Solidariedade às xerecas satânicas

Durante este fim de semana pipocaram na mídia notícias sobre um evento que ocorreu semana passada no campus da Universidade Federal Fluminense (UFF) de Rio das Ostras, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, conhecido como “evento da xereca satanik”. Segundo imagens e relatos: “No meio da festa, uma menina tirou a roupa, deitou em cima da mesa e outra costurou a parte íntima dela”.

Está muito claro para nós que esse tipo de ação é uma performance. A mulher que teve o órgão genital costurado fez, junto com outras pessoas, uma performance extrema que visa provocar reações e questionamentos nas pessoas. Gostar ou não desse tipo de ação é indiferente. Não vemos nenhum crime nisso. Infelizmente, as mulheres envolvidas já estão sendo perseguidas com a divulgação das imagens. O corpo humano é espaço de disputa social, especialmente o corpo da mulher. Portanto, devemos lutar para que todas as formas de expressão sejam livres.

De acordo com Daniel Caetano, chefe do departamento em que esse evento foi promovido, em mensagem publicada no Facebook no dia 01/06/2014:

O evento “Xereca Satânica” foi promovido por alunos do curso de Produção Cultural dentro da programação de uma disciplina cujo tema era “Corpo e resistência”.

Após um dia de apresentação de seminários e muitas discussões os alunos promoveram uma performance, realizada por um coletivo que se dispôs a vir de Minas Gerais apenas para isso. É um coletivo que está habituado a fazer performances como a que aconteceu, feitas para chocar a sensibilidade das pessoas e fazê-las pensar sobre seus próprios limites.

Infelizmente, há pessoas que acreditam que o mundo deve ser moldado à sua imagem e semelhança, sem permitir qualquer espécie de desvio do padrão ou mesmo qualquer espécie de afronta à sua sensibilidade confortável, conformista e preguiçosa. A costura de partes do corpo, inclusive da região genital, não é novidade para qualquer pessoa que tenha lido mais de um parágrafo sobre arte contemporânea posterior aos anos 1970. Sugiro a quem quiser saber mais sobre o assunto que pesquise os trabalhos de pessoas como Marina Abramovic e Lydia Lunch. A performance tinha como um dos objetivos denunciar a constante violência contra mulheres na cidade de Rio das Ostras, onde as ocorrências de estupros estão entre as maiores do país.

[+] Moção de apoio enviada pelo colegiado do curso de Produção Cultural sediado em Niterói: Causa-nos espanto o grau de estranheza e criminalização com a qual tanto a perfomance da artista Raissa Vitral, quanto a própria universidade foram tratadas nos últimos dias. Por se tratar de um espaço de experimentação de linguagens e reflexão – com seus evidentes riscos de choque à moral e ao senso comum -, é justamente na universidade onde devem ser expostos os descontentamentos, estimulados os debates, e negados quaisquer vícios de censura”.

[+] Posicionamento do C.A. Procult UFF-Rio das Ostras acerca do “Seminário Corpo e Resistência”: Apresentamos também nosso total repúdio a toda e qualquer forma de criminalização, de repressão ou de tolhimento das atividades ligadas à pesquisa e a produção de conhecimento artístico-científico no âmbito acadêmico, quer seja por parte da própria Universidade Federal Fluminense, que não demonstrou qualquer tipo de apoio ou deu respaldo ao corpo docente de sua unidade de Rio das Ostras, quer seja por parte dos grandes veículos de comunicação, ao divulgarem de maneira irresponsável e leviana, dados incorretos sobre o evento, colocando em risco a integridade física, moral e psicológica dos envolvidos”.

As manchetes nos principais portais afirmam que a Polícia Federal está investigando essa festa polêmica. Em algumas é possível ler: “Inquérito foi aberto para apurar uso de droga, álcool, orgia e ritual satânico”. Ritual satânico é crime? Orgia também? Álcool? O único problema que acreditamos poder haver é a autorização da utilização do espaço da universidade para a realização de um evento, mas isso pode ser investigado por meio de procedimentos internos.

