Tolkien e as mulheres ou…o dia em que simpatizei com um texto de alguém do Tea Party

Começo o post depois de hesitar um tantinho e de ter certeza de que meu terreninho é espinhoso. Esburacadinho. Porque falar sobre o Tolkien é falar sobre uma obra que é muito querida e sobretudo muito escafunchada, em suas versões literária e cinematográfica. Muita gente viu, muita gente leu, vários rememoram detalhezinhos e minúcias de cada arvorezinha genealógica e de cada conto – então já informo que este não é muito o meu caso. E peço aos leitores mais inflamados paciência. 😉

Tolkien nasceu na Inglaterra em 1892, finalzinho do século XIX, e publicou sua obra mais famosa, O Senhor dos Aneis, na década de 1950. É de se esperar, então, que sua visão a respeito da mulher e do seu papel na sociedade obedeça aos cânones de sua época, sua classe social, sua religião. Tanto O Senhor dos Aneis quanto O Hobbit (um livro infanto-juvenil, que vai para as telas dos cinemas em duas partes, em 2012 e 2013) são histórias primordialmente masculinas, protagonizadas por homens e com a maior parte de seus personagens sendo homens. Tolkien viveu em um mundo de predominância masculina e viveu num período de duas grandes guerras, momento em que as mulheres saíram dos seus lares para ocupar os postos deixados pelos homens que saíam para combate. Ele vivenciou, então, um período importante de modificação de papeis tradicionais femininos (após a Segunda Guerra as mulheres foram “chamadas de volta” ao seu lar e às suas funções tradicionais domésticas e valorizou-se a mulher feminina, devotada aos filhos, ao marido, responsável pelas refeições, pela tranquilidade e pela limpeza do lar, pelo conforto de toda a família).

A primeira tendência é apontar no texto de Tolkien um componente de misoginia forte, baseado na disparidade numérica entre personagens masculinos e femininos. Christine O’Donnell, representante do Tea Party e candidata republicana ao Senado norteamericano em 2010, conhecida por suas posições conservadoras em relação a questões como aborto, comenta “dizer que a falta de mulheres em ‘O Senhor dos Aneis’ o torna anti-mulheres é como dizer que Rob Reiner é chauvinista pela falta de mulheres no filme ‘Conta Comigo’ “ (tradução minha). Tolkien poderia ter criado dezenas de personagens femininos que representassem as mulheres de forma extremamente negativas; poderia ter feito o mesmo com a minoria das mulheres que retrata (eu conheço muitos muitos exemplos de obras literárias e cinematográficas que fazem isso, e você?). Não acho mesmo que é o caso de O Senhor… . Então comecei aí a quase concordar com a advogada conservadora do Tea Party, que agonia.

Depois de uma boa temporada sem assistir à trilogia e sem pegar os livros na mão passei por uma maratoninha de Tolkien semana passada. E gostei do que vi nas três mulheres que aparecem mais: Galadriel, Arwen e Éowyn. As três representam tipos femininos que se encontram e se distanciam, e que não são negativos nem ultrajantes.

Galadriel, senhora de Lothlorien. Cena de “A Sociedade do Anel” (2001)

Galadriel é uma elfa bastante antiga, descendente dos primeiros elfos a povoarem a Terra Média, e é conhecida pela sua sabedoria e pela sua liderança. Ela recebe um dos aneis forjados e entregues aos representantes dos povos da Terra Média, e lidera os elfos de Lorien em sua volta para Valinor. Sua neta, Arwen, é filha do senhor de Valfenda, outro reino élfico (posso falar assim?).

Ambas possuem a beleza, a inteligência e a sensibilidade dos elfos, embora Arwen não seja uma líder. No livro ela sequer participa do resgate de Frodo após a luta com os espectros do Anel e fico pensando que no filme ela apareceu porque ora, Liv Tyler é uma atriz bonita, é um atrativo do elenco, e precisava ter um pouquinho mais de relevo – talvez tenha sido mesmo uma estratégia dos roteiristas e do diretor do filme para que uma figura feminina tivesse um pouco mais de relevo (eu sou uma pessoa que crê nas boas intenções das criaturas, como vocês veem 😉 ). Mas ela é bonita, é suave e é devotada ao seu amor por Aragorn. E ela, a exemplo de Lúthien, sua antepassada (da Balada de Beren e Lúthien, um dos capítulos de O Silmarillion), abre mão de sua imortalidade para acompanhar a vida do homem que ama – no filme a fala dela é algo como “prefiro dividir uma vida com você a passar sozinha por todas as eras desse mundo”.

