O cinema, minha subjetividade e Leila Diniz

Sempre andei sozinha. Me dou bem comigo mesma.

Leila Diniz

O cinema é um espaço mediador da minha subjetividade e, acredito, da de uma porção de outras pessoas. Há personagens e/ou atrizes fundamentais na forma como interajo no mundo, como tomo decisões, como decodifico comportamentos e, até, como me relaciono. Volta e meia eu me sinto Dorothy e vou atrás de estradas de tijolos amarelo ou me armo como Margo e digo: “apertem seus cintos, esta será uma noite turbulenta” ou, ainda, solto um scarlettiano: “amanhã é outro dia” e espero a noite das desilusões se fazerem sol.

Leila Diniz em uma imagem do fotógrafo Antonio Guerreiro.

Entendendo o cinema como produção humana social e historicamente circunscrita, eu sempre me emociono com filmes das décadas de 30 a 50 que apresentam personagens femininos fortes, consistentes e capazes de me ensinar tanto. Já comecei uma lista com filmes, atrizes e personagens e era assim:

Scarlett O’Hara em E O Vento Levou…é difícil explicar – pra quem não viu o filme – a força, independência, carisma dessa personagem.

All About Eve: um filme em que todos os papéis centrais são femininos e o filme versa sobre carreira, competitividade no mercado de trabalho, maturidade profissinal x juventude, ética…

Johnny Guitar: sempre me parece divertido eu um estilo considerado tão “masculino” como o faroeste tenha um filme protagonizado por duas mulheres como um dos dez melhores na lista de quase todos os críticos deste gênero. Protagonista e antagonista defendem seus espaços com unhas, dentes e balas em um duelo fantástico. Além disso, disputam não o amor de um homem mas seu desejo já que o amor elas dirigem a outros personagens.

Mae West, em todos os seus personagens de alta voltagem sexual. Na década de 30 ela protagonizava, na vida pessoal e nas telas, situações fora do estereótipo, colocando-se em situações onde era o seu desejo que contava e não o desejo do homem. Nunca esqueço de uma cena em eu um vidente dizia: vejo um homem no seu futuro! e ela reclamando: SÓ UM? – isso em 1933;

Katherine Hepburn em A Mulher do Dia, esgrimindo verbalmente com Spencer Tracy; ela mesma de novo com Bogart em Uma Aventura na África;

os personagens de Bárbara Stanwyck e de Irenne Dunne, como em A vida de Um Sonho Ann Vickers (uma mulher que trepa antes de casar, faz um aborto, depois vira amante de um homem casado, tem um filho dele…isso em 1933, na verdade em 1917 ano de que trata a trama, hein? hein? e ela é a mocinha, tá).

E seguiria neste passo um tempão porque ainda tem a incrível Bette Davis, com seus olhos inesquecíveis e sua paixão pelo trabalho, pelos homens que amou e pelos princípios de liberdade que defendia tão intensamente. Ainda tem a Lauren Bacall deixando Bogart de queixo caído ensinado-o a assoviar, tem Ingrid Bergman e sua Sonata de Outono (além de ser a mulher incrível, uma sobrevivente emocional e uma corajosa e apaixonada hedonista).

Mas eu comecei este texto foi mesmo pra falar da Leila Diniz, que já é da década de 60. Porque um dia eu vi Todas as Mulheres do Mundo e tomei uma decisão: quero que me olhem como a câmera espiava a Leila, com atenção, interesse e deslumbramento. Leila Diniz era o que todas eram na sua época: fez o curso normal e foi professora de Jardim da Infância em um subúrbio. Leila Diniz era o que poucos conseguem ser em qualquer tempo: alguém de bem com seu corpo e com seu desejo. Alguém que se sabia um ser em construção e que o prazer é a melhor argamassa. Leila tinha coragem de dizer o que não se dizia: sou feliz. Sua entrevista ao Pasquim deflagrou a censura prévia no Brasil num decreto conhecido como “Decreto Leila Diniz”.

Gosto de ver Leila Diniz, da naturalidade com que lida com seu corpo, da alegria, da irreverência, do passo firme e leve. Gosto de ler Leila Diniz, de refletir com ela sobre os nossos limites, sobre o amor, sobre liberdade. Gosto de lembrar Leila Diniz e sua gestação, tão dela e tão nossa, tão na rua e tão íntima. Gosto de

rir com Leila Diniz ao lembrar que um coronel – destes de noções arraigadas – reclamou quando Leila recusou dinheiro pra fazer sexo com ele: “pô, Leila, mas você dá pra todo mundo” e ela: “sim, eu posso dar pra todo mundo…mas não dou pra qualquer um”.

25 anos depois da morte de Leila Diniz em um acidente de avião, o JB publicou uma matéria perguntando: “O que você tem de Leila Diniz?”. Agora, quase quarenta anos depois, talvez seja tempo de pensarmos não o que temos de Leila, mas o que podemos aprender…com ela, conosco, com nosso corpo, com o riso.

Autêntica. Espontânea. Divertida. Fácil. Foi isso que aprendi vendo Leila Diniz: bom mesmo é ser fácil e não tem olhar alheio que me tire esta liberdade.

PS. Mais sobre Leila Diniz você lê aqui, no post excelente da Danielle Cony.