Por isso, nos solidarizamos com as pessoas que protagonizaram a performance e publicamos o Manifesto em Solidariedade às Xerecas Satânicas de autoria coletiva que está circulando como apoio nas redes sociais.

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Xereca Satânica é arte, Xereca Satânica é a liberdade de nossos corpos. Xereca Satânica é a expressão ousada de uma vida limitada.

Todos os dias costuram nossa buceta, nosso cu e nossa piroca, costuram com linhas invisíveis de machismo, de moralismo, de valores conservadores. Todos os dias violam nossos corpos, mutilam nossas expressões despadronizadas, todos os dias querem que nossas xerecas sejam santificadas. Não! Nossa xereca é profana, nosso corpo é uma expressão efêmera de nós mesmos.

Costuramos xerecas, arreganhamos nossos cus, mordemos mamilos, degustamos todas as pirocas. Nós nos devoramos num ritual antropofágico e depois vomitamos. Vomitamos as construções sociais caretas e tudo que nos ensinaram como certo, somos a desconstrução do mundo perfeito e do amor sagrado. Costuramos xerecas porque essa vida já está toda cagada.

As xerecas já sangram biologicamente, isso não nos basta, nós queremos fazê-la sangrar socialmente. As xerecas são satânicas porque elas precisam ser des-santificadas, o diabo precisa deixar de ser demonizado e o mundo precisa ser menos homogêneo. Não acreditamos nem em deus, nem no diabo. Quem nos guia somos nós. Se falamos em diabo, é apenas porque queremos ser antagônicos a deus. Ah! E nunca se esqueçam: satânico não é sinônimo de satanismo.

Todos os valores que vos ensinaram nas escolas e nas igrejas, nós viemos ao mundo para profaná-los, para manchá-los de sangue. Nós queremos chocar vossas cabeças com nosso modo agressivo e marginal de existir, foi assim que vocês nos geraram nesse mundo extremamente desigual. Somos criações poeticamente pervertidas e obras santificadamente degeneradas.

Costuramos bucetas, costuramos cus, costuramos pirocas, acima de tudo costuramos todas as formas de expressão que nos dizem ser corretas. Usamos e apoiamos a utilização dos corpos, porque vivemos numa sociedade que a estética corporal é superior a vida. Nosso corpo não é santo, nosso corpo irá apodrecer assim que a vida se exaurir.

Sem mais, lamentamos informar a todos, que continuaremos a produzir e construir formas antagônicas de valores e sociabilidade num mundo que caminha pela via da robotização das expressões do humano. Pedimos desculpas se incomodamos, mas somos humanos, demasiadamente humanos.

Texto produzido em solidariedade às pessoas que estão sendo vítimas de todo o tipo de conservadorismo após realizarem um evento performático em Rio das Ostras.

L'Origine du monde (A Origem do Mundo), óleo sobre tela de Gustave Courbet, 1866.
L’Origine du monde (A Origem do Mundo), óleo sobre tela de Gustave Courbet, 1866.

Autor: Blogueiras Feministas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. Somos feministas. A gente continua essa história do feminismo, nas ruas e na rede.

35 pensamentos em “Solidariedade às xerecas satânicas”

  1. Corpos livres!!!………………………………………………………………………….mentes perdidas____

  2. “Está muito claro para nós que esse tipo de ação é uma performance. A mulher que teve o órgão genital costurado fez, junto com outras pessoas, uma performance extrema que visa provocar reações e questionamentos nas pessoas.” – É justamente a respeito disso, e somente sobre isso, que gostaria de comentar.

    1. Está claro para vocês? Bem, obviamente, NÃO está claro pra maioria das pessoas.

    2. Deveria estar? Quem não está familiarizado com o discurso destas “ativistas” estaria pronto pra captar qualquer ironia, provocação, etc?

