Kimberlé Crenshaw sobre intersecionalidade: “Eu queria criar uma metáfora cotidiana que qualquer pessoa pudesse usar”

Texto de Bim Adewunmi. Tradução de Bia Cardoso. Publicado originalmente com o título: Kimberlé Crenshaw on intersectionality: “I wanted to come up with an everyday metaphor that anyone could use” no site New Statesman em 02/04/2014.

Intersecionalidade — a teoria que fala como os diferentes tipos de discriminação interagem — trouxe atenção global para a professora de Direito Kimberlé Crenshaw. Nesse texto, ela conversa com Bim Adewunmi sobre o fato de que tanto as campanhas feministas como as antirracistas tem deixado as “mulheres de cor invisíveis na visão geral”.

Kimberlé Crenshaw com Eve Ensler. Photo: Getty images.
Kimberlé Crenshaw com Eve Ensler. Photo: Getty images.

As orelhas de Kimberlé Crenshaw devem estar queimando com uma regularidade e intensidade alarmantes ao longo dos últimos dois anos. Nós nos encontramos numa das salas de jantar de um hotel no centro de Londres, sua base, enquanto ela está em uma turnê de palestras. Dois dias antes do nosso encontro, ela falou na School of Oriental and African Studies e, mais tarde, naquela noite, ela iria falar na London School of Economics. Seu tema é intersecionalidade e feminismo. Nos últimos tempos, a teoria da intersecionalidade — o estudo de como diferentes estruturas de poder interagem nas vidas das minorias, especialmente das mulheres negras, uma teoria que ela deu nome em 1980 — tem desfrutado de um ressurgimento de interesse por parte do feminismo popular e acadêmico. Seu nome e seu trabalho tornaram-se um ponto introdutório para feministas de todas as linhas.

É evidente, diz ela, que o conceito de intersecionalidade não é exatamente novo. “Muitos dos antecedentes para formar esse conceito são tão antigos quanto Anna Julia Cooper e Maria Stewart no século 19 dos Estados Unidos, e continuam seu caminho por meio de Angela Davis e Deborah King”, ela diz. “Em cada geração, em cada esfera intelectual e até mesmo em cada momento político, existiram mulheres afro-americanas que se articularam a partir da necessidade de pensar e falar sobre raça através de uma lente que observe a questão de gênero, ou pensar e falar sobre femininsmo através de uma lente que observe a questão de raça. Portanto, esse conceito é uma continuidade disso”.

Angela Davis chega ao tribunal em 1972. Foto: Getty Images.
Angela Davis chega ao tribunal em 1972. Foto: Getty Images.

Para Crenshaw, professora de Direito na UCLA e Columbia, a teoria da intersecionalidade surgiu, especificamente, para resolver um problema particular. “É importante esclarecer que o termo foi usado para verificar a aplicabilidade do feminismo negro em leis antidiscriminação”, diz ela. Na palestra realizada na LSE naquela noite, ela trouxe o caso de Degraffenreid vs General Motors, em que cinco mulheres negras processaram a GM por discriminação de raça e gênero. “O principal desafio da lei é a forma como foi fundamentada, porque a lei antidiscriminação olha para raça e gênero como elementos separados”, diz ela. “A conseqüência disso, é que as mulheres negras americanas — ou quaisquer outras mulheres não-brancas — vivem a experiência de uma discriminação por sobreposição ou conjunta. A lei, inicialmente, não estava lá para vir em sua defesa”.

A interpretação dos tribunais foi de que as mulheres negras não podiam provar a discriminação de gênero, porque nem todas as mulheres foram discriminadas, e também não puderam provar a discriminação racial, porque nem todas as pessoas negras eram discriminadas. Uma associação de discriminações seria, aos olhos dos tribunais, constituir um tratamento preferencial, algo que ninguém poderia fazer. Crenshaw ri quando acrescenta: “É claro, ninguém mais tinha que fazer isso. Intersecionalidade foi uma forma de chamar a atenção para o que os tribunais não estavam vendo”.

Casos como este refletem muito seus trabalhos iniciais sobre intersecionalidade — tentando mostrar como essas disputas das queixosas afro-americanas falavam sobre a capacidade de revelar que a discriminação que elas estavam passando era a combinação de dois tipos diferentes de políticas. Mas, também havia uma questão adicional à teoria: apontando que a ferramenta usada para remediar a discriminação por sobreposição — a lei antidiscriminação — foi, ela mesma, inadequada. “Você tem que mostrar que o tipo de discriminação que as pessoas têm conceituado é limitado, porque barra o seu pensamento quando uma discriminação encontra outro tipo de discriminação”, diz ela. “Eu queria criar uma metáfora cotidiana que qualquer pessoa pudesse usar para dizer: é muito bom para mim entender os tipos de discriminações que ocorrem ao longo desta avenida, ao longo deste eixo, mas o que acontece quando ele flui para outro eixo, outra avenida?”.

