Os estupros são coletivos, mas a sociedade não se sente responsável

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Esse mês este blog fez 6 anos. Fui olhar rapidamente os textos que publicamos esse ano. Publicamos muito sobre violência contra a mulher, e desde 2012, temos publicado vários textos sobre estupros coletivos. Uma realidade que sabíamos existir, mas que parece ter sido descoberta recentemente pela mídia devido a quantidade de casos que foram noticiados nos últimos tempos no Brasil e no mundo.

Para a maioria das mulheres não é fácil ler, nem mesmo pensar sobre casos de estupro. Muitas vezes nos perguntamos porque nem mesmo amigas feministas estão divulgando o “caso de estupro coletivo do mês”. E a resposta é que muitas não tem mais estômago para ir além das manchetes. E, nesse momento, falo de mulheres que nunca foram estupradas. Não me atrevo a tentar imaginar como se sentem as muitas mulheres que viveram — ou que ainda vivem — essa realidade violenta e brutal.

Se falamos tanto sobre estupros, por que essa ainda é uma violência tão próxima de tantas mulheres? Por que a violência sexual ainda é minimizada? Por que as pessoas ainda culpabilizam a vítima? Podemos resumir tudo em machismo, mas sabemos que não é só isso. Também nos perguntamos, desde o ano passado, o que leva milhares às ruas na Argentina e em outros países da América Latina? O que falta para que as pessoas no Brasil se indignem da mesma forma?

Buenos Aires, outubro de 2016. Foto de Marcos Brindicci/Reuters.
Buenos Aires, outubro de 2016. Foto de Marcos Brindicci/Reuters.

As respostas para essas perguntas dizem muito sobre qual o papel da mulher na sociedade brasileira. Quando falamos que estupro não é sexo, queremos dizer que a pessoa não submete outra a violência sexual apenas para gozar, para ter prazer sexual. Quem estupra o faz porque quer exercer poder, humilhar, desumanizar. O estupro e sua ameaça são formas de manter controle sobre o corpo e a vida sexual das mulheres. Pois, socialmente existem regras que devem ser cumpridas para não sermos estupradas.

As mulheres brasileiras conquistaram muitos direitos nos últimos anos e ocupamos espaços massivamente com nossa presença. A mãe de família vai ao estádio de futebol, a lésbica tornou-se avó, a jornalista negra explica a crise financeira, a travesti é vereadora, a gorda vai a praia, a estudante ocupa a escola, a deficiente tá no Tinder, a idosa fez uma tatuagem, a diarista comprou um carro, a professora desceu até o chão, a bissexual apresentou a irmã assexual pra galera do happy hour, a evangélica cuidou da prima católica que fez um aborto, a menina colocou uma capa na boneca da princesa e a jogou pela janela para voar. Mais do que isso, nos tornamos cada vez mais questionadoras, mesmo em espaços conservadores. Portanto, a violência sexual também existe para lembrar as mulheres até onde elas podem ir, a quem elas devem obedecer, para onde elas devem voltar ao fim do dia e como devem se comportar.

Essas regras silenciosas são impostas pela maioria da sociedade, homens e mulheres, jovens e adultos, religiosos ou não. A incoerência entre o que se prega e o que se faz também permeia as relações. É parte da cultura brasileira cotidiana. Com isso, o estupro é coletivo, mas a responsabilidade para evitá-lo não é compromisso de toda sociedade. As mulheres são jogadas de precipícios, são assassinadas porque reconheceram seus agressores, quebradas ao meio ao serem assediadas, são estupradas, filmadas e as imagens são divulgadas nas redes sociais, são colocadas pela polícia na mesma viatura que o agressor, são estupradas por 4 anos ou mais, são “supostamente” violentadas pela mídia. Isso tudo acontece com conivência da sociedade, uma cumplicidade que não tem vergonha de mostrar a cara em comentários diários que sentenciam: alguma coisa ela fez pra merecer. Enquanto as dores das mulheres não forem coletivas, não avançaremos como sociedade.

E o que podemos fazer? No momento, esse blog pode apoiar e divulgar a Marcha #NiUnaMenos que acontecerá hoje no Rio de Janeiro. E você?

Marcha Ni Una Menos – Rio de Janeiro. Terça-feira, 25/10/2016. Concentração às 18h na ALERJ e caminhada até a Cinelândia.

Autor: Bia Cardoso

Uma feminista lambateira tropical.