Reflexões sobre lutas sociais e protagonismo

Texto de Sabrina Aquino para as Blogueiras Feministas.

Dentro das discussões feministas, quando falamos em conceitos e definições, os distintos feminismos que conhecemos classificam o patriarcado contemporâneo como: o sistema de opressões dos homens sobre as mulheres. Porém, há outras correntes que olham essa questão de maneira diferente.

O feminismo comunitário indígena, por exemplo, classifica o patriarcado como: o sistema de todas as opressões, violências e discriminações  vividos não apenas pelas pessoas, mas também por toda a humanidade e a natureza. E tudo isso construído sobre o corpo das mulheres, segundo a interpretação de Julieta Paredes, ativista aymará. Assim, o feminismo indígena (cherokee, zapatista, aymará, mapuche e tantos outros nas Américas) não problematiza só a relação entre homens e mulheres, mas sim todo os tipos de opressões, pois o colonialismo é patriarcal.

Imagem: Women Power Clipart. Em Clipart Finder.
Imagem: Women Power Clipart. Em Clipart Finder.

Desse modo, enquanto o feminismo ocidental, muito influenciado por ideais liberais, luta por liberdades individuais, o feminismo indígena luta por direitos coletivos. Mas, não se trata de anular o indivíduo e sim reconhecer que o coletivo é constituído por diferentes pessoas. Portanto, não se pode construir coletivos se não há reconhecimento e respeito às autodeterminações. E, essa autodeterminação também precisa ser estabelecida dentro de uma construção coletiva. Portanto, é preciso encontrar um equilíbrio entre as especificidades e o universal. Neste sentido, em termos de organização de lutas coletivas e horizontais, não me parece produtivo eximir o caráter universal em nome de perspectivas estritamente particulares e individualistas, como ocorre com frequência em muitas correntes feministas não-comunitárias.

Não obstante, é importante deixar claro que as particularidades importam. Por isso a discussão sobre protagonismo e lugar de fala nos movimentos sociais é importante. Requisitamos o lugar de fala como um recurso essencial para entender a troca simbólica de enunciados, compreender de onde partem os posicionamentos e a contextualização das falas. Porém, não se deve desconectar o lugar que o locutor ocupa, num determinado contexto, de sua posição em relação a outros seres e do mundo.

Basicamente, gostaria que tivéssemos mais cuidado ao refletir sobre questões que nos unem como humanos, direcionando nossos propósitos em busca de uma construção coletiva e de justiça social, não fazendo concessões ao determinismo social rasteiro. Por isso, acredito que em alguns debates há um entendimento equivocado sobre o lugar de fala, que impede a ampliação da discussão para uma dimensão universal dos posicionamentos, usando-o como um artifício para impedir que outros interlocutores iniciem e participem de debates que são cruciais para que mudanças se concretizem.

Critico e questiono a visão de um posicionamento autoritário, de que só a pessoa imediatamente afetada pelas circunstâncias que a vitimiza possa abordar o assunto que viabiliza seu sofrimento. Considero isso uma visão reacionária que tem feito das lutas das minorias historicamente oprimidas um fetiche na internet, defendendo um posicionamento a partir de um protagonismo individualizado entendido como único — não como uma construção das demandas —, naturalizando comportamentos  e “fulanizando” uma luta que deveria ser contra um sistema organizado e não contra indivíduos.

Com isso, não apoio uma universalidade que provoca o ocultamento da história subalterna ou do direito à narrativa de suas especificidades. O que critico são os estandartes de algumas militâncias que tratam os antagonismos sociais como “impossíveis de superar”, sem considerar uma construção coletiva para tentar, juntos, possibilitar o que se crê impossível. O entendimento equivocado do lugar de fala tem criado grupos sectários, defendendo que homens não devam participar da luta pela emancipação das mulheres porque “roubam o protagonismo”.

Por não ser negra, não posso falar da vergonha que é o racismo no nosso país e no mundo? Sim, não sei o que é sofrer racismo. Jamais saberei, porque não sou negra e não é este meu lugar de fala. O importante é que não me posiciono reivindicando este lugar e sei que não posso fazê-lo. Então, é claro que não é como negra que me posiciono. Nem minha posição é, rigorosamente, na luta do povo negro. Me posiciono como mulher, trabalhadora, classe média com privilégios de branca. E também me posiciono como humana, assumindo uma posição que se configura a partir de minha inserção específica no mundo, como ser social e toda a pluralidade que isso implica. Afinal, penso que as lutas sociais não podem pretender dialogar apenas com os iguais.

É fato que por causa do racismo de nossa sociedade muitas vezes pessoas brancas terão mais visibilidade e “curtidas” ao falar sobre racismo que pessoas negras. Homens serão mais festejados e aplaudidos ao repudiarem o machismo enquanto as feministas continuarão sendo classificadas como chatas. Porém, acredito que restringir aliados nas luta sociais causa mais prejuízo que ganhos, porque é importante ter mais pessoas na linha de frente desse combate. Todas as pessoas que fazem parte da sociedade precisam ser envolvidas, justamente para que as ações sejam coletivas e não de mais exclusão.

