Outros marços virão

Mulher egípcia no Dia Internacional da Mulher de 2011. Foto de Al Jazeera English no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Sim, o 8 de março pode ser uma data de celebração para as mulheres. Afinal, é o seu dia. Um só, no meio de 364 outros que são de homens, brancos e heterossexuais – ao menos é o que dizem as más línguas.

Na Alemanha, cartaz convoca para a marcha do Dia das Mulheres, em 8 de março de 1914. Foto: AKG IMAGES /LATINSTOCK

“Parabéns” é o que vai não faltar nessa data. Mas parabéns por quê? Pelos salários menores? Pelas duplas ou triplas jornadas de trabalho? Pelos orgasmos fingidos? Pela gravidez forçada? Ou por tudo que conquistamos até aqui e tudo o que ainda falta?

Se as operárias russas do início do século XX recebessem bombons e flores em comemoração ao Dia da Mulher, talvez se sentissem ofendidas. Afinal, quando os protestos do dia 8 de março foram deflagrados, o que elas queriam mesmo eram melhores condições de trabalho. Não aguentavam mais as jornadas de 14 horas e os salários até três vezes menores que os dos homens.

Na época, as fábricas dos países desenvolvidos, que fazia pouco mais de um século haviam passado pela Revolução Industrial, estavam atulhadas de homens, mulheres e crianças. O movimento operário reagia à exploração desenfreada organizando protestos, muitos com cunho socialista. Entre as reivindicações, o fim do emprego infantil e remuneração adequada. A igualdade de gênero, porém, nunca era pautada. Por mais que as trabalhadoras argumentassem, sua renda era vista como complementar à do marido ou pai, e um pedido de salários iguais parecia afetar as “exigências gerais”. É nesse contexto de eclosão popular, sindical e feminista que surge o Dia Internacional da Mulher.

Os Estados Unidos foram, sem dúvida, um dos palcos dessa luta. Desde meados do século XIX, os operários organizavam greves para pressionar os proprietários das indústrias, principalmente as têxteis. Em terras americanas foi registrado o primeiro Dia da Mulher, em 3 de maio de 1908. Segundo o jornal The Socialist Woman, “1.500 mulheres aderiram às reivindicações por igualdade econômica e política no dia consagrado à causa das trabalhadoras”. No ano seguinte, a data foi oficializada pelo partido socialista e comemorada em 28 de fevereiro. Em Nova York, reuniu cerca de 3 mil pessoas em pleno centro da cidade, na ilha de Manhattan. A celebração foi mais um dos elementos no caldo político que irrompeu na greve geral dos trabalhadores do vestuário, em sua maioria mulheres jovens, em novembro de 1909. A paralisação durou 13 semanas e provocou o fechamento de mais de 500 fábricas de pequeno e médio portes. As condições de trabalho, no entanto, não melhoraram muito. Os proprietários das indústrias continuavam forçando o cumprimento de jornadas massacrantes. Para evitar que seus empregados saíssem mais cedo, boa parte deles trancava as portas durante o expediente e cobria os relógios de parede.

Em 1911, ocorreu um episódio marcante, que ficou conhecido no imaginário feminista como a consagração do Dia da Mulher: em 25 de março, um incêndio teve início na Triangle Shirtwaist Company, em Nova York. Localizada nos três últimos andares de um prédio, a fábrica tinha chão e divisórias de madeira e muitos retalhos espalhados, formando um ambiente propício para que as chamas se espalhassem. A maioria dos cerca de 600 trabalhadores conseguiu escapar, descendo pelas escadas ou pelo elevador. Outros 146, porém, morreram. Entre eles, 125 mulheres, que foram queimadas vivas ou se jogaram das janelas. Mais de 100 mil pessoas participaram do funeral coletivo.

Até hoje, muitas organizações e movimentos afirmam que essa tragédia aconteceu em 1857 e por isso reivindicam o mês de março como a data para comemorar a luta pelos direitos das mulheres. Como não há provas nem registros de que um evento similar tenha ocorrido, essa versão não é considerada verdadeira. Para os estudiosos, esse foi apenas mais um acontecimento que fortaleceu a organização feminina.

Funcionárias do Instituto de Resseguros do Brasil, primeira empresa no Brasil a ter uma creche para filhos das funcionárias. Foto: Divulgação/Revista Nova Escola.

