Qual o seu depoimento?

Texto de Karollyna Alves.

O bacana dos encontros realizados, seja qual for a intenção, de protesto, de discussões, de debates, ou até mesmo aquele bom chá gelado na varanda de casa para encontrar os amigos, é a troca de informações, de idéias, de novos parâmetros, e inclusive de experiências pessoais.

Hoje em dia, essa troca de informações está bem mais ágil e dinâmica, principalmente pela internet. Mesmo assim, não dispensamos os encontros básicos em prol de uma ideologia comum aos participantes, como aconteceram as marchas das vadias, que ocorreram em diversos lugares do mundo e ainda o encontro dos blogueiros progressistas. É sempre bom ver pessoas que realmente se empenham em tentar mudar padrões que excluem os que a sociedade coloca como “fracos”.

Marcha das Vadias Recife 2011. Foto de Karollyna Alves, arquivo pessoal.

E nesses encontros, e nessas trocas de experiências, dentre todas as coisas compartilhadas os depoimentos são os mais chocantes possíveis. Em meados do mês passado, ocorreu também em Recife, a Marcha das Vadias. E posso dizer, como participante deste evento, o quanto para mim (que nunca tinha participado antes de qualquer encontro com temática feminista) foi prazeroso e serviu de aprendizado com o que presenciei.

Vi muitos jovens de mente aberta com sede de igualdade e justiça. Vi homens levantando bandeiras de que não são o que a sociedade os mascara. Vi mulheres que diziam “Não” aos dogmas sociais. Vi pessoas cansadas de serem colocadas como “vítimas” e despertando para se tornarem lutadoras por dias melhores.

E cada pessoa dessa, tem um passado, e cada passado, tem uma história impressionante. Ao terminar a marcha, houve a concentração na praça mais conhecida da cidade por ser ponto de prostituição, onde a intensão era discutir os valores feministas e esclarecer os objetivos da caminhada. Ao desenrolar dos fatos, mulheres e homens se levantaram, mais que num impulso de coragem para falar de suas histórias, mas também, parar tocar em pontos feridos que todos passam e a maioria diz numa tentativa errônea de se sentir melhor: “O que você pode fazer agora, é simplesmente esquecer”.

Nos depoimentos, ouvi mulheres que escolheram uma opção sexual de prazer pelo mesmo sexo e por isso foram agredidas por homens para “aprender a ser gente, e gostar do correto” ou seja, violência para elas “seguirem uma vida digna”. Ouvi mulheres que viram parentes próximos serem estupradas enquanto que os que deveriam proteger e exigir justiça (polícia) questionavam sobre se era um “antigo relacionamento” que terminou em um “mal entendido” de ambas partes e que “não necessitaria” de um apelo judicial. Além de mulheres que por serem o vulgo “gostosas” tiveram uma arma apontada em sua frente e aprender a “obedecer” os mais “masculinos”.

Ouvi também gritos de alívio de mulheres que podiam dizer “fiz um aborto” sem serem julgadas como seres humanos cruéis e desprezíveis, como elas mesmas disseram: “Se eu digo que não tenho condições de criar um filho, sejam elas financeiras, psicológicas, ou afetivas, quem é o estado para me dizer se eu devo ou não continuar com a gestação?”

Entre diversos outros depoimentos, ao final da discussão, ficou o sentimento de alívio por ver pessoas nadando na mesma correnteza e passando pelos mesmos desgastes que eu, uma feminista sem contato real com pessoas a não ser pela internet. E o espanto dos depoimentos prestados, passando diversas perguntas pela mente, como: “como as pessoas são capazes de fazerem tal atrocidades umas com as outras?” ou simplesmente a preocupação de que “eu posso ser a próxima vítima”.

Então, no fim deste meu primeiro post, de você eu quero saber: “Qual o seu depoimento?”

Autora

Karollyna Alves é uma alma encantada pela vida, pelo amor, amigos, livros, gatos e meus vinis. E ainda mais de tudo que cabe no meu quarto.