Pelos, tê-los ou não tê-los?

A mulher está sempre enfrentando verdadeiras batalhas, especialmente quando se trata de questões que afetam sua auto-imagem, sua felicidade geral e seu conforto pessoal. Ela luta para fazer suas próprias escolhas sobre como se vestir, como se comportar, e até sobre como manter os peloss de seu próprio corpo. E o assunto se torna polêmico quando se trata dos pelos femininos.

Ficar bem na foto. by denise rangel

Parece um assunto sem relevância, mas, se o analisarmos bem, perceberemos que não o é, porque nos faz perceber como algo aparentemente tão simples pode realmente ser relacionado a tantos aspectos da vida, como atratividade, sexualidade, auto-estima e controle de pessoal.

Algumas mulheres gostam de um visual “bem cuidado” (depilada, cabelos arrumados); outras gostam um aspecto mais “orgânico”, mais natural. Em tese, toda mulher deveria, ela mesma, decidir se quer ou não gastar energia para desafiar as normas sociais e culturais, em uma sociedade que não tem muita (ou nenhuma) tolerância com os pelos do corpo das mulheres, desde a raiz do cabelo aos dedos dos pés.

Se uma mulher optar por usar os pelos do corpo e os cabelos completamente “ao natural”, enfrentará problemas pela frente. Ainda que ela acredite que tem o direito sobre seu corpo, a pressão para que faça os pelos “desaparecerem” e para que mantenha os cabelos “aceitáveis” aos olhos alheios, virá de todos os lados. Direta ou sutilmente, será questionada sobre suas escolhas. Para algumas mulheres, pernas e axilas sem pelos e cabelos coloridos e escovados são parte de sua preferência pessoal estética. Preferência, talvez influenciada pelo pensamento masculino, mas, ainda assim, é uma decisão dela. Ou, pelo menos, deveria ser.

Seremos mais ou menos feministas, ou mais ou menos femininas quando decidimos depilar ou não as pernas, as axilas e outras partes do corpo onde os pelos se manifestam? Ou deixarmos os cabelos com ou sem procedimento químico – lisos ou crespos, tingidos ou grisalhos? Se a mulher se sente completamente confortável, não acredito que esta escolha pessoal a torna anti-feminina ou anti-feminista. Pelo contrário, vejo-a como uma mulher inteligente, capaz de escolher e decidir entre uma variedade de imposições sociais sobre como proceder em relação aos pelos de seu corpo.

Muitas mulheres se submetem à dor e ao desconforto nos processos de depilação e tratamento capilares. Talvez a pressão para que sejam ‘higienicamente” lisinhas e agradavelmente apresentáveis é muito grande. E não são apenas os homens que as julgam, mas também as outras mulheres, caso tenham “excesso” ou “indesejáveis” pelos nas pernas, nas axilas ou na área do biquini. Ou caso se apresentem descabeladas e com cabelo branco em público. E esta pressão está crescendo dia a dia.

As mulheres tratam seus pelos e cabelos como um marcador social muito semelhante à escolha da roupa. Pernas ou axilas com os pelos visíveis tendem a pedir saias longas, calças compridas e blusas de mangas; enquanto as pernas e as axilas raspadas tendem a pedir saias curtas ou shorts, blusas de alças ou “tomara que caia” e saltos. Cabelos desgrenhados ou com os “brancos” na raiz impelem-nas a usar faixas, lenços e chapéus, ou a prendê-los em coques ou rabos de cavalo. Acontece o tempo todo.

Eu me declaro como uma feminista, e me orgulho de poder decidir sobre o meu corpo. Porém, eu também tenho um cabelo revolucionário e desafiador das normas sociais. Durante muitos anos, briguei com meu cabelo encaracolado e difícil de domar. E sempre quis ter a textura do cabelo mais liso, mais comportado. E submeti-me a vários tratamentos químicos para deixá-lo com a tal “boa aparência”.  Em várias ocasiões quis deixá-lo com seu branquinho natural e parar de alisar os fios crespos. Geralmente isto acontecia em período de férias. Nestas épocas, eu me sentia tão livre… E, quando a filha, uma amiga ou a família me dizia que eu deveria fazer um relaxamento e que o grisalho me envelhecia, pensava “a minha alma nunca envelhece”. Porém, as férias acabavam e o cabelo voltava a ser tingido e alisado, como manda “o figurino social”. Há cerca de quatro meses, decidi não mais alisá-lo. E a cobrança recomeçou.

Eu não raspo as pernas e eu estou perfeitamente feliz com minha escolha a cada dia. Tenho a sorte de ter poucos pelos e decidi que ia parar de fazer algo que julgava desnecessário. Mas, tenho de confessar que dificilmente uso shorts ou vestidos. Há uma enorme quantidade de pessoas que me questionam por “lutar nesta batalha particular feminista.” Não é uma batalha, é uma escolha. Eu me considero uma feminista, mas minhas principais questões feministas são muito maiores do que se eu tenho os pelos do corpo ou não.

Não concordo que decidir ter pelos ou não é uma “batalha feminista”. Os pontos de vista extremos de que as mulheres devem remover todo os seus pelos, especialmente em torno da linha do biquíni, é um pouco preocupante e sexista. No entanto, tirar o suficiente para se sentir confortável, não deve ser considerado como forma feminista ou anti-feminista. Se outra mulher deseja depilar as pernas, vá em frente! Eu não sou “peluda”, mas não tenho o direito de fazer algum tipo de instrução ou julgamento sobre ela.

Se há mulheres que gastam dinheiro para fazer a remoção de seus pelos ou sofrem dor por isto, eu respeito a sua escolha. Penso que podemos nos concentrar nas questões mais importantes do ponto de vista feminista sobre os pelos no corpo, de que tudo está certo se foi a melhor decisão.

Essa é a minha convicção sobre o feminismo: mulheres lutaram pelo direito de fazer escolhas. Nós lutamos pelo nosso direito de ficar em casa com nossos filhos ou ir ao trabalho, entre tantas outras conquistas. Então, temos o direito de decidir raspar os cabelos do corpo ou deixá-los crescer. O feminismo não trata, em parte, sobre as mulheres que têm o direito de tomar suas próprias decisões? Então, se você deseja remover ou transformar o cabelo do corpo, porque é a sua decisão, você não deveria ter que defendê-la.

Autor: Denise Rangel

Profª de Literatura e Produtora de Rodas de Leitura; Feminista; Ecoconsciente; Sturm und drang!

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