Solidariedade às xerecas satânicas

Durante este fim de semana pipocaram na mídia notícias sobre um evento que ocorreu semana passada no campus da Universidade Federal Fluminense (UFF) de Rio das Ostras, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, conhecido como “evento da xereca satanik”. Segundo imagens e relatos: “No meio da festa, uma menina tirou a roupa, deitou em cima da mesa e outra costurou a parte íntima dela”.

Está muito claro para nós que esse tipo de ação é uma performance. A mulher que teve o órgão genital costurado fez, junto com outras pessoas, uma performance extrema que visa provocar reações e questionamentos nas pessoas. Gostar ou não desse tipo de ação é indiferente. Não vemos nenhum crime nisso. Infelizmente, as mulheres envolvidas já estão sendo perseguidas com a divulgação das imagens. O corpo humano é espaço de disputa social, especialmente o corpo da mulher. Portanto, devemos lutar para que todas as formas de expressão sejam livres.

De acordo com Daniel Caetano, chefe do departamento em que esse evento foi promovido, em mensagem publicada no Facebook no dia 01/06/2014:

O evento “Xereca Satânica” foi promovido por alunos do curso de Produção Cultural dentro da programação de uma disciplina cujo tema era “Corpo e resistência”.

Após um dia de apresentação de seminários e muitas discussões os alunos promoveram uma performance, realizada por um coletivo que se dispôs a vir de Minas Gerais apenas para isso. É um coletivo que está habituado a fazer performances como a que aconteceu, feitas para chocar a sensibilidade das pessoas e fazê-las pensar sobre seus próprios limites.

Infelizmente, há pessoas que acreditam que o mundo deve ser moldado à sua imagem e semelhança, sem permitir qualquer espécie de desvio do padrão ou mesmo qualquer espécie de afronta à sua sensibilidade confortável, conformista e preguiçosa. A costura de partes do corpo, inclusive da região genital, não é novidade para qualquer pessoa que tenha lido mais de um parágrafo sobre arte contemporânea posterior aos anos 1970. Sugiro a quem quiser saber mais sobre o assunto que pesquise os trabalhos de pessoas como Marina Abramovic e Lydia Lunch. A performance tinha como um dos objetivos denunciar a constante violência contra mulheres na cidade de Rio das Ostras, onde as ocorrências de estupros estão entre as maiores do país.

[+] Moção de apoio enviada pelo colegiado do curso de Produção Cultural sediado em Niterói: Causa-nos espanto o grau de estranheza e criminalização com a qual tanto a perfomance da artista Raissa Vitral, quanto a própria universidade foram tratadas nos últimos dias. Por se tratar de um espaço de experimentação de linguagens e reflexão – com seus evidentes riscos de choque à moral e ao senso comum -, é justamente na universidade onde devem ser expostos os descontentamentos, estimulados os debates, e negados quaisquer vícios de censura”.

[+] Posicionamento do C.A. Procult UFF-Rio das Ostras acerca do “Seminário Corpo e Resistência”: Apresentamos também nosso total repúdio a toda e qualquer forma de criminalização, de repressão ou de tolhimento das atividades ligadas à pesquisa e a produção de conhecimento artístico-científico no âmbito acadêmico, quer seja por parte da própria Universidade Federal Fluminense, que não demonstrou qualquer tipo de apoio ou deu respaldo ao corpo docente de sua unidade de Rio das Ostras, quer seja por parte dos grandes veículos de comunicação, ao divulgarem de maneira irresponsável e leviana, dados incorretos sobre o evento, colocando em risco a integridade física, moral e psicológica dos envolvidos”.

As manchetes nos principais portais afirmam que a Polícia Federal está investigando essa festa polêmica. Em algumas é possível ler: “Inquérito foi aberto para apurar uso de droga, álcool, orgia e ritual satânico”. Ritual satânico é crime? Orgia também? Álcool? O único problema que acreditamos poder haver é a autorização da utilização do espaço da universidade para a realização de um evento, mas isso pode ser investigado por meio de procedimentos internos.

Por isso, nos solidarizamos com as pessoas que protagonizaram a performance e publicamos o Manifesto em Solidariedade às Xerecas Satânicas de autoria coletiva que está circulando como apoio nas redes sociais.

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Xereca Satânica é arte, Xereca Satânica é a liberdade de nossos corpos. Xereca Satânica é a expressão ousada de uma vida limitada.

Todos os dias costuram nossa buceta, nosso cu e nossa piroca, costuram com linhas invisíveis de machismo, de moralismo, de valores conservadores. Todos os dias violam nossos corpos, mutilam nossas expressões despadronizadas, todos os dias querem que nossas xerecas sejam santificadas. Não! Nossa xereca é profana, nosso corpo é uma expressão efêmera de nós mesmos.

Costuramos xerecas, arreganhamos nossos cus, mordemos mamilos, degustamos todas as pirocas. Nós nos devoramos num ritual antropofágico e depois vomitamos. Vomitamos as construções sociais caretas e tudo que nos ensinaram como certo, somos a desconstrução do mundo perfeito e do amor sagrado. Costuramos xerecas porque essa vida já está toda cagada.

As xerecas já sangram biologicamente, isso não nos basta, nós queremos fazê-la sangrar socialmente. As xerecas são satânicas porque elas precisam ser des-santificadas, o diabo precisa deixar de ser demonizado e o mundo precisa ser menos homogêneo. Não acreditamos nem em deus, nem no diabo. Quem nos guia somos nós. Se falamos em diabo, é apenas porque queremos ser antagônicos a deus. Ah! E nunca se esqueçam: satânico não é sinônimo de satanismo.

Todos os valores que vos ensinaram nas escolas e nas igrejas, nós viemos ao mundo para profaná-los, para manchá-los de sangue. Nós queremos chocar vossas cabeças com nosso modo agressivo e marginal de existir, foi assim que vocês nos geraram nesse mundo extremamente desigual. Somos criações poeticamente pervertidas e obras santificadamente degeneradas.

Costuramos bucetas, costuramos cus, costuramos pirocas, acima de tudo costuramos todas as formas de expressão que nos dizem ser corretas. Usamos e apoiamos a utilização dos corpos, porque vivemos numa sociedade que a estética corporal é superior a vida. Nosso corpo não é santo, nosso corpo irá apodrecer assim que a vida se exaurir.

Sem mais, lamentamos informar a todos, que continuaremos a produzir e construir formas antagônicas de valores e sociabilidade num mundo que caminha pela via da robotização das expressões do humano. Pedimos desculpas se incomodamos, mas somos humanos, demasiadamente humanos.

Texto produzido em solidariedade às pessoas que estão sendo vítimas de todo o tipo de conservadorismo após realizarem um evento performático em Rio das Ostras.

L'Origine du monde (A Origem do Mundo), óleo sobre tela de Gustave Courbet, 1866.
L’Origine du monde (A Origem do Mundo), óleo sobre tela de Gustave Courbet, 1866.

Autor: Blogueiras Feministas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. Somos feministas. A gente continua essa história do feminismo, nas ruas e na rede.

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