Violência: por que fingir que está tudo bem?

Texto de Denise Rangel.

Em pleno século 21, homens ainda tratam suas mulheres como mucamas, escravas dedicadas aos afazeres domésticos, vivendo sob o domínio do senhor. Para estes homens, o casamento significa transformar a mulher em babá, enfermeira, cozinheira.

Recebi dois e-mails que retratam a desolação de mulheres que não sabem como sair de tal situação:

Carrego um casamento nas costas e me sinto uma escrava, mas tenho filhos pequenos e não posso pensar em separar (não por enquanto, no futuro com certeza)”.

“ desejei muitas coisas e o que eu recebo em troca é apenas desprezo, como se fosse uma empregada. Sou muito infeliz, e o pior é que eu não sei como voltar atrás. Enfim, minha vida está um inferno! Tendo que aturá-lo e fingir que está tudo bem.”

Não sei qual a situação real dessas mulheres que me escreveram, se sofrem agressões, se são coagidas a permanecer em casa. E, mesmo que não exista a violência física, há a psicológica, que destrói sem deixar traços visíveis. E, com certeza, há muitas formas de agressão – algumas tão sutis que só a percebemos em uma segunda leitura, mais atenta.

Por que elas pensam que têm de fingir que está tudo bem se não está? Estar apaixonado é algo indescritível, mas ter uma pessoa ao lado, quando já não exista mais nenhum afeto, é desesperador. Quando a paixão acaba e dá lugar a outros sentimentos hostis, nem sempre a união mantida, mesmo por causa dos filhos, é uma saída. Pelo contrário, pode até se tornar trágica.

Ninguém é obrigado a viver com quem não ama. O que mais há neste mundo são mulheres que trabalham e sustentam seus filhos. Eu mesma, criei meus filhos sozinha, trabalhando. Somos fortes, somos capazes de assumir uma vida nova, sem humilhações? Muitas conseguiram; outras, ainda não.

Sustentar uma casa sozinha, trabalhar fora, deixar os filhos na creche, são situações que assustam muitas mulheres. E várias continuam na casa de um homem, dependentes dele emocional e economicamente, sem coragem para sair desta situação e se lamentando do inferno em que vivem.

A violência contra a mulher está em todos os níveis sociais, porém, muito mais acentuado nas classes menos favorecidas. E, as punições, quando são aplicadas, também são mais dirigidas a essas classes. A lei que protege a mulher agredida, em muitos casos só beneficia quem tem posição social e econômica privilegiada.

O hábito de desrespeitar a liberdade e integridade das mulheres mais humildes está tão arraigado, que, muitas vezes, cheguei a pensar que é uma luta vã.  Até quando mulheres agredidas continuarão a fingir que está tudo bem? Não quero acreditar que seja utopia  pensar que as coisas podem melhorar, pois as mudanças, embora muito lentas, acontecem, se todos, mulher e sociedade, se comprometerem a mudar esta situação.

Autora

Denise Rangel é professora de Literatura e Produtora de Rodas de Leitura; Feminista; Ecoconsciente; Sturm und drang!