No meu coração mora uma bola

Texto de Luciana Nepomuceno.

Eu cresci apaixonada. Já chorei no banheiro por ele. Já gritei na rua. Já andei vários quarteirões, a pé, na esperança de ver um relance qualquer. Ele, o Flamengo. Desde muito pequena eu vi a casa cheia de emoção e alegria por causa do futebol. Desde muito cedo aprendi a ver, discutir, gostar e jogar futebol. Jogávamos aos domingos, prim@s e ti@s em algazarra. Não havia time de homens e mulheres, havia bons e pernas de pau. Eu era razoável goleira e péssima na linha.

Cresci numa vila em que o número de meninas era um pouco superior ao de meninos e as brincadeiras eram igualmente partilhadas. Torcer também não tinha sexo: meu pai, minha mãe (contra), eu e meus irmãos, igualmente exaltados, igualmente apaixonados. Para mim, discutir esquema tático, defender estilo ofensivo, encantar-me com dribles, tabelinhas, conhecer os fundamentos, exclamar exaltada: “que domínio de bola!” era usual. Assim, foi com uma certa surpresa que, já maior, por volta dos 10 ou 11 anos, ouvi dizer que futebol é coisa de homem.

Foto de Luciana Nepomuceno, arquivo pessoal.

Sabe, a gente se acostuma ao machismo de tão presente que ele é. Um exemplo: eu conheço uma porção de mulher que não gosta de futebol, não entende futebol, não assiste futebol. Os motivos são variados e o não menor deles pode ser, além dos já esbravejados aspectos culturais, o mesmo dos norte-americanos: um jogo demasiado longo em que o placar quase não é alterado (especialmente se pensarmos nos altos escores do basquete e tal). Então, se alguém dizia, perto de mim, que mulher não entenderia um determinado exemplo porque não entende de futebol, eu não consideraria uma afirmação machista ou preconceituosa, tomaria pelo que me parecia, uma constatação de um dado.

Bom, eu assisto futebol, muito. Acompanho desde jogos da série B do Brasileirão a campeonatos como o Campeonato Italiano, Espanhol, Inglês, etc. Eu entendo de esquema tático. Conheço os fundamentos. Tenho minhas preferências clubísticas. Quando alguém desconsiderava ou contestava uma colocação minha sobre futebol sem ater-se aos argumentos, mas porque “eu sou mulher” aí eu considerava machismo e me sentia agredida, violentada. Eu entendia como fenômenos independentes e que devíamos ver as pessoas nas suas individualidades. Aí parei e repensei tudo isso: só é possível desmerecer o meu dito sobre futebol colocando a questão de gênero no meio do argumento justamente porque é primeiro pelo gênero que nós, mulheres, somos avaliadas e não pelo nosso saber.

Isso se acentuou quando mudei de cidade, perdi a casa dos pais como convergência de torcedores e não tenho grana pra pagar o PFC… resultado: assistir jogos nos (poucos) bares que transmitem por aqui os campeonatos carioca, Copa do Brasil, Libertadores e Campeonato Brasileiro. Todas as quartas, sábados e domingo é aquele entrar e ser avaliada, receber piadas pela afronta dupla (sozinha e torcendo), ser questionada pelo garçom e outras miudezas desrespeitosas.

Isso me faz pensar na Marta. A Marta é genial, seu estilo, visão de jogo, domínio dos fundamentos, isso tudo a constitui como atleta valorosa e admirável. E faz dela, também, alvo constante de menosprezo discreto, de considerações condescendentes sempre acompanhadas de ressalvas (“mas não é futebol de verdade”), de abordagens grosseiras sobre sua sexualidade, de uma necessidade de provar todo dia, a cada treino, jogo, campeonato, que é legítima sua prática, que é talentosa, que há espaço para o seu saber. E é por causa da menina que fui – apaixonada e inocente, pela mulher que a Marta é – corajosa e persistente, pela avó que quero ser torcendo com netas e netos sem distinção pelo meu Mengo que eu sei, sinto, entendo a necessidade de todo dia sonhar o sonho do feminismo.