Sem perder a ternura?

Quando é que certas coisas começam a nos incomodar tanto que não conseguimos mais fechar os olhos e fingir que não vemos?

No dia 8 de março de 2011 foram ao ar inúmeras reportagens, celebrando (será?) o Dia Internacional da Mulher.

Não sei das demais, mas sobre uma delas, posso falar de cadeira, já que fui uma das mulheres escolhidas pela reportagem “Mulheres garantem a segurança da população”.

Mulher com chapéu de flores e pó compacto. Foto de George Eastman House, no Flickr em CC.

Eu, outra delegada, mais jovem, e duas policiais militares.

Gravamos no dia 4 de março. Foi ao ar dia 8. A repórter foi muito simpática. Eu falei, falei, até babar, aproveitando o ensejo para falar da violência de gênero e que sim, claro, existe machismo sim, na polícia.

Para minha surpresa (não) todas as minhas falas mais contundentes foram cortadas, e ficou só a fala de que “sim, nós podemos!”, que, claro, é fantástica, mas não é tão simples assim.

Falei que das onze vagas de chefia, somente uma é ocupada por mulher, e que das chefias regionais, somente quatro, em 18, são mulheres. Falei que em algumas das carreiras, as mulheres já são mais de 30%, mas que isso não se reflete nos cargos de chefia.

Falei sobre a violência doméstica, e sobre como achava importante marcar aquele dia, Dia Internacional da Mulher, como mais um dia de luta contra o machismo, que mata dez mulheres, todos os dias, vítimas de seus companheiros, namorados, pais, irmãos, por motivos que devem ser combatidos.

Falei que sim, já fui olhada de lado por pessoas que, sem me conhecer, duvidavam de minha capacidade, pelo simples fato de ser mulher, perguntando se não tinha um delegado com quem elas pudessem tratar.

Só que nada disso foi ao ar.

O que foi ao ar foram as mãos manicuradas, as orelhas enfeitadas, a maquiagem (que eu também usava), os enfeitinhos na sala, e como, mesmo estando em uma profissão “masculina”, nós também somos “femininas”  e não perdemos a sensibilidade.

A velha noção de feminilidade, essa construção, que, ao que parece, se for minimamente questionada, enquanto construção e não como algo “natural”, vai fazer ruir as bases da civilização humana e nos levar â barbárie.

Então, o que as reportagens da grande mídia passam é que “tudo bem ela ocupar um cargo de homem, mas tem que ficar bem claro que ela ainda é mulher”. Como se ser mulher fosse apenas usar batom, fazer as unhas, ter um toque de “mulherzinha” na sala.

Sim, eu pinto as unhas, uso batom, tenho bibelôs na minha sala, no meu local de trabalho.

Isso me faz mais ou menos mulher, mais ou menos competente, mais ou menos feminista?

Durante séculos, mulheres foram submetidas a uma opressão absurda, sendo apenas objetos de direitos, nunca sujeitos. Nossa subjetividade, ainda hoje, vem limitada por padrões que nos são impostos de sermos “perfeitas”, e as ditas “homenagens” que recebemos no Dia Internacional da Mulher reforçam ainda mais esses padrões. Ser profissional e ser mulher-mãe-esposa-dona-de-casa-amante-filha… perfeita. Capazes de triplas jornadas e outras coisas que nos são incutidas tão cedo, tão cedo… quantas não desejam, em algum momento, ceder, e acreditar que bom era mesmo quando mulher “não precisava trabalhar fora”.

Seja mulher.

O que significa isso?