Lúthien e Arwen são heroínas românticas que enfrentam seus pais e escolhem um destino diferente daquele que era esperado ou desejado para elas. Elrond, pai de Arwen, ressalta o sofrimento que aguarda a filha caso ela escolha viver como mortal e também a lembra das péssimas qualidades dos homens – ainda que Aragorn seja um sujeito virtuosíssimo, herdeiro do trono, ainda que ele tenha sido criado uma parte de sua vida entre os Elfos, ainda que ele tenha ancestrais elfos também. As duas descem de seus pedestais, por assim dizer. E é interessante ver como essa “adaptabilidade” e esse “desprendimento” femininos são retratados em outras obras e outros filmes. Não é por acaso que a esposa do Sr. Incrível seja a Mulher-Elástico: ele é incrível, ele é forte, vistoso, porreta, mas ela se espicha, ela segura as pontas.

Aragorn e Arwen. Cena do filme “O Retorno do Rei” (2003).

Pra mim a grande questão é, como sempre, a possibilidade de escolha dessas personagens. Não é a obrigatoriedade de se casarem com determinado elfo, em uma união endogâmica, sem mistura de raças que pesa, e sim a vontade de ambas, que tinham sem dúvida outra opção. O caso de Lúthien é mais dramático porque quando Beren, seu amado, morre ela também morre para acompanhá-lo em seu julgamento. Ela recebe dos deuses a opção de voltar com ele à vida e se tornar mortal ou continuar imortal e ficar sozinha.

As opções são do gênero “entre a cruz e a caldeirinha”, mas elas seguem frente, se espicham, se adaptam, escolhem. É claro que é negativo que a mulher seja sempre aquela que abre mão do que lhe é caro – e esse é um dilema moderno sem dúvida alguma, já que na maior parte das vezes quem deixa de lado carreira acadêmica/profissional e projetos pessoais em função do lar é a mulher. Entretanto esta é uma escolha que deve ser respeitada –  o grande problema ainda é o fato de que a “falsa escolha” aconteça muitas vezes por falta de opção ou sob o signo da obrigatoriedade, da exigência. E qu signifique dependência e inferiorização.

Éowyn. Cena do filme “As Duas Torres” (2002).

Éowyn, do reino dos cavaleiros de Rohan, não recebe opções como as duas elfas. Ela é criada para ser uma mulher da corte, para se casar e ocupar uma posição secundária. Ela é mandada para as cavernas na batalha do abismo de Helm para cuidar das outras mulheres e crianças e quando os cavaleiros partem para a batalha em Gondor ela deve seguir só até o acampamento, como mulher da corte, e voltar para o palácio de Edoras, onde esperará pela volta dos guerreiros. Como manda o figurino. Éowyn se disfarça de homem (foi a possibilidade de resistência que ela encontrou num momento delicado, em que os líderes – homens – se mostravam intransigentes em relação à sua participação na guerra) e segue para o campo de batalha.

Sua identidade só é revelada para os combatentes quando ela mata o Rei Feiticeiro: ele diz que nenhum homem pode derrotá-lo, ela tira seu elmo e diz “mas eu sou mulher” e acaba com ele. É uma imagem extremamente forte, que de forma alguma é apagada pelo fato de que, assim como nas novelas de televisão, ela supera a decepção de ser rejeitada por Aragorn, comprometido com Arwen, conhece Faramir e se casa com ele. Casar no final da história não é ponto baixo de uma personagem feminina forte. Repetimos, é uma das opções que se colocam à sua frente. Se Éowyn não quisesse com certeza não se casaria com Faramir – escolheria outro sujeito ou até sujeito algum. Alguém duvida?

Finalizo então minha tergiversação um pouco melancólica. Concordando com a republicana conservadora antiaborto que critica as posições feministas que veem misoginia na obra de Tolkien, que diz que existem vários tipos legítmos de feminilidade representados ali; e até agora certa de que nem tudo é preto no branco e de que mesmo uma minoria de personagens femininos criados há mais de meio século pode render uma representação de qualidade de situações que mulheres em todo o canto ainda vivenciam.

*Imagem destacada: montagem feita a partir de cenas do filme “A Sociedade do Anel” (Galadriel e Arwen) e de imagem promocional do filme “O Retorno do Rei”.

Autor: Deh Capella

Sou bibliotecária, mãe, feminista, leitora, musical, curiosa. Baby, we were born to run.

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