Pantera Negra: um filme de super-herói que divide o protagonismo com mulheres

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Pantera Negra (2018) é o grande blockbuster desse início de ano. Mesmo tendo Vingadores: Guerra Infinita (2018) em abril, a adaptação para as telas de um super-herói negro é a grande novidade de 2018. A adaptação do Universo Cinematográfico Marvel começou em 2008 com o primeiro filme do Homem de Ferro, após 10 anos, finalmente temos nas salas de cinema uma história de ação com características do afrofuturismo, um enredo que fala dos negros e da diáspora forçada africana por meio da escravidão e da exploração dos recursos desse continente.

O filme segue todas as características de um bom filme ação: o protagonista é surpreendido pela morte de seu pai, o que exige a tomada de inúmeras decisões e desafios em busca do futuro. O passado acaba por vir lhe confrontar e ameaçar a paz no planeta. Além do elenco predominantemente formado por atores e atrizes negros, há cenas em que o idioma africano xhosa — a língua natal de Nelson Mandela —  é falado e a trilha sonora possui canções escritas especificamente para o contexto das cenas. A produção mostra um grande desejo por representação negra. Mas, para mim, o maior destaque do filme são as mulheres.

A diferença principal de Pantera Negra em comparação a outros filmes de super-heróis é que as mulheres tem inúmeros papéis importantes na sociedade de Wakanda e, por mais que o protagonista tenha poderes especiais como força e velocidade superiores, sem as mulheres lutando ao seu lado seus objetivos não seriam conquistados. Elas não são apenas coadjuvantes, são fundamentais ao seu lado nas cenas de ação e também nas tomadas de decisões sobre quais caminhos seguir, nas decisões que precisam ser tomadas.

E mais, cada uma das mulheres que tem destaque no filme representa uma força feminina diferente. Há muita pluralidade entre as personagens, como aponta a atriz, Lupita Nyong’o, numa entrevista:

“O que me encanta sobre a forma com a qual este filme representa as mulheres é que cada uma delas é um personagem único, com os seus respectivos poderes e objetivos próprios. Temos o nosso próprio espaço nesse mundo, sem a necessidade de nos enfrentarmos”, explicou Lupita Nyong’o na apresentação do filme. “Acredito que seja uma mensagem muito poderosa para as crianças, sejam meninos ou meninas. Muitas vezes, no cinema, caímos na armadilha de que há poucas mulheres na história e, frequentemente, elas se enfrentam. Há um espírito competitivo. Este filme acaba com essa noção. As mulheres se apoiam aqui, inclusive tendo pontos de vista diferentes”, acrescentou.

Quando gritam: Wankanda Forever!, fica evidente que todas essas mulheres estão unidas pelo destino de sua nação. Porém, Nakia (Lupita Nyong’o), a espiã, mostra uma preocupação com as milhares de pessoas que estão sofrendo no mundo e apresenta a necessidade de repensar a maneira como Wakanda está sendo protegida. Ela e o protagonista T’Challa (Chadwick Boseman) tiveram um relacionamento amoroso e há constantemente uma tensão entre os dois, mas Nakia faz questão de frisar que há mais no mundo, e quando ele diz que ela seria uma ótima rainha é no sentido de ser uma governante e não apenas uma primeira dama.

Shuri (Letitia Wright) é a irmã cientista inteligente que fica extremamente empolgada quando tem a chance de compartilhar seu conhecimento com os outros. Okoye (Danai Gurira) é a general encarregada das forças de segurança e principal responsável pela defesa do Rei de Wakanda. Ramonda (Angela Basset) é uma clássica mãe de um super-herói, que conhece todo potencial que o filho tem e que o incentiva a ser justo e responsável, representa também a importância da ancestralidade.

