As mulheres de Lídia Jorge: Notícia da Cidade Silvestre

A escritora portuguesa, Lídia Jorge, recebeu reconhecimento internacional com seu romance denominado A Costa dos Murmúrios (1988), que se passa na África de colonização portuguesa, durante período bélico. O sucesso desse romance abriu caminho para uma adaptação, igualmente premiada.

Imagem de Lídia Jorge durante entrevista, na 57ª Feira do Livro de Porto Alegre

A força das obras de Lídia Jorge concentra-se, basicamente, na vivência psicológica das experiências femininas. Em A Costa dos Murmúrios, as duas mulheres centrais, que marcam a narrativa, são Evita e Helena. Evita mostra-se como uma mulher contestadora e impassível, ao contrário da submissa e “bem comportada Helena”.

Em Notícias da Cidade Silvestre também temos o binômio feminino, de um lado Júlia Grei e de outro, Anabela Cravo. A primeira carrega elementos de seu sobrenome, Grei, ou seja, trata-se de uma mulher que, embora viva suas pequenas revoluções, tende a ter um caráter mais estático do que sua amiga, Anabela Cravo, cujo sobrenome remete, não trivialmente, à famosa Revolução dos Cravos.

Imagem de divulgação

Júlia Grei é a viúva de um homem de ambições e decisões frágeis, cuja única opção corajosa da vida foi o suicídio. Além disso, é mãe de um pequeno problemático e irritadiço chamado, durante a maior parte da narrativa, de Jóia. Embora Júlia tenha tido outros amantes, aos quais diz ligar-se devido ao peso da solidão, a grande paixão de sua vida é o artista sem rumo e sem banho, Arthur Salema. Hmmm, amores, amados suados…

Já Anabela Cravo acredita-se uma daquelas poucas pessoas que se distingue do povo por sua sabedoria. Certamente, Anabela Cravo não é mais sábia do que Júlia Grei, mas supera esta em ousadia e determinação. Anabela Cravo é uma alma colecionadora de mistérios, de tramas, de homens poderosos, logo, de poder usurpado. Anabela Cravo, enfim e por fim, ama o poder e é capaz de fazer muitas coisas para atingi-lo. Suas metas determinam a intensidade de sua ousadia, assim como sua ousadia é determinada pela grandiosidade de suas metas.

Se, por um lado, Júlia é aquela mulher que se coloca na posição de ludibriada pelos homens, incapacitada para o realismo da vida; por outro lado, Anabela Cravo apresenta-se como a mulher que assume sua realidade e a transforma no outro e pelo outro. Dotada de personalidade calculista e objetiva, é ela quem mostra para sua amiga, Júlia, que a vida é como um rio, ou seja, tudo (entenda-se, também, todos) é, necessariamente, passageiro. De certa forma, ao dizer isso, o que esta personagem está assinalando é que tod@s nós estamos fadad@s a passar pela revolução que é personificada por Anabela Cravo. Se um rio não pode parar, nós, human@s, também não o podemos.

Sua trajetória é a metonímia de sua filosofia de vida. De jovem pobre, sexualmente violentada por um velho a quem passaria a chamar de “padrinho”, com a força e a certeza das guerras, Anabela torna-se uma advogada bem sucedida e independente. Dessa forma, ela encena o renascimento que deveria prosseguir à violência. Não aceita submeter a si mesma ao simulacro social de que mulheres devem ser frágeis, indecisas e incapazes de fazer mover seus objetivos. Aceita-se, portanto, como a real detentora de seu destino, manejando-o de maneira raciocinada a fim de atingir seus objetivos pré-determinados.

Assim, Anabela movimenta-se e movimenta a narrativa, até que decide afastar-se de sua amiga (Anabela é quem decide, porque é a personagem do domínio), após ter sido flagrada por Jóia na cama com um de seus amantes, o famoso advogado para quem trabalharia como estagiária. Esse relacionamento indica o estabelecimento de uma clara “troca de favores”, iniciada e empreendida pela mulher. A partir disso, pergunto-me: Seria errado trocar sexo por benefícios de quaisquer ordens, uma vez que ambas as partes estão de acordo? Por que o sexo seria uma moeda de troca menos “moral” do que todas as demais? Questionamentos a parte, devo ressaltar que esse não é um ponto de conflito para Anabela, pois esta se diferencia de Júlia, ao sentir-se licenciada a usar seu corpo, que constitui um bem inalienável, para atingir os objetivos traçados. Ela quer o poder. Os homens com quem se relaciona sexualmente querem sexo e alguma satisfação emocional e com tais objet(iv)os se estabelece o câmbio.

Enfim, a narrativa prossegue até o reencontro de Júlia e Anabela, onde descobrimos mais uma característica de Anabela, a fidelidade não só para com seus objetivos, mas também para com sua amiga. Ou seja, Anabela é humana e como tal não se encaixa em padrões. Não é apenas uma biscate ou uma mulher ambiciosa ou uma mulher piedosa. Ela é tudo isso e muito mais. Parece, na verdade, tratar-se de uma mulher que aprendeu a lidar com as agruras da vida, lembrando-se de que “se quiser alguém em quem confiar, confie em si mesmo”.

Muitas de nós fomos criadas para sermos mais Grei e menos Cravo. Fomos educadas para aceitarmos o destino e não para sermos revolucionárias. Mas que tal experimentarmos revolucionar um pouquinho nossos conceitos? Cravos e mais cravos é que eu quero ver passar por minha vida e desejo o mesmo para tod@s!

Autor: Talita R da Silva

Linguista apaixonada/inebriada/devotada. Viciada em literaturas e debates filosóficos/antropológicos/sociológicos. Aprecia acompanhar e opinar em debates da esfera política. E, claro, feminista em processo eterno de aprendizagem!

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