    3. Quer dizer então que agora fazer um eventinho À PORTAS FECHADAS é ativismo. Conceito inovador esse, se trancar num fundo de quintal e ativizar pra kct.

    4. Relacionado ao item 2: COMO DIABOS vc espera batizar um evento de “Xereca SATÂNICA” e aí, claaaro, ninguém vai pensar que é macumba ou satanismo, magina. Num país que curte um preconceito contra religiões afro e em que basta vc falar q gosta de acender incenso pra te chamarem de macumbeiro.

    Cada um faz o que quiser, mas pra mim o feminismo morreu nas mãos de “ativistas” como essas.

    1. Esse é o problema, vocês não lutam por porra nenhuma, não ler, interpretam texto como quem lê histórias em quadrinhos e ainda tem a pachorra de criticar quem faz. Para mim está bem claro: urge a mulher apoderar-se do seu próprio corpo, urge liberdade de gêneros. O pior é quem aqueles que se prestam a comentar, são sempre aqueles que nada entendem.

        1. Neil Gaiman, Marjane Satrapi, Frank Muller, procura ler algo antes de achar que o quadrinho é algo inferior a qualquer outro tipo de expressão artistica. Obrigada

    2. cara, vc não entendeu nada. pq uma AÇÃO PERFORMÁTICA (feminista ou não) É OBRIGADA A SER DO JEITO COMO TE CONVÉM? onde vc leu, onde vc escutou, enfim, da onde vc tirou que só existe essa forma de ativismo? e se for uma ação performática em nome da arte – esta sim, visa (ou não) romper com os tabus e estigmas da sociedade. mas para fazer arte vc não precisa segurar um cartaz, uma legenda, pra explicar todos os seus passos – o entendimento é feito pelo espectador; que tem que ter por ele mesmo, é aí que consiste o ~~grande lance~~ da arte. assim como o feminismo e qualquer forma de ativismo.

      1 e 2) vc não é obrigado a estar apto a entender – ninguém, inclusive. é justamente esse o objetivo (ou não) – fazer vc pensar.

      3) como já falei antes, ninguém tem a pretensão de “abrir os olhos” de ninguém – NÃO é ativismo, é uma AÇÃO PERFORMÁTICA. e mesmo que fosse puramente ativismo – por acaso o ativismo SOMENTE ocorre nas ruas entoando gritos ou whatever?

      4) vc é contraditório nesse ponto. vc deixa a entender (pelo menos pra mim, talvez não tenha sido o que vc quis expressar) que um evento por ser satânico (ou, perceba a sutileza, que apenas carrega satânico no nome) não pode ser levado a sério, enquanto que ao mesmo tempo acusa a sociedade de não aceitar as outras religiões – cara, se seu raciocínio foi esse, então deixa eu te dizer: VC não aceita as outras religiões, VC é a sociedade obtusa.

      espero ter sido útil pra esclarecer (não que eu carregue o conhecimento absoluto e meu pensamento não tenha falhas, muito provavelmente tem, mas aí vc contra-argumenta e nós dois evoluímos juntos). e se te ofendi em algum momento já peço desculpas antecipadamente.

      abs! VIVA ÀS XEREKS SATÂNIKS!

    3. Entendo suas objeções, Patrícia. Agora me responda: o que você tem a ver com isso? Da forma que eu entendo, é muito simples. Se você não gosta, não costure a própria vagina. É irrelevante se se trata de uma performance ou de ativismo feminista. Completamente irrelevante.

      Se for macumba ou satanismo, é irrelevante da mesma forma. Macumba, performance ou feminismo tem o mesmo peso ou legitimidade quando se trata de fazer algo que você quer fazer, desde que não atenta à vida, à liberdade ou à propriedade de outra pessoa.

