Texto de Deh Capella.
Uma mulher que se levanta da cama, pega o livro no criado-mudo e continua deitada, lendo; outra que se levanta, olha no espelho, chega perto como que avaliando a pele, lava o rosto; a outra levanta da cama, se olha rapidamente no espelho e se abaixa sobre a bacia d’água colocada sobre seu lavatório. Laura, Clarissa, Virginia.
Minha trajetória foi de primeiro filme, depois livro. Ambos me acompanham, estão à mão e volto aos dois sempre que bate saudade. A primeira sessão do filme rendeu lágrimas copiosas porque eu me via representada nas três mulheres. O tempo passou e eu ainda identifico pedacinhos da minha vida nas três histórias entrelaçadas em três contextos diferentes.
Pergunto-me se essa identificação vai desaparecer um dia, ou se vai só mudar de uma característica ou outra conforme os anos passarem. Pergunto-me também se a identificação é comum a outras pessoas, outras mulheres (ouvi alguns relatos de gente que achou o filme overrated).

Um dia na vida de uma mulher. Um dia na vida de Clarissa Vaughan, Laura Brown e Virginia Woolf, que se vê as voltas com a tarefa de criar, ela mesma, um dia na vida de sua Mrs. Dalloway. Um dia na vida de cada uma de nós. Abro as páginas ou então pressiono o “play” no aparelho de DVD e o espelho em que vou me mirar é a tela da televisão. Sou uma parte Laura Brown, presa ao dilema entre viver uma vida perfeita, redondinha, em que ela pode ter parado por pura inércia ou puro desejo se de enquadrar ao que se esperava dela, e o impacto de escolhas e mudanças radicais; um pedaço de mim palpita em Clarissa e Mrs. Dalloway, acomodadas e um pouco desconcertadas com uma vida que prometia tanto e que se mostrou banal, corriqueira; Virginia luta contra as vozes que só ela ouve e é mais uma a brigar para se enquadrar, se ajustar, se incluir.
Sempre o ajuste, sempre a culpa por não seguir o modelo preestabelecido e desejável. Todas buscando seu lugar, todas questionando seu lugar no mundo e suas escolhas feitas ou vindouras.
Um dia, então, revi o filme mais uma vez. Já perdi a conta. E me dei conta de que não se trata de mais um filme feito sobre medida para cativar, para encontrar identificação; não é mais um livro sobre mulheres e sobre suas escolhas. É um livro em que as trajetórias de quatro mulheres, três fictícias e uma real, são costuradas pelo mesmo elemento comum: ‘As Horas’ é uma história de mulheres, mas é também uma história de leitoras e de leituras. A literatura perpassa a vida de todas essas protagonistas e todas gravitam em torno de Mrs. Dalloway: Virginia, a que escreve; Laura, a que lê e foge de sua vida e se torna uma bibliotecária; Clarissa, a que edita; Mrs. Dalloway, a personagem-título de Mrs. Woolf.
Eu acabei por me tornar também bibliotecária. Não fugindo de uma realidade como a de Laura Brown, não fugindo da mesma vida. Mas de certa forma procurando uma vida bem diferente, novos horizontes, fazendo escolhas; tornando “you cannot find peace by avoiding life” meu leitmotiv. Como Laura, Virginia, Clarissa, todas elas em mim, fui atrás de mim e continuo indo atrás das letras, atrás das leituras, atrás dos livros.