Portanto, atuo contra as opressões dentro do meu lugar social de protagonismo, o que não significa ser o personagem principal, mas sim fazendo referência a meu papel como ator social. Nesta mesma linha, tem-se evocado uma crítica ao meio acadêmico, estereotipando o conceito de lugar de fala para promover discursos vitimistas e desonestos em espaços de discussões, deixando de lado o comprometimento com a ética e o pensamento crítico ao tratar de questões das lutas sociais, usando a condição de “falante autorizado” como argumento crucial para reclamar o direito exclusivo de discutir temas que são de interesse social. Penso que a crítica ao academicismo deve ser levantada a partir da busca para fomentar uma educação transformadora e democrática. Que a academia abandone o elitismo, o preconceito de classes e deixe de ser um espaço excludente. Que todos tenham direito à informação, que as universidades sejam templos do livre saber, de qualidade, gratuitas e para todos. Ou seja, ela deve ser criticada pelo que tem de ruim, não pela busca da construção do pensamento crítico.

Quanto à dor do outro, não preciso sentir essa dor para entendê-la como dor. Simplesmente porque nem mesmo uma mulher sente a dor de outra do mesmo modo. Mesmo passando por situações quase idênticas, análogas, as percepções de tal dor serão diferentes. Posso entender a dor de alguém sem desmerecê-la ou desacreditá-la, embora jamais possa sentir a mesma dor da mesma forma. E isso me parece óbvio, mas estamos vivendo tempos estranhos onde o óbvio tem que ser dito e repetido.

Quero enfatizar que comparto e defendo a ideia da importância da representatividade. Quero mais pessoas de todas as interseccionalidades nas universidades e nos espaços públicos, falando sobre suas vivências, seus problemas, gerando conhecimento científico a partir de suas próprias narrativas. Quero mais mulheres na política e mais representatividade para a população indígena. Entretanto, a meu ver, é contraproducente que queiramos calar a voz de quem é aliado nesta mesma luta, conferindo-lhe a condição de “falante não-autorizado”, e ainda, não acreditar que pessoas que antes reproduziam qualquer tipo de preconceitos possam rever seus posicionamentos, refletir e mudar.

Acredito no poder transformador da educação. A luta deve ser além de tudo, pedagógica. Portanto, não é necessário censurar a voz de pessoas que se esforçam em ser aliados para que os oprimidos tenham mais espaço. Precisamos silenciar os discursos opressores institucionalizados e visibilizar cada vez mais as vozes periféricas e marginalizadas que emergem. Usar as mesmas ferramentas reacionárias da exclusão não me parece contribuir para os processos de mudanças coletivas tão necessários. É óbvio, mais uma vez, que minha crítica não se dirige a espaços exclusivos de militância — como grupos apenas de mulheres negras, que são importantes para a identificação e fortalecimento de laços de confiança — e nem acredito que uma pessoa aliada não possa receber críticas quanto a sua atuação. Minha crítica é o foco que damos ao indivíduo quando deveríamos pensar mais no coletivo, em como ampliar os espaços a serem compartilhados democraticamente.

Também não faço um apelo rasteiro para a retórica de que “somos todos humanos”, sem compreensão das especificidades de cada caso. Minha proposta é estabelecer um olhar que análise a forma como a sociedade atual se organiza quanto a divisão social do trabalho, das opressões econômicas atravessadas por raça, gênero e orientação sexual, para, enfim, entender com mais precisão de onde derivam os antagonismos existentes.

A luta contra cada tipo de opressão deve ser também contra o que oprime a todos: o capitalismo. Então, o que proponho é uma luta que nos una como atores sociais, considerando nossas especificidades para uma construção coletiva, transversal e não-segregadora. A meu ver, o enfrentamento por disputa de protagonismo (entendendo-o como “personagem principal”) substitui com prejuízo a idéia de lutarmos em conjunto. Pois, quem participa de uma luta o faz porque julga legítimos os fins pelos quais se luta, não para um envaidecimento fútil e fugaz, reivindicando um protagonismo individualista e colecionador de popularidade nas redes sociais.

Para finalizar, não se trata de calar ou ignorar as subjetividades dos atores subalternizados, mas conseguir que esta subjetividade nas lutas sociais não se submeta a uma realidade abstrata e fragmentada, que vai deixando o individuo perder as mediações entre ele e a totalidade. Enfim, uma busca de convergências de lutas, de transversalidade em prol de um objetivo universal, com uma visão dialética da realidade.

Autora

Sabrina Aquino é feminista marxista, fotógrafa, formada em história, tuiteira e viciada em café.

+ Sobre o assunto: Por um olhar interseccional. Por Djamila Ribeiro no Lugar de Mulher.

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.