Texto de Claudia Gavenas.
Eu me acostumei a ler de tudo, sem preconceitos. Acho que sempre é possível aprender com tudo e com todos, independente das circunstâncias. Mas, ultimamente, começei a sentir um certo desconforto ao ler algumas publicações de grande circulação, sobretudo revistas destinadas ao público feminino. Explico.
A grande maioria delas ajuda a sustentar uma série de convenções e estereótipos, os quais eu e muitas de nós insistimos em combater. E isto é feito de forma tão natural que se não desenvolvemos uma visão crítica e reflexiva a respeito, acabamos por “comprar” essas idéias como verdades absolutas. Para exemplificar: você compra uma revista que tem como reportagem principal a história de mulheres empreendedoras. Nela, é descrita toda a trajetória profissional das entrevistadas, a forma como elas alcançaram o sucesso, conselhos para quem quer ser como elas. Mas também, sempre é ressaltada a importância de que a “feminilidade” não seja perdida, de que se deve ter uma família, marido, filhos… Uma vida perfeita.
Mas, esperem um pouco. Qual a relevância de misturar vida profissional com vida pessoal em um artigo sobre empreendedorismo? Quais são as reais mensagens que estão sendo transmitidas e as suas finalidades? E o principal: por que isso não seria feito se a mesma reportagem fosse com homens? Estes são apenas alguns dos questionamentos que faço quando paro para pensar a respeito. E também me pergunto por que tais publicações ainda vendem tanto e ainda se apresentam como referência para muitas leitoras… Como se já não bastassem as inúmeras colunas que só falam de beleza, dicas de compras, como “amarrar o seu homem” ou como ser “mais mulher”.
Eu gostaria que algum dia, quando eu procurar algo para ler, sentisse que o material que estiver em minhas mãos realmente me representasse. Que realmente me ensinasse algo e que me edificasse como mulher e como pessoa. De forma alguma, condeno quem aprecia o tipo de publicação que descrevi acima, até porque todo mundo é livre para gostar do que quiser. Mas acredito sinceramente que não tenho mais motivos para aceitar revistas cujos conteúdos nada têm a ver comigo, ou com que penso. Ou que me diminuam a um sujeito (ou objeto, no caso) que apenas consome. E que, principalmente, generalize tais pressupostos a todas nós.