Colocada dessa maneira, pode parecer desconcertante que tantas pessoas tivessem um problema com a ideia da intersecionalidade. O que é, perguntei a Crenshaw, que torna tão difícil para as pessoas compreenderem? Ela faz uma breve pausa antes de responder. “Eu só estou especulando, mas há muitas razões diferentes. Quero dizer, intersecionalidade não é fácil”, diz ela. “Não é como se as estruturas existentes que temos — de nossa cultura, nossa política ou nossas leis — automaticamente levassem as pessoas a estarem familiarizadas e instruídas a respeito da intersecionalidade”.

Quanto a acusação de que intersecionalidade não é um conceito novo, ela filosofa: “Bem, um monte de coisas não são novas”, diz ela. “Classe não é um conceito novo e raça também não é novo. Porém, continuamos a debater e falar sobre esses assuntos, então, o que há de tão incomum no fato da intersecionalidade não ser um conceito novo? Por esse motivo não deveria haver razões para falar sobre isso? A intersecionalidade chama a atenção para invisibilidades que existem no feminismo, na luta contra o racismo, nas políticas de classe, então, obviamente é preciso muito trabalho, já que somos constantemente desafiados para estar atentos aos aspectos do poder que não fazem parte de nossas experiências pessoais”. Mas, ela enfatiza, esse tem sido o projeto do feminismo negro desde seu início: chamar a atenção para as lacunas, para as maneiras que “as mulheres de cor são invisíveis na visão geral”.

“Dentro de qualquer sistema de poder”, ela continua, “há sempre um momento — que às vezes dura um século — de resistência a conclusões como essa. Portanto, nós não devemos estar realmente surpresos quanto a isso”.

Há, às vezes, uma incapacidade de fazer analogias, diz ela. As feministas que têm respostas para as questões sobre políticas de classe e como elas se relacionam com questões de gênero, por vezes, demonstram uma falta de vontade de aplicar os mesmos princípios em relação a feminismo e raça. “Essa capacidade de ser intersecional — mesmo que não se chame assim — não é replicada nessa [específica] discussão”, diz ela. Eu acho que o mesmo tipo de abertura, fluidez e vontade de interrogar o poder que nós, como feministas, esperamos dos homens com quem nos aliamos quando discutimos questões de classe, também deve ser a expectativa que as mulheres de cor tem em relação as feministas brancas aliadas”.

Eu apresento um tweet que li recentemente, sobre os “perigos de gritar com mulheres brancas como meio de ganhar a vida”, para perguntar qual tem sido as respostas das pessoas ao se discutir intersecionalidade no feminismo. “No fim das contas, é realmente uma questão de poder: quem tem o poder de acabar com o debate? Para ir embora? Para dizer: “Eu estou farta de falar sobre isso, posso continuar com a minha retórica “mais do mesmo” como tipo de resposta?” Ela sorri. “Às vezes, parece que quem está no poder coloca-se numa posição como se estivesse sendo tremendamente desempoderado por uma crítica. Uma crítica a opinião de alguém não está retirando sua voz. Se o princípio subjacente a categoria “mulheres” ou “feminista” é que nós somos uma coligação, então, é preciso haver práticas de aliança e alguma forma de responsabilidade”.

Mas, ela também destaca a importância de feministas negras serem as autoras de relatos sobre suas próprias experiências. “Quando eu estava escrevendo no final dos anos 80, houve uma distorção do discurso entre as mulheres que não eram assunto no feminismo tradicional, para simplesmente fazer uma distinção crítica”, diz ela. “Então, afirmar ser apenas “mulher” ou “feminista” levou algumas mulheres de cor a dizerem: “mas isso não é sobre mim”. Bem, sim — isso pode não ser sobre você. Mas, diga quais questões não se referem a você — que diferença faz e que tipos de intervenções podem ser propostas a um feminismo que não discute a questão racial?”. Ela faz uma pausa, estende as mãos. “Essa é a nossa responsabilidade. Isso cabe a nós. Após ser concedido, o espaço tem que ser aberto e é preciso haver um sentimento de receptividade misturado com sororidade, mas eu realmente não quero que outras mulheres sintam que é sua responsabilidade teorizar sobre o que está acontecendo conosco. Cabe a nós dar consistência ao relatar essas histórias, articulando quais distinções fazem a diferença, como isso é incorporado dentro do feminismo e dentro da luta antirracista. Eu acho que é importante que façamos isso separadamente, porque não queremos ser suscetíveis a ideia de que isto é apenas sobre políticas de reconhecimento”.

Nenhuma discussão sobre a obra de Crenshaw pode ser completa sem discutir as audiências que aconteceram no Congresso em outubro de 1991, organizadas para lidar com a alegação de que Clarence Thomas, candidato a uma nomeação na Suprema Corte, tinha assediado sexualmente sua colega, Anita Hill. Em sua negação das alegações, Thomas disse que isso era um “linchamento por meio de técnicas avançadas”. Crenshaw fez parte da equipe de advogados que representou Hill — e, sem dúvida, mudou o curso da história no que diz respeito ao reconhecimento do assédio sexual no local de trabalho. O documentário, Anita, foi feito sobre os acontecimentos da época, um período que Crenshaw descreve como um “divisor de águas”.