De fato, o Dia Internacional da Mulher já havia sido proposto em 1910, um ano antes do incêndio, durante a II Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, realizada em Copenhague, Dinamarca. Clara Zetkin, militante e intelectual alemã, apresentou uma resolução para que se criasse uma “jornada especial, uma comemoração anual de mulheres”. A inspiração nas trabalhadoras do outro lado do Atlântico é explícita: para Clara, elas deveriam “seguir o exemplo das companheiras americanas”.

Sem data definida, mobilizações anuais pelos direitos das mulheres prosseguiram em meses distintos, em diversos países. Em 8 de março de 1917, uma ação política das operárias russas contra a fome, contra o czar Nicolau II e contra a participação do país na Primeira Guerra Mundial precipitou os acontecimentos que desencadearam na revolução de fevereiro. O líder Leon Trotsky registrou assim esse evento: “Em 23 de fevereiro (8 de março no calendário gregoriano) estavam planejadas ações revolucionárias. Pela manhã, a despeito das diretivas, as operárias têxteis deixaram o trabalho de várias fábricas e enviaram delegadas para solicitarem sustentação da greve. Todas saíram às ruas e a greve foi de massas. Mas não imaginávamos que este ‘dia das mulheres’ viria a inaugurar a revolução”.

A situação econômica e política da Rússia era então insustentável. Mais de 90 mil pessoas marcharam, exigindo pão e paz. Os protestos e as greves subsequentes culminaram na queda da monarquia. Alexandra Kollontai, uma das principais dirigentes feministas da revolução de outubro, afirmou que “o dia das operárias em 8 de março de 1917 foi uma data memorável na história”.

Em 1921, de acordo com a pesquisadora canadense Renée Coté, referência no estudo da história das mulheres, o 8 de março foi estabelecido como data oficial. Pesquisando arquivos da Conferência Internacional das Mulheres Comunistas, ela encontrou um documento que registrava que “uma camarada búlgara propôs o Dia Internacional da Mulher, lembrando a iniciativa das mulheres russas”.

Um pouquinho depois, só 56 anos, a ONU (Organização das Nações Unidas) reconheceu o 8 de março como Dia Internacional da Mulher. Era 1977. E aqui estamos, até hoje celebrando essa data.

Mulher egípcia no Dia Internacional da Mulher de 2011. Foto de Al Jazeera English no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

De lá para cá, o que mudou? Muita coisa, não tenho dúvida. A revolução das mulheres foi o grande acontecimento do século XX, parafraseando o historiador Eric Hobsbawm. Estamos longe da situação das operárias russas – ao menos no Brasil, nunca visitei a China para testemunhar –, avançamos no mercado de trabalho e chegamos até a presidência da República.

Tampouco vivemos em uma sociedade igualitária. A cada 2 minutos, 5 mulheres sofrem violência física em nosso país. Continuamos ganhando menos que os homens para ocupar as mesmas funções. Somos menos de 10% das eleitas para o Congresso Nacional. Seguimos sendo usadas como objeto sexual para vender cerveja. Não temos pleno acesso a nossos direitos reprodutivos. Essas – e muitas outras – são demonstrações mais do que claras da discriminação que persiste.

E insiste.

Perdemos também no debate feminista. O time do “já ganhou” entrou em campo para abafar nossas reivindicações e demandas, com um discurso de que as mulheres tinham chegado onde queriam e pronto, não precisavam de mais agitação. Queriam até enterrar o termo “feminismo”.

Mas outros marços virão, dia a dia, silenciosos ou não, em grandes atos ou pequenas conquistas do cotidiano. Seguimos. Aqui estamos, auto denominadas blogueiras feministas, para não deixar ninguém esquecer disso.

[+] Com informações publicadas pela própria autora na revista História Viva: Conquistas na luta e no luto.

[+] Nosso grupo construiu um panfleto para quem quiser distribuí-lo: Panfleto 8 de Março.

Autor: Maíra Kubík Mano

Jornalista, blogueira e doutoranda em Ciências Sociais na Unicamp. Foi editora do Le Monde Diplomatique, entre outras publicações, e professora da Universidade Federal da Bahia. Não passa um dia sem chá mate.

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