E quando a teoria é quase impossível na prática?

Uma thread na lista de discussão me motivou a escrever esse post. Porque eu a-d-o-r-o post-depoimento!

Pra mim de modo geral é fácil ser feminista no dia a dia. Não tem nada no meu trabalho que me arrepie os cabelos, que afronte meus princípios, que avilte minhas crenças pessoais. E até é interessante, pois muitas das pessoas com quem convivo não tem preconceito com relação ao feminismo, não me vêem como uma lésbica-frígida-mal-amada. Uma das sortes que eu tenho por conviver com pessoas fantásticas, esclarecidas e cultas. Sim, eu tenho o mega privilégio de poder ESCOLHER as pessoas com quem convivo, com quem trabalho, com quem me relaciono em todos os âmbitos da minha vida.

A galera até me chama às vezes para ver coisas que vão me indignar e fazem perguntas, querem saber o que o feminismo pensa sobre tal coisa, como nos posicionamos, o que falamos sobre determinado assunto. Sei que de certa forma me admiram por eu “saber de certas coisas” e, ter argumentos para defender outras que el@s acabam não podendo defender por não ter os tais argumentos. Virei meio referência, apesar de toda a minha ignorância – estou apenas engatinhando.

Ainda por cima tive a sorte de encontrar um cara super gente boa com relação a minha independência – sim, a autora de posts como Você tem que casar e A tia solteirona está namorando! – com atitudes 100% libertadoras. Não se mete na minha vida, não tenta mandar em mim, nem manipular as minhas decisões. Ele é meio anti-social e odeia sair, e sabe que adoro um showzinho com os amigos, e não se incomoda de eu sair sozinha ou ter amigos homens, etc etc etc… É engraçado porque até vejo que ele fica meio ofendido quando eu cozinho pra ele, porque ele realmente acha que estou fazendo um sacrifício, algo que não é natural para mim, uma feminista-maluca. Não consegue entender que eu gosto demais de cozinhar e isso não significa que estou me submetendo a ele e virando mulherzinha.

O GRANDE problema é… Como proceder quando se convive num ambiente 120% machista-ridículo-infantil-e-absurdo?

Porque a parte que eu não contei até agora é que ele é militar. E está há 3 meses longe de casa, em missão. Obviamente, eu mantive minha vida normal enquanto ele está fora, continuei saindo e tal, no mesmo ritmo e intensidade que fazia enquanto ele estava aqui – ou seja, nada demais. E daí que numa dessas alguém do exército me viu, e sabe comé, mulher de militar não pode sair sozinha, e daí uma fofoca virou uma calúnia (que é crime, viu? #ficadica), a notícia chegou nele em proporções enormes, segundo os boatos eu tava chifrando ele enquanto ele estava fora e blablabla. Eu sei como funciona esse ambiente estritamente masculino cheio de moleques com idade mental de 12 anos, e ele sofreu TANTO bullying, riram TANTO da cara dele chamando ele de corno, que a situação se tornou quase insustentável para ele – e consequentemente para mim também.

Soldados do Exército Brasileiro no Haiti
Militares brasileiros no Haiti. Imagem: Correio da Fronteira

E a pergunta é: como fazer pra ser feminista NESSE dia-a-dia? Porque o problema não é eu, e não é ele, é o *peer pressure* que fode com a convivência.

Daí rolam todas as questões de independência, de ser dona de mim, de não me curvar (é, porque eu NÃO tenho muita espinha para me curvar). É foda você cogitar a hipótese de tolher sua liberdade por causa de TERCEIROS, pessoas com quem você não tem contato algum, que não te conhecem, que nem querem te conhecer. Que simplesmente te julgam como se estivéssemos nos anos 20 – olhou pro lado, é puta.

Pensei muito sobre isso. No quanto minhas escolhas individuais podem influenciar a vida de outras mulheres, podem mudar mesmo que um pouquinho a realidade em que vivemos. E conversando muito com todas as minhas queridas amigas cheguei finalmente a uma conclusão.

Mas eu voto que não, que nós feministas não temos que nos curvar mesmo. Quer falar? Fale. Cada uma de nós que se curva, seja lá por qual motivo for, seja por amor ou por um emprego, ou por medo de criar caso ou polêmica, por medo de ser tachada de chata ou perder “amigos” está fazendo um trabalho super contra-producente com relação a todas as feministas que vieram antes de nós e tentaram garantir a pouca liberdade que temos hoje. É cagar em cima de vidas inteiras que foram dedicadas e ainda se dedicam à nossa causa, a defender nosso direito de NÃO sermos estupradas por andarmos de roupas curtas, de NÃO sermos tachadas de putas por termos amigos homens, de sermos valorizadas em nossa profissão e também em casa. Ainda existe um longo caminho a percorrer para alcançarmos a igualdade que tanto sonhamos, mas essa igualdade começa dentro da nossa própria casa, nos nossos próprios relacionamentos.

Porque a gente sempre fica inventando desculpas, né? Minha primeira desculpa foi: o que eu posso fazer se tô nesse ambiente? Não tenho como lutar contra, não quero perder o namorado e não quero mais ser agredida por boatos e imbecilidades.

É uma situação difícil – como várias mulheres vivem situações igualmente difíceis, onde tem que escolher entre algo que querem e algo em que acreditam – mas agora a resposta fica clara. Vamos em frente, usufruindo dos direitos que já temos, lutando pelos que ainda não temos, e o mundo vai ter que aceitar. E se não aceitar, bem, foda-se, continuarei seguindo meu caminho. E de mulher em mulher que grita a favor de sua liberdade, mais e mais outras mulheres poderão se beneficiar do caminho que está sendo aberto.