A reportagem que eu queria ter lido sobre a Marcha das Vadias de Brasília

Texto de Priscilla Brito.

Apesar da dificuldade de ressignificar o termo vadia, a Marcha das Vadias de Brasília legitimou sua proposta, reafirmando a necessidade das mulheres de se organizarem coletivamente contra as diversas formas de violência presentes no nosso cotidiano.

“Hoje marchamos para dizer que não aceitaremos palavras e ações utilizadas para nos agredir. Se, na nossa sociedade machista, algumas são consideradas vadias, TODAS NÓS SOMOS VADIAS. E somos todas santas, e somos todas fortes, e somos todas livres! O direito a uma vida livre de violência é um dos direitos mais básicos de toda mulher, e é pela garantia desse direito fundamental que marchamos hoje e marcharemos até que todas sejamos livres”

Quando cheguei em frente ao shopping para a concentração fiquei um pouco receosa. Parecia haver mais fotógrafos que manifestantes, fiquei com medo de ser aquela nota de pé de página: “20 pessoas protestam em Brasília acompanhadas de 2000 fotógrafos”.

Essa sensação caiu por terra quando começamos a caminhar. Eu estava na frente e quando chegamos no semáforo da plataforma superior da Rodoviária quase perdi o fôlego ao olhar para trás. Era muita gente! Na primeira reportagem que vi, a Globo estimou 300 participantes. Depois corrigiu, 1000 é uma aproximação mais justa para a multidão que tomou conta da cidade.

Segundo Guacira Oliveira, “a militância do Fórum de Mulheres do DF, as bem antigas (que a gente não via há algum tempo), as que a gente sempre encontra, as mais recentes, todas se sentiram convocadas e participaram de todo o agito”.

Para as meninas da organização, a Marcha foi um sucesso, tanto em relação à mobilização quanto à politização do debate. Para Lia Padilha, “A marcha foi linda, foi politizada, foi libertária, foi alegre, foi séria, foi criativa, foi respeitosa e cá pra nós, foi um “tapa na cara” do conservadorismo! […] Me senti assim também, livre, livre, livre…”.

A participação dos homens foi surpreendente. A maior parte estava com cartazes muito legais, totalmente favoráveis à causa. Eles também nos acompanharam nos batuques e na cobertura alternativa da Marcha.

Todo mundo se pergunta, mas que movimento organizou a marcha? Posso dizer que foi o movimento de pessoas descontentes com todas as formas de violência contra a Mulher. Movimentos organizados aderiram, obviamente. O processo, contudo, foi bem horizontal. “Me senti muito bem percebendo que conseguimos ajeitar as coisas de forma horizontal e solidária. Foi a primeira vez que participei de um movimento onde conseguir enxergar verdadeiramente uma horizontalidade na organização!”, afirmou Leila Saads.

No entanto, apesar de toda a alegria, precisamos ficar ligadas para que a marcha não tenha fim, para que ela possa fortalecer as lutas feministas, ajudando muitas pessoas a se engajarem nos movimentos ou simplesmente a descobrirem-se feministas, empenhando-se nas lutas cotidianas. Não deixar o encanto do sábado se perder, porque o machismo está aí nos violentando todos os dias.

Como disse a Saionara, uma das organizadoras do protesto, “precisamos aproveitar essa energia e seguir fazendo intervenções nas universidades, no trabalho, nas ruas, dentro de casa, nos pontos de ônibus, nos muros, nas calçadas, na vida… Vamos ocupar os espaços juntas, vamos continuar com as nossas pautas e reivindicações, vamos seguir… Vamos?”.

P.S. Assistam ao vídeo que o DCE da UnB fez da Marcha das Vadias de Brasília: