Prostituição e tráfico de pessoas: A Informante

Ah alguns meses, um amigo me indicou um filme que não foi lançado nos cinemas brasileiros (ao que eu saiba). Chama-se “A Informante” (2010).

Cartaz do filme “A Informante” (2010)

Conta a história, baseada em fatos reais, da policial estadunidense, de ascendência croata, Kathryn Bolkovac. Após um divórcio conturbado, ela aceita um contrato com a DynCorp, uma empresa de segurança privada militar, que presta serviços para as Forças de Paz da ONU, na Bósnia pós-tratado de paz. Em 1999, Kathryn parte para a terra devastada, e dividida por conflitos étnicos.

O estupro foi (é) usado como arma de guerra, nas cidades ou nos campos de refugiados. A assinatura do tratado de paz não alterou o cenário. A localização do país, entre a Europa ocidental e o leste (recém-saído da chamada “Cortina de Ferro”), e o cenário pós-guerra (com a ocupação do território por milhares de estrangeiros, recebendo pagamentos em dólar e libras esterlinas, longe de casa e das famílias), transformou Sarajevo em um paraíso para o tráfico e a exploração sexual de mulheres. Mulheres jovens, recrutadas ou sequestradas em países do Leste Europeu. Homens com dinheiro, e, pior, imunidade. O filme é forte, triste, dramático. E não oferece redenção.

Kathryn Bolkovac consegue denunciar vários dos envolvidos, que eram também contratados ou diretores na DynCorp e mesmo diretamente pela ONU. Os fatos aconteceram há mais de dez anos. Não houve punição. Em 2011, foi lançado o livro The Whistleblower (sem tradução no Brasil), onde Kathryn fala não só da questão do tráfico de mulheres mas também dos contratos privados de corporações de segurança privada com países e com a ONU (volta e meia se ouvem denúncias de abusos, por parte das populações civis, contra os atos desses seguranças – alguns, mercenários na pior acepção da palavra).

Prostituição Glamourizada

Em 1990, a Disney lançou um filme, chamado “Pretty Woman”, que lançou ao estrelato uma jovem atriz, chamada Julia Roberts. Sim, estou falando de “Uma linda mulher”. Depois de ser treinada pelo concierge do hotel chique, e vestida como uma “dama” com o dinheiro do cliente rico, a prostituta Vivian Ward é resgatada pelo personagem de Richard Gere. Ouvi uma vez o boato de que o roteiro original de “Pretty Woman” era bem diferente. No final, o personagem de Richard Gere iria embora e Julia Roberts ficaria na sargeta, onde, provavelmente morreria de overdose, como a prostituta Skinny Marie, morta em uma das cenas iniciais.

No ano 2000, uma garota de programa, cujo personagem se chamava “Capitu”, foi uma das histórias paralelas de maior sucesso da novela global Laços de Família, do horário nobre. Foi espancada, xingada, humilhada… expurgou seu “pecado” e viveu feliz para sempre com o amor de infância (é isso mesmo, produção? )

Ano passado, foi lançado o filme com a história de Raquel Pacheco, a Bruna Surfistinha. Raquel não era espancada, não era abusada sexualmente e optou pela prostituição como profissão. Fez um blog, virou livro, virou filme, com uma estrela de telenovela glamourosa (Deborah Secco) interpretando a ex-prostituta. Participou de reality show, mostrou a cara. Casou-se com um de seus clientes. Quase uma “pretty woman” brasileira…

“A Informante” trata do lado cruel, real, dolorido e invisível da prostituição e do tráfico de pessoas. É sobre isso que fala a campanha do vídeo: Girls Going Wild in the Red Light District.

Prostituição: uma questão complexa

Há no feminismo diferentes correntes, contra e a favor da regulamentação da prostituição. Não há consenso.

Em seu artigo “Prostituição e a Liberdade do Corpo” (pdf), a professora doutora em Ciências Sociais pela Unicamp, Elisiane Pasini descreve que há dois grandes grupos que se polarizam em torno desta questao, sob uma perspectiva feminista. De um lado, autoras feministas radicais que dizem que a prostituição é um ato de submissão/escravidão da mulher e, de outro lado, autoras feministas liberais que defendem que a prostituição é o exercício de uma escolha. Referência: Vida de “puta”: trabalho, liberdade ou escravidão?

Falo da minha impressão sobre um fime, baseado em fatos reais ocorridos há mais de dez anos na Europa Oriental. Porém, poderia falar sobre o que acontece no posto de gasolina do outro lado da rodovia, há poucos quarteirões de onde moro. Ou, sobre o que acontece nas estradas de Minas Gerais. Prostituição forçada, prostituição de crianças, tráfico de pessoas.

Uma consequência: tráfico de pessoas

De acordo com dados da ONU e de várias ONG’s internacionais, o tráfico de pessoas representa hoje no mundo inteiro um grave problema, pois esse tipo de crime organizado transnacional está fortemente atrelado à exploração sexual, ao comércio de órgãos, à adoção ilegal, à pornografia infantil, às formas ilegais de imigração com vistas à exploração do trabalho em condições análogas à escravidão, ao contrabando de mercadorias, ao contrabando de armas e ao tráfico de drogas.

Segundo Vicente Faleiro*:

A prostituição pode ser vista tanto como falha moral, como opção de trabalho, ou escravidão. O moralismo culpa e reprime. A opção é valorizada por várias/vários profissionais do sexo, mas muitos relatos afirmam a falta de opção diante da pobreza, do abandono, da violência familiar e social, da falta de escolarização e de oportunidades. É um fenômeno diversificado e relacionado à mercantilização do corpo, seja feito por conta própria, seja em rede comercial, pois o corpo é usado e exposto como uma mercadoria, seja nas ruas, nas paradas de ônibus ou mesmo em vitrines.

A rede da prostituição é, na maioria das vezes, invisível, podendo envolver o crime organizado, com operadores de aparente vida comum. As/os profissionais do sexo, portanto, podem ser explorados/das por vários agentes ao mesmo tempo, como cafetões ou rufiões que o Dicionário Houaiss chama de “indivíduo que vive à custa de mulher pública, a quem simula proteger; gigolô, proxeneta, intermediário entre amantes; alcoviteiro”. O estigma aplicado a “mulher pública” não existe para “homem público”, numa clara discriminação do gênero feminino.

Para se enfrentar essa questão também existem formas diferentes de política. A abolicionista propõe erradicar totalmente essa prestação de serviços, inclusive pela repressão. A regulacionista estabelece normas trabalhistas, educativas e sanitárias para profissionais do sexo e medidas educativas junto aos clientes. A posição do laissez-faire supõe que o mercado atue livremente. No Brasil, o exercício da prostituição de adultos é permitido, mas são criminalizados seu favorecimento, o tráfico, a casa de prostituição, o rufianismo, ou seja, transformar o corpo em objeto de lucro de outrem.

No entanto, quando penso em regulamentação da prostituição, falo de um trabalho que seja voluntariamente exercido. E, mesmo voluntariamente, carrega uma carga de cunho pejorativo tremenda, um estigma que imagino que não seja fácil de superar. No caso da prostituição forçada, de estupros repetidos, de ameaças de morte, isso não é uma profissão. É escravidão.

De acordo com a Polícia Federal, as quadrilhas que comandam o tráfico de pessoas só perdem em lucratividade para as de tráfico de drogas e de armas. A ONU estima que a máfia de pessoas movimenta por ano mais de US$ 30 bilhões. Cerca de 10% desse dinheiro passa pelo Brasil. A principal dificuldade do poder público para enfrentar essas quadrilhas é a falta de um órgão dedicado exclusivamente ao tema. Outro problema, até mais grave, é o alto grau de corrupção que envolve essa modalidade de crime. “O tráfico é diretamente dependente da corrupção. No caso do Brasil, esbarramos também na falta de informações oficiais. Um país sem controle e sem números sobre um crime é um país sem ordem”, diz Sacco. Referência: Tráfico de Pessoas – Revista IstoÉ, 10/2011

Campanha contra o tráfico de pessoas da ONU e do Governo Federal

A exploração de seres humanos é um ato abominável. Obviamente, o capitalismo É a exploração de um ser humano por outro e isso é deplorável por si. Quando a exploração ocorre sem sequer a ínfima contrapartida de um salário e da ilusão de “vencer na vida”, proporcionada pelo capitalismo e pela liberdade de iniciativa privada, não é simplesmente exploração. É escravidão.  É um crime que atinge milhões de pessoas em todo o mundo. Desses milhões de pessoas, 80% são mulheres, crianças e adolescentes, usados para exploração sexual e prostituição forçada. E, ainda existem os casos de trabalho escravo sem finalidades sexuais. No Brasil, notícias recentes retratam um universo de pessoas,  geralmente imigrantes ilegais, sendo explorados por confecções no coração da Grande São Paulo. Ainda, há notícias e denúncias, inúmeras, sobre a exploração de trabalho escravo em canaviais e na pecuária.

A prostituição no Brasil

Atualmente, há uma proposta de lei para regulamentar as casas de prostituição no Brasil. Essa proposta foi reaberta pelo Deputado Federal Jean Willys, do PSOL. Mesmo em países onde a prostituição é regulamentada existem problemas. Onde ela é totalmente proibida, com a criminalização do explorador, da(o) prostituta(o) e do cliente também existem problemas. O tema é muito complexo e não me proponho a tratar dele aqui, neste momento. Sugiro a todos nós leitura, informação e debate qualificado. Mas, quanto à exploração sexual de pessoas coagidas, enganadas, iludidas, esta é uma batalha que não pode deixar de ser travada de forma unânime.

No momento, a prostituição no Brasil tem o seguinte tratamento:

  • para a pessoa que presta o serviço sexual não é crime.
  • para o cliente que paga pelo serviço sexual, não é crime, com exceções. Se a pessoa que presta o serviço for menor de 14 anos, será considerado estupro. Se a pessoa tiver mais de 14 e menos de 18 anos e está submetida a exploração sexual será considerado crime.
  • para quem explora a prostituição e obtem vantagem é crime.

Para quem não assistiu o filme, recomendo. Como já disse, é triste, denso e não oferece redenção. Mas, é importante conhecermos a luta de pessoas que combatem tais barbaridades. Gera alguma esperança.   O tráfico de pessoas está mais próximo do que você imagina.

Oriente quem puder, para que não sejam vítimas de golpes. E participe de ações concretas: informe, denuncie, aponte. Exija a punição. Para denúnciar a exploração sexual e a violência contra a mulher, ligue 180 de qualquer lugar do Brasil. Para denúnciar maus tratos, abuso e exploração de crianças e adolescentes, ligue 100 de qualquer lugar do Brasil.

Para denunciar o trabalho escravo, procure o Ministério Público do Trabalho, as Pastorais da Terra, as Delegacias Regionais do Trabalho ou use os canais de denúncia anônima (se for o caso) da polícia do seu Estado. Você pode fazer a diferença para alguém.

*Referência: FALEIROS, Vicente de Paula. Violência e Barbárie. O extermínio de crianças e adolescentes no Brasil. In: Rizzini, Irene. (Org.). A Criança no Brasil de hoje: Desafios para o Terceiro Milênio. Rio de Janeiro: Editora Universitária Santa Úrsula, 1993.

Renata Lima

Mulher em um mundo masculino. Delegada de Polícia. Tuiteira, blogueira, leitora compulsiva. Feminista, libertária, de esquerda. Contradição? Não. Liberdade.

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Sobre: Renata Lima

Mulher em um mundo masculino. Delegada de Polícia. Tuiteira, blogueira, leitora compulsiva. Feminista, libertária, de esquerda. Contradição? Não. Liberdade.

21 Comentários para: “Prostituição e tráfico de pessoas: A Informante

  1. Belíssimo post, Renata. A exploração sexual é um mal que aflige um número absurdo de mulheres, principalmente as jovens. Acho importante ressaltar também a condição dessa mulher, na maioria das vezes, negra, jovem e pobre é a maior vítima dos exploradores. Seja pela própria condição e da falta de opção que vc apontou no texto, ou pela falta de informação e na crença de “uma vida melhor” no exterior. Acho que a exploração sexual começa e passa também pela crença de que a mulher brasileira é a mais gostosa, ou que uma das nossas maravilhas naturais é o corpo da mulata que samba no carnaval. Acredito que combater a exploração sexual começa com o combate a esses mitos da beleza e da “gostosura” de nós mulheres brasileiras. E ai acho que a mídia teria um papel fundamental nisso. Nós não podemos ser mais um produto brasileiro.
    É isso.

    • REalmente, Ludmila, a questão da visão exportada das brasileiras é um fator agravante. Mas infelizmente, isso é mundial. As tailandesas tem o mesmo estigma, e as russas tb são grandes alvos.
      O problema é mundial, infelizmente.

      Abs!

  2. Moça, muito bom o post. Mas senti falta da menção e um dos livros, na minha opinião, mais interessantes sobre o tema. Não estou falando academicamente, claro. É um livro de um jornalista, muito corajoso, diga-se de passagem. É “O ano em que trafiquei mulheres” do Antonio Salas.

    http://www.antoniosalas.org/

    • Maitê,
      boa indicação, não conhecia.
      Eu conheço o tema apenas superficialmente, não atuo nesta área, e o que me despertou para escrever sobre o tráfico de pessoas foi o filme, A Informante.
      Vou procurar sua sugestão, obrigada!
      Abs
      Renata

  3. Adorei o post! Estou passada que não houve punição mesmo depois da mulher escrever um livro e a parada toda virar um filme. Que mundo é esse?!?!

    • Obrigada, Amanda!
      Foi um soco no estômago. Eu pesquisei, não estava acreditando.
      E não, eles não enfrentaram acusações criminais.
      Foda, né?

  4. Muito bom post Renata, abordou o tema sob diversos prismas. Eu, particularmente, me alinho mais ao feminismo libertário, de modo que vejo que a prostituição é boa, desde que seja uma atitude voluntária de quem a pratica. Desde que a mulher seja soberana de seu corpo, não há mal em usá-lo como bem lhe aprouver.

    Concordo com a maioria dos pontos levantados pelo texto, mas gostaria de levantar que a ideia de que o capitalismo é a exploração de um ser humano pelo outro é falsa. O verdadeiro livre mercado é feito de trocas voluntárias, e não coercivas.
    Um texto muito interessante sobre esse tema: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=714

    Ademais, parabéns pelo texto.

    • Bem, Uriel, eu tb me alinho mais à posição libertária, quanto à questão da prostituição. Mas este é um dilema histórico e ainda estou estudando para poder defender mesmo um ou outra posição…
      Quanto ao capitalismo, bem, ele é essencialmente desigual, porque alguns sempre terão mais moeda de troca do que outros. E a desigualdade, leva à exploração, vc não acha? Mas vou ler o artigo sim, grata pela indicação, pela visita e pelo comentário!
      Abs

  5. Renata, muito bom o texto, conseguiu abordar o tema por todos os prismas.

    Eu, particularmente, me alinho mais com o feminismo libertário, de modo que não vejo nenhum mal na prostituição, desde que seja uma decisão voluntária da mulher. Desde que a mulher seja soberana de seu corpo e de sua vida, qualquer decisão sua é válida.

    Gostaria de levantar que a ideia apresentada no texto de que o capitalismo é a exploração de um ser humano por outro é falsa. O verdadeiro livre mercado é pautado por trocas voluntárias, e não coercivas. Práticas como o tráfico de pessoas vão totalmente contra a filosofia do mercado. Pessoas não são produtos, e tratá-las como tal é crime hediondo.
    Aqui um texto interessante sobre o tema da suposta exploração do trabalhador pelo empregador: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=714

    Ademais, parabéns pelo texto.
    Abraços

  6. Muito bom o texto.

    Fiquei com uma dúvida. Quando você diz que “Se a pessoa tiver mais de 14 e menos de 18 anos e está submetida a exploração sexual será considerado crime”, exploração sexual aqui quer dizer o quê? Só se houver um cafetão no meio?