  3. Sempre a mesma galerinha querendo pagar de subversiva e, por dar uma de “carnal” e “oposto do sistema”, colocam o capeta no meio. Se eles soubessem que LaVey era profundo admirador de Ayn Rand… me entristece toda vez que um esquerdista/feminista grita aos quatro cantos: “Faz o que tu queres pois é tudo da Lei”, frase popularizada pelo Raulzito, mas que pertence a Thelema. Leiam qualquer publicação de Marcelo Ramos Mota, e verão o quanto Thelema era oposta e inimiga do Comunismo e de qualquer forma de coletivização. Alias, qualquer sistema mágico que pregue a coletivização sobrepondo o individualismo, não tem lá muito valor. Nem o Diabo, demonizado ou não, está com vocês.

  4. Até agora não falei nada sobre a festa Xereca Satânik que fizeram com ~ritual satânico, drogas e orgias~, mas uma coisa que me incomodou bastante foi o fato de terem costurado a “xereca” da mina (com consentimento) e estão falando sobre esse ato como algo que vai como crítica ao moralismo e etc. Quase afirmando esse ato como algo empoderador. Bom, o que eu posso dizer é que, não importa se querem fazer a festa, ou se a mina concordou com isso e etc etc etc. Sério, cada um faz o que bem entende do próprio corpo. O que me deixou pensativa foi a sensação de que esse discurso poderia estar na verdade, surtindo efeito contrário do pretendido. Todos os dias pessoas têm suas vulvas mutiladas. Seja por violência sexual, ou por violência obstétrica, ou por privação do prazer, coisa muito comum em diversas culturas… Fiquei pensando em como se sentiria uma pessoa vítima de um desses casos ao saber que outra mutilou sua vulva voluntariamente e agiu como se isso fosse um ato libertador. É difícil utilizar algo que significa uma tragédia na vida de muitas pessoas e livremente disseminar como algo positivo. Reforço que minha crítica não é para a ação, já que acredito que autonomia dos corpos é essencial, mas sim do discurso utilizado para legitimar essa ação. Que é um ato chocante, e que deveria chocar bem menos do que muita situação lá fora, concordamos, mas aqui está um apontamento de que nada pode ser isolado da conjuntura histórica e social e não podemos ignorar o quão ofensivo pode soar dizer que mutilar vulvas é algo positivo.

    1. O primeiro pensamento que tive a respeito disso foi o mesmo que o seu. Esse pensamento ainda persiste. Não consegui entender ainda onde fica o sentimento de solidariedade com a quantidade de meninas estupradas, mutiladas, seja física ou mentalmente mundo a fora. Não consegui ver nada de libertador mutilar a vagina voluntariamente, num ato que tinha como fim o choque. Tiveram sucesso.
      Sou solidária às meninas pela perseguição que estão sofrendo, mas não consegui mesmo ver nada de libertador na performance.

    2. Faço minhas tuas palavras, Camila!
      E peço se posso reproduzi-lo…
      Um abraço

    3. Camila, acho sua crítica pertinente. Mas também acredito que o evento tem contexto. Num evento sobre “corpo e resistência” eu entendo que essa performance seja feita. O ato é chocante sim e a proposta é essa mesma. Se é libertador ou não, depende da interpretação de cada pessoa. Acredito que essa é mais uma forma de expressão.

      Costurar uma xereca pode justamente ser um símbolo para representar a eterna ordem de “fechar as pernas” das mulheres para que não sofram violência. É claro que vítimas de violência sexual não precisam ter acesso a esse tipo de conteúdo, nem achá-lo empoderador. Mas as pessoas que fizeram a performance não produziram material para divulgação, A ação foi feita num contexto específico. E aí acho sim que cabe abrirmos um olhar maior para performances artísticas que usem o corpo como objeto. Então, acho que o efeito pretendido pelo grupo tem que ser analisado naquele contexto, de um seminário universitário sobre corpo e não na repercussão que a mídia está dando para o caso. Até porque aconteceram várias outras coisas no seminário além disso.

