Feminista e cristã?

As questões ligadas aos direitos da mulher vem influenciando a sociedade em vários aspectos: político, profissional, civil, doméstico e religioso. E é sobre este último aspecto que faremos uma pequena reflexão, abordando o dilema entre a fé tradicional e o papel da mulher feminista cristã na sociedade.

Cruz no Peito. Foto de Wonderlane no Flickr, alguns direitos reservados.

O movimento feminista gerou a reflexão teológica que levanta questões e denúncias que precisam ser ouvidas pela sociedade e pela igreja. Essas questões suscitaram o surgimento de diferentes correntes de teologias feministas que, de um lado, não vê nenhum sexismo radical e opressor no registro bíblico no que diz respeito à mulher; e, de outro lado, aponta o patriarcalismo bíblico, mas aceita a tradição cristã, ainda que conteste vários aspectos dela. E há, ainda, um feminismo mais radical, ou pós-cristão, que denuncia e rejeita o sexismo e o patriarcalismo presentes no cristianismo e busca restaurar as antigas religiões ligadas à natureza e fundamentadas na “consciência das mulheres”.

O feminismo também entrou nas igrejas. As mulheres emergem em voz e em visibilidade, questionando uma prática, uma instituição, uma linguagem, e uma teologia. Não significa que antes não estivessem presentes. Ao contrário, sempre estiveram presentes na vida da Igreja, mas sua presença era tida como auxiliar, e não como pessoa com cidadania plena. Com a nova consciência, as mulheres se articularam coletivamente em caminhos de transformação, em todas as instâncias práticas e da construção do saber. Introdução da Tese de Doutorado: Inculturação da Fé no Contexto do Feminismo de Gloria Josefina Viero.

Ao longo dos séculos, as mulheres têm sido alvo de injustiças, violência e opressão e muitas igrejas são responsáveis por tal situação, seja por participação direta ou por omissão, diante do tratamento desumano e cruel dado a tantas mulheres no mundo. E as mulheres cristãs têm se posicionado em uma das diferentes correntes citadas anteriormente: aceitação, conscientização ou rejeição de tal contexto.

Como cristã, tenho procurado não deixar que minha fé interfira em minha capacidade de julgar questões que oprimem e violentam a mulher, como o aborto, o divórcio e a violência doméstica, por exemplo. Não se trata de ser contra ou a favor, mas de se ter uma postura justa e que tenha em foco a dignidade da mulher.

Eu nunca provoquei um aborto, nem aconselharia alguém a fazê-lo; no entanto, não julgo as mulheres que o praticam por conta de minha crença. Ignorar a violência de um estupro e as mortes provocadas por abortos clandestinos seria, no mínimo, hipocrisia. Da mesma forma, defender que a mulher deva manter um relacionamento em que é alvo de violência física e / ou psicológica, até que a morte os separe, é obrigar que ela e seus filhos se submetam a um jugo opressor e desumano.

Não me importo se me julgam incrédula ou me consideram escandalosa em minhas opiniões. Uma mulher que, por dezoito anos sustentou e criou, sozinha, os filhos, enquanto o marido estava ausente envolvido com bebidas e outras mulheres, por mais cristã que seja, jamais será submissa a este homem. É muito conveniente “pregar” que as posições de liderança e comando pertencem ao homem, e que o nosso “desejo é para o nosso marido e que ele nos dominará”, sem observar a tirania que se esconde por trás de indivíduos que se usam da tradição cristã para oprimir e violentar sua companheira.

Particularmente, enquadro-me no grupo que aceita a tradição cristã, embora conteste vários pontos de suas práticas e linguagens. Só recentemente me declarei feminista, ainda que não me considere uma militante de fato, pois o feminismo requer estudo, posicionamento político e consciência plena das questões relacionadas à mulher. Estou lendo, pesquisando e discutindo sobre estas questões, especialmente as que envolvam as mulheres oprimidas pela tradição cristã.

E, mesmo não tendo o perfil de mulher dócil, submissa e calada que a sociedade espera da mulher, especialmente da mulher cristã , tenho consciência de que a fé que possuo satisfaz minha alma, mas não cega o meu entendimento. Respeito, consideração, amor, justiça, igualdade e dignidade, são direitos de toda pessoa, seja ela homem ou mulher.

Autor: Denise Rangel

Profª de Literatura e Produtora de Rodas de Leitura; Feminista; Ecoconsciente; Sturm und drang!

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