    • Eneida, se a prostituição for voluntária, individual, em tese, digamos, não seria crime para o cliente.
      Claro que é muito complicado, eu acredito que a mera palavra do adolescente menor de 18 anos, dizendo que é “autônomo”, não deveria valer, sem observar outros elementos, mas de fato, fica difícil provar se o adolescente ou a adolescente não falar que entrega o dinheiro para alguém, que trabalha sob ordens de outra pessoa. Eu acredito que os tribunais ainda terão que deliberar bem sobre isso, porque o termo “exploração” é meio vago, e palavras vagas, no direito… bem, a questão da presunção de violência no antigo artigo 224 a gente viu o que rolou, né?
      Mas esse o legislador. A gente vê que ele também não sabe bem o que fazer com a questão da prostituição, se libera, se proibe tudo…
      Eu tenho sérios dilemas quanto a isso, a minha formação jurídica e minha atividade profissional muitas vezes colidindo com a militância recente na seara feminista.
      Vou pesquisar como os tribunais tem entendido, porque, até 2009, quando foi inserido o artigo 218-B no Código Penal (pela mesma lei que criou o estupro de vulnerável e acabou com a questão da presunção, se é absoluta, se é relativa), os tribunais entendiam que o crime era só quem submetia o adolescente à exploração, ou seja, só o cafetão mesmo. Com a nova lei, ficou assim:

      Favorecimento da prostituição ou outra forma de exploração sexual de vulnerável (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009)

      Art. 218-B. Submeter, induzir ou atrair à prostituição ou outra forma de exploração sexual alguém menor de 18 (dezoito) anos ou que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, facilitá-la, impedir ou dificultar que a abandone: (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009)

      Pena – reclusão, de 4 (quatro) a 10 (dez) anos. (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009)

      § 1o Se o crime é praticado com o fim de obter vantagem econômica, aplica-se também multa. (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009)

      § 2o Incorre nas mesmas penas: (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009)

      I – quem pratica conjunção carnal ou outro ato libidinoso com alguém menor de 18 (dezoito) e maior de 14 (catorze) anos na situação descrita no caput deste artigo; (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009)

      Então, pela leitura seca da lei, parece-me que sim, que o cliente eventual só comete o crime do parágrafo 2º se a pessoa prostituída estiver sob o jugo de outrem…

      Abs

  7. Adorei o teu texto. Gostaria de saber se já vistes TRÁFICO HUMANO… Também é um filme sobre tráfico de mulheres para a escravidão sexual. É um filme belissimamente feito. E muito triste; tem um final meio hollywood, só que bem amargo.

    • Oi Mynah!
      Obrigada, que bom que gostou!
      Ainda não vi não, mas vou procurar!
      Eu vi vários posters dele, enquanto buscava imagens de A Informante, mas ainda não consegui o vídeo. Valeu!
      Abração!

