Os ratos e o meu lado machista

Texto de Luana Tolentino.

Se existe uma coisa nessa vida que me causa pavor, são os ratos. Ao menor sinal da presença dos roedores entro em pânico. Melhor não pensar nisso.

Essa é uma história antiga. Quando criança, um infeliz passou no meu pé. Saí correndo desesperada pelo quintal. Pedia por socorro, chorava, tremia, soluçava. Minha vizinha, coitada, pensou que havia acontecido uma tragédia. Tudo por causa de um simples ratinho.

Fiquei traumatizada. Não consigo me libertar desse medo. Quando vejo um, é motivo até para sonhar que uma ninhada anda pela minha cama. Houve um tempo em que sonhava com ratos quase que diariamente. Minha irmã e companheira de quarto, já não aguentava mais ser acordada pelos meus gritos durante a noite, até que um dia esbravejou: “Poxa, Luana! Por que você sonha tanto com ratos? Não tem outra coisa pra sonhar?”. Se pelo menos macacos, coelhos ou galos povoassem meus pensamentos enquanto eu dormia, poderia tentar a sorte no jogo de bicho.

Na semana passada, mais uma vez os ratos estiveram presentes em minha vida. Isso sim é mania de perseguição. A Mel e a Sol, minhas cadelinhas, mostraram sua força na guerra contra aquelas pestes. Mataram dois camundongos e deixaram a prova do crime bem na varanda da minha casa. Por aqui os papéis são invertidos. Dengo, meu gato, não quer mais saber da vida de caçador. Passa os dias na janela olhando o horizonte. Acho que ele se sente mais realizado assim.

Meu pai foi a primeira testemunha daquela cena terrível. Logo pela manhã, enquanto saía para trabalhar, deu de cara com os cadáveres. Espantado, perguntou a minha mãe:

– Uai, Nelita?! O que é isso aqui?

Com sua calma habitual, Dona Nelita respondeu:

– São ratos, Nicolau.

Após ouvir esse diálogo, gritei:

– Pai, suma com esses bichos daqui! Misericórdia! Não quero ver!

Fui surpreendida pela resposta do meu pai:

– Eu, não. Tenho nojo.

Não conseguia parar de rir. Um homem com quase dois metros de altura com nojo de ratos. Esqueci literalmente que aqueles defuntos estavam a apenas alguns metros de mim. Não resisti:

– Mãe, você está mal de marido. Você é o homem da casa!

Seu Nicolau foi motivo de piadas durante a semana inteira.

Rindo de um canto ao outro, contei esse episódio memorável para uma amiga. Inteligente como ela é, não achou graça nenhuma:

– Como assim, Luana? Isso é um machismo às avessas! Ou você pensa que só as mulheres podem ter medo de ratos e baratas?

Emudeci. Arregalei os olhos. Parei para pensar nas bobagens que havia dito. Assim como minha amiga, não achei mais graça em nada disso. Sem perceber, fui traída pelo pensamento machista, que acredita que só nós mulheres podemos ser frágeis, inseguras, chorar, ter nojo de ratos e baratas. Já os homens, tem que ser fortes, valentes e corajosos. Qualquer comportamento que fuja disso é coisa de mulherzinha.

Fiquei envergonhada por pensar dessa forma. Justo eu, uma feminista convicta. Não posso mais cair nesse tipo de armadilha. Esse lado machista não me pertence! Que outro ser do sexo masculino teria coragem de assumir sua aversão aos ratos a não ser o meu pai? Na verdade, Seu Nicolau foi  muito homem.

Retiro o que disse. Minha mãe não poderia ter feito escolha melhor, tem ao seu lado o melhor companheiro do mundo.  E eu, mais do que nunca, morro de orgulho do meu pai.

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Luana Tolentino é historiadora, professora da Rede Estadual de Ensino de Minas Gerais, pesquisadora da UFMG e militante do movimento negro.