      1. Perfeito! Concordo plenamente. Tirar a ação performática do seu contexto, infelizmente, mutila a sua dimensão. No contexto, vejo sim como algo extremamente libertador.

  5. Gostaria de compreender tal maneira de pensar. Realmente não vejo expressão de revolta com os padrões sociais tão ineficaz quanto essa.

  6. Concordo Plenamente com a Camila Berka. Eu ainda estou tentando compreender como o ato de costurar uma xereca pode ser manifestação contra a opressão que sofremos. Eu penso que é justamente o contrário. Nenhuma mulher deve precisar usar um cinto de castidade, ou costurar suas partes íntimas para ser respeitada. Me pareceu ofensivo às vítimas de estupro, como se elas tivessem que fechar suas xerecas para não sofrer essa atrocidade. De verdade, eu não entendi onde o grupo artístico quis chegar. Se alguém puder me explicar, eu agradeço.

  7. Só acho que não é assim que as mulheres mudarão a mentalidade machista.
    Não consigo entender a lógica! Tivemos tantos exemplos de mulheres libertárias e magníficas… deviam seguir seus exemplos. Só acho.

  8. Desculpa, mas visualizo que costurar uma “xereca” em nada melhora a vida das mulheres e nem combate a violência machista que espanca, estupra e mata mulheres todos os dias. Esta sim, a violência machista, costura não só a sexualidade da mulher como a nossa boca e nossos direitos.

    Vivemos em uma sociedade onde tod@s somos vítimas do patriarcado, e ainda mais as mulheres, as pretas, as lesbicas, as que estão na base da opressão do capital, que se estrutura no patriarcal. Para emancipar a mulher é preciso pensar em MULHERES NO PLURAL, em todas e principalmente as que são mais oprimidas. Não vejo como iremos libertar mulheres e principalmente levar para todas o um debate de soliedariedade e igualdade (o feminismo), se nós sairmos por ai nos usando apenas de perfomances artisticas como esta (o manifesto deles que me passa essa impressão). Acredito que este não é o caminho, visto que o processo de consciência do POVO é outro.

    É importante resgatar o contexto historico em que mulheres que fugiam à ordem eram queimadas na inquisição por serem consideradas bruxas, e nosso sangue, que é simbolo da vida, foi considerado sujo e demoniaco. Persiste até hoje. Mas não vejo como isso “Costuramos xerecas, arreganhamos nossos cus, mordemos mamilos, degustamos todas as pirocas. Nós nos devoramos num ritual antropofágico e depois vomitamos.” vai combater uma construção social e será capaz de mudar por inteiro os rumos da sociedade. Esse manifesto, escrito pelo criadores do evento, me parece confuso e sem propósito. Talvez pq se trate apenas de performance artistica, talvez pq dialogue apenas com certa camada da sociedade com uma sensibilidade mais apurada para entender a mensagem. Garanto que essa camada da sociedade não é aquela que tá com a mão na enxada sofrendo a violencia do agronegocio, nem aquela do dia-a-dia das grandes cidades vendendo sua força de trabalho. Lugares estes onde estão as mulheres pobres exploradas e que são dados das estatisticas que dizem que a cada 12 segundos uma mulher é violentada no Brasil.

    É importante lembrar ainda que a performance sobre “corpo e resistência” não teve apenas este momento, houveram outros propósitos e manisfestações artísticas, como está nos registros. Não podemos cristalizar o momento da costura da genitália e afirmar que tudo trata-se apenas de um debate da libertação sexual das mulheres.

    Também não concordo com a criminalização de como está sendo colocado na mídia o “ritual” e etc. Posso compreender o xereca satanik sim como uma forma de performance artistica e respeitar, apenas isto, mas nunca compreenderei como uma forma de libertação das mulheres e de rompimento com o capitalismo patriarcal. Me parece que este caminho não será através do pós-modernismo.

    A luta feminista é por igualdade e pela vida das mulheres.
    Até que todas sejamos livres!!!

