uma frase emblemática no discurso recorrente sobre a importância que tinha eu estudar e ser independente: quem paga manda.

Quem só tem 10% da renda e 1% da propriedade é condenada a obedecer. O comportamento só muda se os números mudam e isso só acontece quando a gente tem consciência da medida do problema.

Acompanhe mais notícias pelo blog oficial da 3° Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres.

Madeleine Lacsko

Jornalista profissional e mãe experimental.

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