O que há por trás de uma burca?

Texto de Deh Capella.

Na última semana, as listas de discussão que assino foram bem movimentadas por um assunto em comum: a prisão, na França, de mulheres que estavam usando burca ou véu islâmico (aquele que cobre o rosto e deixa apenas os olhos de fora) em locais públicos. De acordo com as autoridades francesas a medida tem como objetivo preservar a dignidade da mulher e se alinhar com a política de proibir a presença de símbolos religiosos em locais como escolas e órgãos públicos.

A questão é espinhosa porque envolve ao mesmo tempo, e de forma contraditória, uma grande gama de valores e suscita várias perguntas. A discussão, pra mim, não tem fim mesmo. Quer ver só?

Foto de Paolo Alfieri no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
  • a burca é um símbolo religioso incontestável. Mas por que, então, não se proíbem outros símbolos religiosos envergados por pessoas, como…crucifixos, solideus, turbantes ou mesmo as barbas longas que são comuns a muçulmanos?
  • franceses levam muito a sério o laicismo do Estado (ao contrário dos brasileiros – que atire a primeira pedra quem nunca viu Bíblia aberta ou crucifixo pendurado em repartição pública), mas esse princípio deve ser colocado acima da liberdade individual da pessoa se vestir como quiser?
  • se os muçulmanos são o grupo diretamente afetado pela proibição, como o governo francês pretende lidar com o descontentamento crescente dos muçulmanos, que são de 5 a 6 milhões de pessoas na França? É interessante para o Estado fomentar impopularidade e jogar mais lenha na fogueira do preconceito contra imigrantes?
  • a burca pode ser considerada uma prisão, porque esconde e isola a mulher, além de uniformizar a aparência e apagar a subjetividade. Mas alto lá! Somos ocidentais falando sobre um costume que pode não incomodar outras pessoas da mesma forma. Como lidar então com a questão das mulheres que querem usar a burca ou o véu?
  • pressupondo que há mulheres que deixariam de usar a burca e o véu, se pudessem, e mulheres que o usam porque querem, como separar esses dois grupos? Como saber quem vai usar apenas porque quer e quem vai usar porque há pressão social para isso?
  • se o governo francês pretende multar e/ou prender usuárias de burca e véu, como fica a situação das mulheres que podem sofrer represálias se saírem de casa em roupas comuns? Que tipo de amparo pode ser dado a elas?
  • pode-se considerar que uma consequência da proibição talvez seja um isolamento maior de mulheres muçulmanas – que deixarão postos de trabalho e bancos escolares por simplesmente não saírem (por escolha própria ou imposição) de casa sem burca ou véu?
  • questão levantada nas duas listas: as mulheres ocidentais possuem “prisões” equivalentes à burca ou o véu? A depilação, por exemplo, pode ser considerada uma imposição equivalente à imposição do uso da burca? Nosso código de vestimenta pode ser considerado restritivo? Nós vivemos a experiência de ter um corpo livre?

Como disse lá no comecinho, é um assunto espinhoso que transita por uma série de temas e exige que a gente exercite ao mesmo tempo: nossa capacidade de refletir sobre liberdade e nossa visão sobre o que é diferente do nosso contexto e das nossas experiências. Espero ter deixado bastante material pra essa reflexão. E aí, o que você acha?

Mais alguns textos para pensarmos:

[+] Opera Mundi – Proibição a burca na França: oprimir para libertar?

[+] Mulher Alternativa – Depilação é a burca brasileira: uma menina que mudou a minha vida numa viagem à Tunísia.

[+] Cynthia Semiramis – Roupas também são uma forma de opressão.

[+] R7 – Barbie Muçulmana veste burca para leilão.