  9. Camila Berka, fiquei pensando nos seus apontamentos e me pergunto se o ato de costurar a vulva, que infelizmente acontece em algumas culturas, não queria simbolizar exatamente o contrário de libertação, mas mostrar a forma que nossas vulvas, corpos, sentimentos, são multilados, costurados, e moldados a todo momento, seja de forma literal ou em outras formas de ação de violência sobre os corpos, em especial “femininos”, que ocorrem todos os dias. E sobre os vários questionamentos da Patrícia, uma das propostas pelo que entendi, era exatamente provocar o afloramento deles,o que aconteceu, visto as várias perguntas que você mesma colocou. Sobre o feminismo, ativismo e performance, ele não significam a mesma coisa, eles nem sempre andam juntos e nunca são uma coisa só,é difícil generalizar. Bem, não entendo muito de arte, mas na minha compreensão as interpretações são sempre muito subjetivas, e por mais que tenha sido chocante a ação do grupo, isso pode abrir as portas para discutirmos nossas concepções de mundo. Se era esse o intuito, acho que conseguiram.

  10. “Xereca Satânica”

    Bom ao me ver para começarmos a falar sobre,devemos fazer uma releitura na história do país,até chegar no momento histórico atual.Nossa história foi sempre analisada do ponto de vista do dominador,e que hoje se mantêm presente,na mídia e no poder público,no entanto devemos retomar ao ponto de vista indígena. Voltemos então a nossas aldeias,onde as construções eram feitas coletivamente,divididas suas funções por gêneros, a atribuição de tarefas específicas não significava inferioridade ou distinção de poder, eram, simplesmente, tarefas que precisavam ser feitas para o bem de todos.
    Para o indígena, o sexo faz parte de sua natureza. A nudez entre todos os membros da tribo não era uma forma de representar a sensualidade ou a sexualidade, nem mesmo de causar provocações ao sexo oposto,o respeito que se dá é algo vital e de grande relevância, pois eles simbolizam a sabedoria ancestral e a sua memória;respeitam as crianças e as mulheres, sendo que estas eram consideradas mais próximas da mãe terra, ou seja, muito preciosas por terem o dom de gerar a vida em si, perpetuando, assim, seu povo.
    A hegemonia do masculino em relação ao feminino era comum na cultura europeia e reafirmada sempre pelo cristianismo, que usava passagens bíblicas para manutenção do poder masculino. Como nos diz Raminelli (2009, p. 42): “No final do século XVI, vários teólogos reafirmaram que o sexo oposto era mais frágil em face das tentações por estar repleto de paixões vorazes e veementes”.
    Essa catequização feita pelo cristianismo mantêm a mulher como culpada de assédios sofridos,abusos,violências,demonizando o corpo da mulher,onde a mulher nos dias de hoje não tem a liberdade de sair com roupa que quer,pois será visto como provocações aos agressores.
    Então,para mim,dai surge o nome da revolta,’xereca satânica ‘por essa demonização feita ao corpo feminino,que nos dias de hoje a mulher se sente oprimida,nem sempre a vítima de um estupro tem condições, emocionais e de segurança, para registrar queixa contra o agressor.Tendo em vista,que o agressor está dentro de casa,ou envolvido com o crime organizado.Além disso, temos vários casos de opressão dentro de delegacias da mulher,colocando-a como culpada dos crimes sofridos,e a serem alvos de chacotas,sendo abafados pela mídia a todo momento.
    Quanto ao ato de costurar a vagina – é uma questão que choca a sociedade e que a todo momento está presente essa realidade por debaixo dos panos.Por mulheres que sofrem estupros, que resultam em gravidez, essas mulheres não conhecem o aborto legal previsto pela lei 12.845 que definiu os caminhos para viabilizar a interrupção da gestação dentro dos permissivos legais.Segundo o Ministério da Saúde, o aborto legal “pode ser realizado em todos os estabelecimentos do SUS que tenham serviço de obstetrícia.Porém essa lei não funciona em todos os hospitais públicos,e sim em alguns hospitais,no qual o governo não passa está listagem e nada é feito sobre.Essa informação fica retida,enquanto vários mulheres brasileiras,estão tendo que costurar a propiá vagina,em condições extremamente precárias,de higiene e saúde,por essa informação não estar clara,e na maioria das vezes porque não tem coragem de ir as hospitais,ou falar sobre abusos que sofreram;encaram isso como vergonha,e passam por traumas,cada vez maiores.
    É necessário uma politica urgente onde mulher tenha
    acompanhamento,por equipe de atendimento
    multidisciplinar,composta por obstetras, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais, que busca a história da vítima e detalhes da violência sexual,que essas mulheres conheçam seus direitos;afim ,de que seja erradicada essa culpa,o parto,e o aborto manualmente,causando morte de muitas mulheres a todo momento.E que a mídia dominadora,quer a todo custo continuar a catequizarmos,colocando a culpa encima da mulher,e tirando o foco do verdadeiro culpado que é o governo.

