O casamento dos meus sonhos!

Texto de Mari Moscou.

O quê? Feminista sonhando com casamento? Heresia! Queima na fogueira! Queima na fogueira! 🙂

Brincadeiras à parte, confesso que nunca sonhei com casamento. Meus pais nunca se casaram e na noite anterior ao casório quando saí pra jantar com meu pai e a mulher dele, ele ainda fez questão de reforçar: “você sabe o que eu acho de casamento”… Dito assim, até parece que sou eu o backlash da família, não é? Só que as coisas não são assim tão preto no branco, tão ferro e fogo, sabe? E apesar das intrigas da oposição, nós feministas costumamos ser bem razoáveis, críticas e até flexíveis, vejam só!

Apesar de ter uma Barbie Noiva (que nunca casava nem no gibi, nem nos filmes, nem nas minhas brincadeiras, como vocês podem ler nesse post aqui) quando era pequena, jamais me liguei em casamentos. Na verdade me incomodava bastante quando as pessoas casavam e lá ia eu comprar roupas, sapatos, etc. que eu detestava e que só iria usar uma vez. Talvez eu tenha mesmo empatricinhado com o tempo mas, sabem que hoje sou muito feliz assim, de unhas feitas, cabelo bem tratado e roupas bonitinhas na hora de sair (sem comentários sobre os 10kg que estou tentando perder mas que também não diminuem meu nível de feliciadade cotidiana)? Então na hora que em embarquei na ideia de fazer um casamento – depois de ter vindo morar junto com meu amor – que, vale dizer, fui eu mesma que propus para a surpresa dele, me deparei com algumas dificuldades enormes de um mercado viciado nos costumes tradicionais, inclusive aquele de gastar as calças pra pagar a tal festa. Bem, não era bem isso que eu queria.

Logo que comecei a procurar uma luz internet afora – não tinha a mais vaga ideia de por onde começar a organizar o casamento – todo mundo dizia: já escolheu a data? E eu fazia cara de pirulito, né, porque nunca tinha pensado em casar quanto mais a data! A próxima coisa dos sites tradicionais era: fechar o local e o vestido, fazer primeira prova do vestido, segunda prova, terceira prova… Os calendários de preparação de um casamento tradicional duram pelo menos UM ANO! Mas cac•te, eu estava mudando a minha vida naquele momento, pô, tinha que celebrar naquele momento. Se você consegue um emprego novo ou uma promoção vai fazer happy hour de comemoração no ano que vem? E se o cargo novo não durar até ano que vem? E se ano que vem você estiver desanimado, sem grana ou muito ocupado? Então nada contra quem faz longas preparações de casamento mas pra mim simplesmente não ia funcionar.

Foi aí que uma amiga (que veio a ser madrinha) me iluminou as idéias. Organizar o casamento como eu organizaria uma festa chiquetosa de aniversário. Com a cara que eu e meu amor temos. Bingo! Abandonei toda e qualquer pretensão de seguir manuais e rituais e finalmente consegui. A coisa andou. Mas, ainda assim, onde é que está o feminismo em toda essa história e por que raios este post está aqui no Blogueiras Feministas?

Bem, muito se fofoca pela web e pelo mundo que “ser feminina” é uma coisa e “ser feminista” é outra. Segundo esse senso-comum-desinformado, casar e curtir o casamento e tudo mais seria uma coisa feminina enquanto ser solteirona ou só juntar os trapos seria uma coisa feminista. Olha, juro pra vocês que sou hiperfeminista e quem me conhece sabe que o feminino, a igualdade de gênero, etc. são as causas da minha vida. E casei. E gostei de casar. E adorei organizar tudo. E escrever meus votos. E ser o centro das atenções. E ser tratada como noiva com os privilégios que uma noiva tem. Mas é aí que entra meu feminismo: sei que nada disso é natural da minha condição de mulher; sei que esse não é o único jeito de ser mulher nem o único jeito de sendo mulher, ser feliz e completa; sei que o casamento originalmente é um contrato de bens e mercadoria e produção (família, primeiro unidade de produção e só depois unidade de afeto, vale lembrar), sei que o ritual tradicional tem uma carga simbólica que é sim machista (e não por isso também não possa ser resignificada). O feminismo está na crítica, está na relação e no significado que se dá para as coisas.

Não há manual do feminismo.

Não há contrato que se assine para carregar o título de feminista.

Feminismo é a ideia radical de que mulheres são gente, sejam elas casadas, solteiras, tradicionais, conservadoras, de direita, de esquerda, gordas, magras, narigudas, top models, pedreiras, prostitutas. Pessoalmente, pra mim, quem se diz feminista e prega manualzinho (tipo “sou mais feminista que você porque não uso maquiagem”), é uma verdadeiramente grandissísima falácia.

Então, feministas queridas do meu Brasil, casem-se se quiserem, do jeito que quisere, sonhando ou não com o casamento ideal, com o relacionamento ideal, com a vida que vocês pensam que lhes fará felizes!

Só não deixem de fazer a crítica. Sobretudo a si mesmas.