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Manifestante a favor de Clarence Thomas. Foto: Getty Images.

“Quando estávamos defendendo Anita Hill, a sensação era de que havia 10 de nós contra o mundo inteiro”, diz ela. “Havia críticas esmagadoras sobre Anita Hill vindas do lado de Clarence Thomas, do exército republicano, da Casa Branca, do comitê jurídico do Senado. E os democratas não estavam defendendo-a. O comentário de Thomas sobre ‘linchamento’, diz ela, transmite a muitos afro-americanos que esta era uma questão racial — deixando Hill sem nenhuma base responder aos ataques. “Linchamento é uma representação por excelência de racismo — e que, por sua vez, é central em experiências masculinas de afro-americanos”, diz ela.

Crenshaw fala sobre uma espécie de “amnésia coletiva” — o fato de que as mulheres negras não foram poupadas de linchamentos por elas mesmas, e a maneira como o sexismo racista atinge as mulheres negras envolvidas em casos de violência sexual que nunca são processados judicialmente. Rosa Parks, diz ela, “foi uma defensora de vítimas de estupro antes de se sentar naquele ônibus em Montgomery. O próprio fato de que há uma série de experiências em torno do racismo sexualizado que não são lembradas — e só lembramos de uma experiência — é o que, então, foi repetido na década de 1990”.

Ela descreve um momento em que saiu do Capitólio e encontrou-se rodeada por um grande número de mulheres afro-americanas “de mãos dadas, cantando músicas gospel em apoio a Clarence Thomas. Era como um desses momentos em que você, literalmente, sente que foi expulsa da sua comunidade, tudo porque você está tentando apresentar e falar sobre a maneira com que as mulheres afro-americanas são vítimas de assédio sexual e violência. Foi um momento decisivo”.

Uma conseqüência disso, foi a reivindicação de Anita Hill sendo apoiada por feministas brancas convencionais — só que ela foi despojada de sua raça, reforçando a ideia de que o caso era uma questão de raça contra gênero. “Ela simplesmente se tornou uma mulher sem cor, e nós, como mulheres afro-americanas feministas estávamos tentando dizer: “você não pode falar sobre isso apenas em termos de gênero — você tem que ser intersecional — há uma longa história que você não pode ignorar”, mas elas não tinham as ferramentas para serem capazes de falar sobre isso”, diz ela. Isso nos levou a um outro grande momento: o momento em que, como Crenshaw coloca, as feministas afro-americanas tiveram que “comprar o seu lugar dentro dessa conversa”.

Quase 2.000 feministas afro-americanas, de todos os cantos dos Estados Unidos, levantaram coletivamente $60.000 dólares e compraram um espaço publicitário no jornal The New York Times. O anúncio, chamado de ‘Mulheres Afro-Americanas em Defesa de Nós Mesmas’, foi assinado por 1.600 mulheres, e estampou, entre outras coisas, a discriminação histórica contra as mulheres negras, assim como o que estava acontecendo nas audiências. “Aquele foi um momento em que as mulheres negras se apresentaram à frente”. Vinte anos mais tarde, diz Crenshaw, isso tem sido esquecido. “O legado do caso Anita Hill é um fator que vai beneficiar as gerações subsequentes de mulheres nos locais de trabalho. Muitas mulheres que falam sobre o caso de Anita Hill celebram o que aconteceu com as mulheres em geral: o fato de que agora temos mais funcionárias públicas eleitas, porque as pessoas ficaram indignadas quando viram o que os homens faziam, a proposta política da Emily’s List foi aprovada e realmente ajudou as mulheres a serem eleitas e assim por diante. Então, assédio sexual agora é um assunto conhecido; o que não está indo tão bem é o reconhecimento de experiências únicas das mulheres negras em relação a discriminação”.

É importante destacar esse esquecimento. Crenshaw recorda o intenso trabalho contra o assédio realizado pelos movimentos de direitos civis e fala de uma “certa falta de historicidade” em algumas das conversas e trabalhos que relacionam o feminismo e a luta antirracista… “Intersecionalidade foi algo que eu escrevi em 1986, 1987 e agora há toda uma geração que chegou nessa conversa depois que o feminismo negro e outras formas de pensamentos intersecionais cultivaram o solo”, diz ela. “E eu acho que, as vezes, é difícil para as pessoas imaginarem como era o mundo quando nenhuma dessas ações tinham sido realizadas. Então, eu acho que é útil fazer genealogias que incluam históricos sociais — para que as pessoas tenham a noção de que a forma como nós discutíamos sobre isso esbarrava nas restrições da época. E, a maneira como falamos sobre isso agora foi construída em cima disso. Há muitas coisas que são esquecidas e muitas outras coisas que são aumentadas”.

Autora

Bim Adewunmi é jornalista freelancer e blogueira. Especializada em cultura pop, feminismo e raça. Blog: http://www.yorubagirldancing.com/ Twitter: @bimadew

Autor: Blogueiras Feministas

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