  11. Acho terrível de diversos pontos de vista. Ainda não achei alguma coisa positiva que possa servir de base pra essa abominação que aconteceu. Mas uma dúvida que eu tenho: as feministas não demandam respeito ao gênero? De que maneira pode se pedir respeito quando nem elas respeitam o próprio corpo? E não falo do respeito moral, isso é um ato de mutilação, coisa que muitas mulheres sofrem todos os dias. Não deviam elas estarem justamente lutando contra isso?

  12. Álcool, orgias e rituais satânicos são permitidos, mas não dentro de uma universidade né ou você não sabia disso? E digo mais, qualquer atitude gera criticas, então parem com esse mimimi e aceitem que ninguém é obrigado a achar bonito o que foi feito lá. Querem que a moral atual não “costure suas vaginas”, que façam o que quiserem com as suas vaginas porque elas são suas, mas não achem que todos devem aceitar e achar legal esse estilo de vida. cada um vive da forma que quiser e se outras mulheres possuem uma moral diferente da de vocês que mal tem? Afinal de contas, cada individuo é livre para viver da forma que quiser, e se outras mulheres tem um moral mais conservadora e se sentem bem vivendo assim, que vivam e que sejam felizes.

  13. Desculpem, mas vocês viajaram na maionese..o que vcs estão fazendo é a deturpação de forças que se bem utilizadas, trazem benefícios ao magista. Procurem ler sobre a OTO.. o que vcs estão fazendo é completamente “fora da casinha”. Se quiserem se rebelar, o façam, mas o façam com consciência..

  14. Como alguém que acompanha o movimento feminista há anos e todas suas dificuldades, acredito que tal performance é um desserviço à sua história. Sobre a denúncia em si, caberia sim investigação para ver se foi consentido, se o espaço foi cedido e, ainda, se é permitido costurar uma parte do corpo mesmo com consentimento. Mal comparando, ninguém pode se submeter a uma cirurgia de um não médico mesmo em acordo com o cirurgião. Voltando à causa feminista, vivemos em um mundo em que rituais religiosos justificam bárbaras torturas a mulheres (incluindo costura e mutilação genital), em que a violência contra a mulher até em países desenvolvidos é minimizada e, até certo ponto, aceita. Não será esta cena de extrema violência consentida que ajudará a causa. Posso estar enganado, mas não acredito que as vítimas de violência sexual em Rio das Ostras se sintam sequer representadas por tal performance.

