Carta a Celmar, Carta a todas Nós

“Querida Celmar, infelizmente não pudemos ouvir teus gritos de socorro na última terça-feira, quando teu ex-marido te perseguiu e com muitas facadas te matou. Teu pedido de ajuda por certo foi entendido pelas pessoas como mais uma briga de casal. E, “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Não é isso que ouvimos falar a vida inteira? E não é essa a forma mais facil encontrada pelas pessoas para omitir-se diante da pavorosa violência contra a mulher que só cresce? Facadas, tiros, tapas, empurrões, amiga que se foi, aumentam cada vez que falta dinheiro no bolso, recrudescem sempre que bate a raiva e a frustração, seja ela pela falta de emprego, de dinheiro ou de amor próprio ferido. Quando **********, pai dos teus filhos, te esfaqueou e te tirou a vida, provavelmente queria matar a motorista de ônibus que vencia os preconceitos e tinha coragem de dizer não. Teus gritos não foram ouvidos porque as pessoas estão ironicamente se acostumando com as cenas de violência doméstica, Mata-se pai, mãe, filho, mulher. E ali, minha amiga, nem sempre funciona. Os governos com raras excessões cruzam os braços e abandomam as suas vítimas. Neste sexto dia da tua morte, que coincide com o Dia Internacional de Combate à Violência contra a mulher, te homenageamos como simbolo das mulheres batidas, esmurradas, esfaqueadas, estupradas, chutadas, xingadas, e mortas. E te prometemos justiça: vamos exigir a punição do teu assassino e de todas as mulheres que como tu, tiveram a vida partialmente ou definitivamente tirada. Porto Alegre, 25 de Novembro de 1996.

Carta à Celmar. Imagem: Arquivo do Coletivo Feminino Plural

Essa carta foi escrita em 1996, por Telia Negrão (Secretária Executiva da Rede Feminista de Saúde), Eneida Brasil (ativista feminista) e Maria do Rosário (hoje Ministra dos Direitos Humanos), na época elas participavam de uma organização que lutava e luta pelos direitos de mulheres e meninas e vivenciaram a perda de uma querida amiga, vítima de violência doméstica. Este texto foi distribuido em um ato público na Carris, empresa onde Celmar até então era motorista de ônibus. Faz alguns dias que estava trabalhando no acervo dessa instituição e encontrei essa carta. Meu trabalho naquele dia acabou encerrando ali, algumas lágrimas rolaram pelos meus olhos ao pensar na Celmar, e  não fiquei pensando somente na Celmar, porque minha mente imediatamente fez relações com tantas outras histórias de mulheres agredias e mortas no Brasil.

Este texto que as amigas de Celmar redigiram, é de 1996, hoje 2011, dói perceber que a fórmula ainda continua a mesma, a mentalidade de que em briga de marido e mulher não se mete a colher, que é justo bater numa mulher dependendo do que ela fez para o marido, continua firme e forte, enraizada na nossa sociedade.  Semana passada uma menina de 14 anos me disse que não deixa o namorado agressor, “porque mulher é assim mesmo né, profi”.

Violência contra a mulher não é piada, não é fantasia de feministas raivosas insatisfeitas que só querem arrumar briga, não é a violência corriqueira urbana; A violência contra a mulher é real, é algo profundo que esta na nossa cultura, na nossa família, nas nossas vidas..

Esse texto de hoje no BlogueirasFeministas de certa forma é uma homenagem a Celmar e um clamor a todos nós, eu não a conheci pessoalmente, mas hoje conheço inúmeras mulheres cujas histórias em muito se assemelham a história dela. Espero sinceramente que nossa luta diária, que nossas revindicações, nossos protestos e a forma como criamos nossos filhos, convivemos com nossos parceiros, colegas, amigos, possa de alguma forma contribuir para que estas histórias tenham desfexos diferentes. Que possamos educar, que possamos dialogar, e fomentar uma cultura de não-violência no nosso dia a dia.

Infelizmente ainda vivemos em um contexto onde a violência contra a mulher é naturalizada e legitimada, temos crianças desde pequenas aprendendo a lógica da agressão. Por mais que muitas vezes fiquemos cansadas, que nos desespere cada vez que vemos uma nova noticia de uma mulher brutalmente assassinada, não podemos desistir. Devemos ter em mente que SIM, o final da história pode ser diferente, a história toda pode ser diferente. Eu acredito nisso e você?

Que homens e mulheres, como companheiros, possam dar um basta nessas situações. A violência contra mulheres e meninas é violência contra todos nós.