Violência contra a mulher: o que você tem a ver com isso?

Texto de Maíra Avelar.

Esta semana estou completamente transtornada com relatos de violência psicológica que uma conhecida anda sofrendo, sendo agredida por um ex-namorado misógino que tive. Você deve estar pensando aí com seus botões: “E o quico?”

Fui vítima de violência psicológica por parte desse sujeito durante meses. Consegui ser amparada pela lei porque ele escorregou feio e tentou me atingir com uma garrafa quebrada. Embora, ele jure por Deus que tentou atingir o meu pai. Agora você deve estar pensando aí: “E o quico? Você que não soube escolher seu namorado” .

Apesar de ter feito boletim de ocorrência, prestado queixa e ter medidas protetivas, meu ex-namorado agressor não foi até a delegacia depor. Agora você deve estar pensando: “E o quico? A polícia foi negligente e é culpa do Estado”. Numa versão mais otimista você talvez diga: “Nossa, que horrível! Mas não vejo o que posso fazer para que a sua situação melhore”.

Pois bem, depois que as medidas protetivas chegaram, o sujeito se acalmou. Mas quem disse que eu tinha coragem de ir a determinadas regiões da cidade? Fiquei meses sem frequentar a Savassi em Belo Horizonte, meu ex-lugar predileto de sair, porque poderia me encontrar com o sujeito e começar tudo de novo. Agora, numa versão otimista, você deve estar pensando: “Muito bem, parabéns por ter sido prevenida!” Na versão indiferente, seu pensamento pode ser: “E o quico? Esse é um problema entre você e seu ex. Não tenho culpa dele ser louco”.

No fundo, meu ex-namorado agressor saiu impune da história. Passado um tempo, o que ele está fazendo? Atormentando a vida e a saúde psicológica de outra mulher. Porque de repente ele descobre que, diante do fato de que ele não se conforma que mulheres são donas de seus desejos e podem se sentir no direito de terminar o namoro com ele, e ele simplesmente as ameaça, nada acontece com ele. Fora se sentir mais poderoso e com mais direito de ameaçá-las, embora, ele jure por Deus que seja só insistência, jamais ameaça. Agora, você já deve estar irritado e pensando: “E o quico? Não sou assim e não conheço nenhuma mulher que foi estuprada (e você jura por deus que elas ou alguém comentaria o assunto se uma coisa dessas tivesse acontecido) ou ameaçada por um cara”.

Aí lanço o seguinte dado: a cada dois minutos cinco mulheres são espancadas no Brasil. Por isso, vale a pena você conferir outros dados relativos a violência doméstica por meio da pesquisa: ‘Mulheres brasileiras e gênero nos espaços públicos e privados’.

A grande maioria dos homens (91%) diz considerar que “bater em mulher é errado em qualquer situação”. Embora, apenas 8% digam já ter batido “em uma mulher ou namorada”, um em cada quatro (25%) diz saber de “parente próximo” que já bateu e metade (48%) afirma ter “amigo ou conhecido que bateu ou costuma bater na mulher”. Dos homens que assumiram já ter batido em uma parceira, 14% acreditam que agiram bem e 15% afirmam que o fariam de novo.

Então, platéia, pergunta: entre os 8% dos homens que assumem que cometem violência e os 48% que conhecem homens que batem ou já bateram em mulher, onde estão os 40% que sobraram? Traduzindo em bom português: homens, onde vocês escondem o machismo de vocês?

O problema é que essa pergunta só terá resposta quando quem pergunta “E o quico?” (de maneira mais compassiva ou mais indiferente) começar a se implicar no combate ao machismo e a reconhecer que, em maior ou menor grau, PRATICA E NEGA A PRÁTICA de atitudes machistas.

Como combater o machismo se os próprios homens — que culturalmente costumam ser os principais propagadores dessa prática — negam-na até a morte? Tenho certeza absoluta de que esse meu Ex-namorado não acredita estar ameaçando mulheres, do mesmo jeito que ele nega que tentou me agredir fisicamente e que me agrediu psicologicamente. Ele só se acha um cara insistente. Agora vocês, completamente sem paciência, devem estar pensando: “Ah, mas isso é porque ele é louco”. E eu respondo a vocês: Não, isso é porque ele não reconhece, de maneira extrema, o machismo que pratica. Provavelmente, se ele ler esse texto, ele também perguntará: “E o quico?”.