  15. Concordo com alguns comentários que foram feitos acima. Uma performance desse tipo com toda a certeza vai provocar reações e opiniões, sejam elas boas ou ruins. Justamente por se tratar de uma “performance artística”, a maneira como vão interpretá-la é subjetiva. Não acho que desse jeito vá mudar alguma coisa ou abrir os olhos das pessoas pros problemas que acontecem, pelo contrário, acho que vai afastar ainda mais as pessoas, digamos, leigas, de um real entendimento do que seja feminismo, empoderamento dos corpos e coisa e tal. Acho que a mensagem que foi passada nessa performance será compreendida por poucas pessoas. Fora que é de um extremo mal gosto fazer uma performance onde o intuito é mostrar que as mulheres são donas de seus corpos, enquanto várias mulheres têm seus órgãos sexuais mutilados todos os dias. Seja por cultura, por religião, por machismo. Não acho que uma vítima dessa atrocidade se sentiria representada por esse tipo de performance e feminismo não. Sendo bem sincera, acho que esse tipo de coisa só traz um desserviço ao feminismo, por mais que essa não seja a intenção. Não é costurando sua vagina, querendo escandalizar de formas extremas que se chama atenção para os problemas que nós mulheres enfrentamos como machismo, violência, agressões, estupros, pelo contrário, isso só reforça ainda mais a raiva pelo feminismo que é tão comum por aí. Enfim, não acho que dessa maneira alguma coisa mude. Acho que só ajuda a reforçar preconceitos.

  16. Eu não vi nada que não possa ser entendido.
    O costurar as genitálias é uma metáfora para o fato de que a mulher permitiu durante éons de tempo que sua sexualidade fosse adulterada. O ato de costurar é o ato de adulterar. Ao contrário do que muitos pensam, adultério não tem nada a ver com sexo, que me perdoe o Aurélio. Quando os sábios falavam de adultério, eles estavam a falar de pegar algo original e modificar-lhe a natureza. A mulher se permitiu estar sob o julgo do homem, nem todas pois desde éons de tempo houve as chamadas mulheres selvagens que eram indomáveis as quais foram queimadas nas fogueiras da santa inquisição para que não ensinasse às outras mulheres que elas deviam seguir o coração e não os convencionalismos sociais.
    Se formos fazer uma analogia, o aparelho sexual da mulher é tal qual uma orquídea com as vulvas a representar as pétalas. É algo belo que foi encoberto por convencionalidades que, a meu ver, não trouxe nenhum benefício à humanidade a não ser sofrimentos para ambas as partes, principalmente para a mulher que não pode deixar florescer a sua sexualidade de modo pleno sob a égide do amor.
    Felizmente estou a ver algumas mulheres a se libertar do cárcere sócio-moral que a humanidade cunhou para reger à natureza feminina. Contudo, o mundo e, nesse mundo também incluo a maioria das mulheres, está apreensivo com a ousadia de aquelas mulheres que estão a assumir a si mesmas e a expressar a sua sexualidade sem se importar com possíveis rótulos que possam adquirir por tal ato. Isso é, a meu ver uma evolução. Gostar tanto de si mesmo que a opinião do mundo não é, nem de longe, para ser tida em consideração. A estas mulheres que são capazes de reduzir o velho veu que regia a sexualidade de outrora eu simplesmente me curvo em consideração e honra pela sua bravura, já estava mais que na hora de mostrar o mundo que não há maior ou menor em Gaia e que todos somos iguais e livres para nos expressar a nosso bel prazer.

  17. Independente de todos os argumentos aqui apresentados. Não estou falando em nome de nenhum deles, nem contra e nem a favor. Porém como profissional de saúde e com atenção ao fenômeno que as redes sociais é capaz de causar nas pessoas. Procurem minimizar os sensacionalismo e não difundi-los. Para que se evite que se repitam atrocidades, como a que vimos no litoral paulista em que uma mãe de família foi espancada e morta motivada justamente por boatos difundidos na internet. Infelizmente, a grande massa da população não tem mentalidade e, esta de-mentalidade pode causar resultados imprevisíveis e hediondos.

    Grato,

  18. Camila Berka tem razão. Inicialmente achei que era tacanhice minha não ter entendido o gesto de deixar-se costurar, aí fiquei tentando entender, mas realmente…

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