  8. Oi Renata! Sempre gosto bastante do que você escreve por aqui, no geral sempre esclarecendo situações confusas para um público leigo e analisando casos com uma ótica bem feminista. Gostei da estratégia de introduzir um tema por meio do relato de um filme e/ou de um livro, mas acho que se o tema era tráfico de pessoas para a exploração sexual o texto deveria ter tratado disso até o fim, e não misturado prostituição com tráfico de pessoas para a exploração sexual. Ou se a idéia era diferenciar um do outro então melhor se concentrar só em fazer a diferenciação pura e simples.
    Digo isso porque o texto deixou as duas coisas bem misturadas, sobretudo para um público leigo, que não faz idéia do abismo que pode existir entre essas duas coisas, abismo este coberto por uma nuvem de tabus, preconceitos e desinformação, que fazem com que tudo seja colocado no mesmo saco na maioria dos casos.
    Já que o texto segue o caminho de falar tanto de uma coisa como de outra, achei também que faltou mencionar algo da visão dxs trabalhadorxs sexuais, escrito ou dito por elxs mesmxs, sobre o seu trabalho e o sobre o tráfico para exploração sexual. Mundo afora existem inúmeras organizações de trabalhadorxs sexuais, as quais têm como importante bandeira a questão do tráfico de pessoas. Isso porque essxs trabalhadorxs são em muitos casos vitimizados pelas legislações e programas de combate ao tráfico de pessoas. Essas organizações tentam, por meio de inumeras estrategias, influenciar as políticas e as maneiras de caracterizar, detectar e combater o tráfico de pessoas, e inclusive diferenciando prostituição e exploração sexual.
    A política da Nações Unidas no que diz respeito ao tráfico de pessoas hoje é totalmente nebulosa e baseada em preconceitos e formas de discriminação étnica, social, racial etc etc etc. Só resumindo, a política de combate ao tráfico da ONU é muito mais parecida a uma parafernalha internacional que está bem pouco preocupada com o tráfico de pessoas propriamente dito, e sim e muito mais com a migração de mão-de-obra pouco qualificada do Sul para o Norte, dentre as quais está o trabalho sexual. Além disso, há uma supervisibilização do tráfico de mulheres e crianças e da exploração sexual em relação ao tráfico de homens e outros tipos de exploração, dos quais se tem, inclusive, muitssimo pouca informação. Pior ainda, a maioria das vítimas reais do tráfico pode estar encoberta por essa maneira tendenciosa de detectar vítimas e combater o tráfico. Para ver como essa „definição confusa“ da vítima é bem coerente com os propósitos de perseguir migrantes, basta ver como são tratadas as supostas „vítimas“ do tráfico na esmagadora maioria dos casos: são mulheres, que são levadas presas, ficam em isolamento nos aeroportos e são embarcadas nos aviões pela pista, e não pelo portão de embarque, já que chegam escoltadas por policiais em viaturas e ainda algemadas. Na maioria dos casos, estas „vítimas de tráfico“ relatam não ter recebido nenhum dos tratamentos de auxílio previstos para as vítimas de tráfico, mas sim relatam inumeras vexações, humilhações e agressões, inclusive físicas.
    Enfim, um dos motivos pelos quais essas organizações de trabalhadorxs sexuais defendem a diferenciação entre tráfico e prostituição voluntária é exatamente que, na perspectiva delas, o aparato contra o tráfico as vitimiza ainda mais e não é eficiente quanto as reais vítimas de exploração sexual e de tráfico de pessoas, ja que aponta em outra direção.
    Mas não quero me extender ainda mais. Só queria atentar sobre esse abismo entre prostituição e tráfico para exploração sexual. Acho que colocar as coisas nos seus devidos lugares e evitar informações confusas ajudam a combater a disseminação dos preconceitos e discriminações!

    Beijos e até mais! ;)