No texto ‘Black Panther Review: The Perfectly Timed Launch Of A New Hero (& Heroines)’, Anne Cohen aponta mais aspectos das personagens femininas:

Pantera Negra é basicamente uma propaganda da interseccionalidade, uma crítica pública a vergonha que é a indústria de Hollywood sempre ter defendido projetos centrados em homens, alegando que o público só consegue torcer para um grupo, um filme por vez. Não há nenhuma mulher colocada de lado aqui. Nakia pode ser o interesse amoroso de T’Challa, mas ela é genuinamente independente e decidida — qualquer relacionamento amoroso entre eles só acontecerá dentro de seus termos. Okoye é a guerreira mais valente em um país defendido por um exército feminino, e nos conduz a um dos momentos mais poderosos do filme, num confronto com o homem que ama, W’Kabi (Daniel Kaluuya). Shuri não é só a irmã mais nova, divertida e descolada de T’Challa, ela também é a pessoa responsável pelo desenvolvimento das maravilhas tecnológicas que lhe permitem ser o Pantera Negra, incluindo um uniforme novo e melhorado. Estamos acostumados com Qs e Alfreds  — não estamos habituados a ver essa posição ser preenchida não apenas por uma jovem, mas uma mulher negra.

A única falha — que não chega a ser grave — talvez esteja na personagem que faz a namorada do vilão Erik Killmonger (Michael B. Jordan). Linda (Nabiyah Be) parece uma grande parceira do vilão, mas tem bem pouco tempo em tela, é difícil até lembrar seu nome. Erik tem um ótimo arco de construção, suas motivações lembram muito as de um outro vilão da Marvel carismático: Magneto dos X-Men. Tal qual Professor Xavier e Magneto, T’challa e Killmonger são dois lados de uma mesma moeda. Em outra comparação óbvia, podemos pensar em Martin Luther King e Malcom X. Mas voltando, entre as Dora Milaje — grupo de mulheres guerreiras que protege a nação de Wakanda — além de Okoye, apenas Ayo (Florence Kasumba) é creditada com nome e a personagem também esteve em Capitão América: Guerra Civil (2016).

Outro aspecto importante a ser citado, foi pontuado por Sesali Bowen: Pantera Negra tem uma mensagem para os homens negros: confie nas mulheres negras.  No texto: ‘Black Panther Has A Message For Black Men: Trust Black Women’, a autora fala que Pantera Negra possui uma narrativa centralizada num homem negro e que explora a masculinidade como importante fator para se alcançar o poder, especialmente por meio das lutas pelo trono. Mas, também é uma narrativa que oferece uma perspectiva de que os homens negros devem buscar o apoio e a parceria das mulheres negras:

Em nenhum momento, Pantera Negra minimiza o papel que os homens negros desempenham nas comunidades negras. T’Challa enfrenta decisões difíceis que testam sua moral, sua fidelidade a Wakanda e às pessoas negras ao redor do mundo. São homens guerreiros de uma tribo isolada de Wakanda que surgem como reforços em um momento vital da história. Mas, o filme rejeita ativamente a ideia de que a participação/existência de homens negros na “luta pelo bem” nega a necessidade vital da participação e existência das mulheres negras. Da mesma forma, o caminho para a realização de nosso potencial e da liberdade no mundo real não precisa das idéias romantizadas sobre a supremacia masculina negra. Nessa luta, as mulheres negras são iguais aos homens negros e devem ser tratadas como tal.

Sabemos que as mulheres negras sofrem simultaneamente a opressão do machismo e do racismo, sendo que muitas vezes são ignoradas e desrespeitadas por homens negros. Ao mesmo tempo, na maioria das vezes são as primeiras que os defendem de ataques racistas. Em Pantera Negra não há nenhuma explicação porque mulheres formam um exército especial em Wakanda, apenas é assim. Não há explicação porque há uma mulher espiã ou uma mulher cientista, são postos que elas podem assumir por vocação. Isso traz muita naturalidade para os papéis assumidos pelas mulheres e seguimos sonhando e lutando para que também seja assim ao sairmos do cinema.

+ Sobre o assunto:

[+] Conheça a mulher por trás da utopia africana em ‘Pantera Negra’. A designer de produção Hannah Beachler construiu Wakanda como um mundo onírico afrofuturista.

[+] Pantera Negra e a Wakanda que existe em cada periferia. Por Jessica Moreira em Nós, Mulheres da Periferia.

[+] Pantera Negra e a renovação da África no imaginário da diáspora. Por Mariana Barbosa nas Blogueiras Negras.

[+] [Afrofuturismo] Ancestralidade e protagonismo de rosto africano. Por Fábio Kabral.

Autor: Bia Cardoso

Uma feminista lambateira tropical.