    • Oi Brunela!
      Primeiro, obrigada pela visita e pelo comentário. Fico feliz que você goste dos posts!
      Segundo, bem, eu acredito que tentei fazer exatamente isso, de colocar a distinção entre quem voluntária e de forma autônoma trabalha como profissional do sexo, prestando serviços de natureza sexual, e nesse caso, EU sou a favor de regulamentação (mas não faço ideia de como fazer isso, quem sabe cooperativas?) e a pessoa que é submetida à exploração sexual, que é coagida, chantageada, ameaçada, privada da liberdade.
      A questão é que não dá pra falar de um, sem falar de outro, uma vez que a grande parte, senão a maioria dos casos de escravidão humana estão ligados à exploração sexual.
      E tem uma autora, a Kara Abramson, que fala sobre isso em um artigo publicado no Harvard International Law Journal, em 2003, na qual ela fala sobre a questão da escolha, e da opção politica da ONU, ao ir além da questão do consentimento, na questão do tráfico de pessoas.
      E aqui, como eu disse para a Eneida no comentário anterior, minha formação jurídica chega a colidir as vezes com a militância feminista: porque para mim, como feminista, a autonomia é essencial. Mas eu entendo, juridicamente, o tratamento, entende? Porque a questao de tratar como vítima é uma escolha juridico-politica com repercussões tão imensas que ainda estou estudando para poder falar sobre.
      Quanto à sua sugestão da gente colocar falas de prostitutas autonomas, bem, é uma boa ideia, e como eu disse no texto, a gente precisa se preparar, com um debate qualificado, porque eu, sinceramente, fico dividida com a questão do tratamento a ser dado aos clientes e até aos administradores de uma casa de prostituição.
      Em teoria, eu imagino que a prostituição é um trabalho como outro qualquer, mas culturalmente, não é assim que é tratado.
      Uma pessoa que alugasse quartos, oferecesse segurança, higiêne, e pagasse salário, ou recebesse percentual do lucro, seria um “cafetão”?
      Pela lei atual, sim.
      E a figura do cafetão, que a gente vê, é a do cara que bate e toma o dinheiro, não é?
      E claro, não é só a exploração sexual que caracteriza o tráfico de pessoas, você tem razão.
      A industria agrária é uma das maiores empregadoras de mão de obra escrava, seja no Brasil ou em qualquer outro lugar do mundo, inclusive na famosa “terra da liberdade”, onde se estima que existem também milhares de pessoas em condições análogas à de escravos, em fábricas, lavouras, e até residências, como domésticos.
      O tratamento dado em geral pelas campanhas é bem focado na questão da prostituição, e de novo, você tem razão em apontar que isso se deve à uma nuvem de tabus, preconceitos e desinformação quanto ao tema da prostituição.
      Mas o vídeo inserido no final é de uma campanha que mostra inclusive as várias formas de escravidão, ligadas ao tráfico interno e internacional de pessoas, né? E não só sexual.
      Bem, vou continuar lendo a respeito, me informando, e quem sabe, em outra oportunidade, a gente retome o tema e o debate.
      Abração!

  9. Oi de novo! Eu ainda não conheço esse texto, e na verdade não sou jurista nem nada do estilo. Obrigada pela dica! Imagino mesmo, como você disse, que as implicações de implantar uma lei que regulamente o trabalho sexual sejam realmente infinitas – a começar pelo bombardeio da patrulha moral que vai contra, como bem já vimos com outros temas como o aborto, recentemente. Mas acho que nem por isso temos que deixar de ficar em cima. E no caso do tráfico de pessoas, que é caracterizado como crime transnacional, acho também importante criticar o que já existe, porque são leis ineficientes do ponto de vista do combate ao verdadeiro tráfico de pessoas, e que institucionalizam a discriminação contra trabalhadoras sexuais voluntárias migrantes. Mas acho que escrevi tanto que não sei se ficou clara a intenção! hehe. Bom, de qualquer forma, aqui há uma coletânea interessante de textos sobre o tema, feita pelos Cadernos Pagu já há algum tempo. Possivelmente você já conheça, mas posto mesmo assim pra aquelas que também quiserem ter mais coisas pra ler. Recomendo especialmente os textos da Kamala Kempadoo, da Laura Agustín e o da Glória Barrero. Abraço e até a próxima! ;)

  10. Excelente seu post Renata! Se puder (e quiser) procure o filme Anjos do Sol. É nacional e narra a estória de uma garota de 12 anos que é vendida pelos próprios pais para agentes de prostituição. A estória é baseada em fatos reais – e mais que comuns – e se não me engano, quando a conheceram na beira de uma estrada, ela tinha o apelido de “50 centavos”. Contundente, pesado, angustiante e, infelizmente, real…

  11. Oi Renata,
    Adorei o texto. Bastante esclarecedor.
    Assisti ao filme ontem, e fiquei indignada com o final. A mulher batalhou tanto para nada. Coitada. Infelizmente esse é o mundo que vivemos. Ao menos o filme consegue passar uma mensagem de alerta.

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