Não desista do feminismo

Lá venho eu contar minhas historinhas…

No sábado, em meio a uma reunião de amigos, disse que estaria em São Paulo nos dias 22 e 23 de outubro por causa do Encontro Nacional de Blogueiras Feministas. Um amigo, do qual gosto bastante, perguntou às nossas outras amigas que estavam ao redor da mesa se elas eram feministas, algumas delas titubearam e responderam tendendo mais pelo lado do “não” que do “sim”. Ele respondeu que “ainda bem”, porque, do contrário, iria ter um pé atrás com elas, como se dissesse que elas iriam meio que perder pontos com ele. Depois ele me perguntou se eu era feminista, eu disse que sim, e ele começou a esbravejar, com bastante raiva, sobre como ele acha a palavra “feminismo” péssima, que esse sufixo “ismo” era horrível, que o Movimento Negro não se chama “negrismo” etc. Embora eu não estivesse no clima, claro que foi dada a largada para uma discussão amigável, porém com picos de opiniões mais enfáticas.

Sabemos que, para um número grande de pessoas, o “feminismo” parece ser um movimento que deslegitima o “movimento de mulheres”. Quem se diz “feminista” parece carregar um valor tão negativo quanto quem se diz “racista”, por exemplo. Além de nós, mulheres, termos de travar uma batalha diária para sermos respeitadas e termos igualdade de chances e oportunidades, nós, feministas, ainda temos que entrar em debates para legitimar o movimento feminista e explicar o que a maioria das feministas busca com o feminismo. São dois tapas na cara todos os dias.

Tenho o privilégio de poder participar de uma lista de discussão sofisticadíssima referente a temas como feminismo e tudo o que a ele se relaciona, reunindo e digerindo a cada dia mais informações, apurando o olhar para as coisas que acontecem ao nosso redor. No entanto, em algumas conversas entre familiares e amigos, tenho que, muitas vezes, deixar tudo de lado e começar do zero. “Vamos lá, o que é o feminismo?”. Nós poderíamos estar conversando sobre cinema, economia, viagens ou fazendo qualquer outra atividade, mas ainda temos que usar parte do nosso tempo para conversar sobre as várias facetas que adquirem a opressão da mulher numa sociedade machista e, além disso, tentar, continuamente, legitimar o feminismo. Se eu queria ter nascido num mundo onde nós, mulheres, já fôssemos vistas como iguais perante a sociedade? Queria! Se eu queria ter nascido num mundo em que o feminismo não precisasse mais existir, pois já estaríamos num estágio de igualdade social? Sim, eu queria! Mas, apesar dos avanços, estamos longe disso.

Vez e outra falamos sobre maneiras de desmistificar o feminismo na lista de e-mails e no blog, houve até campanha, e vez e outra temos que relembrar uma noção básica no nosso círculo de parentes e amigos, de que o feminismo é a ideia radical de que mulheres são gente. A recordação disso deve ser cíclica, de tempos em tempos. Nem sempre estamos com a paciência para fazê-lo – e nem sempre o fazemos, mas ela é necessária para nos lembrar do que é importante.

Para mim, o mito mais difundido do feminismo e o que mais afasta mulheres e homens do feminismo consiste na máxima: feminismo é machismo ao contrário.

Resgatando minhas lembranças de escola, em particular das aulas de História, não me recordo de nenhuma aula sobre o movimento feminista ou qualquer capítulo que fosse sobre mulheres em geral. Acredito que, pelo menos no Brasil, não exista um livro didático sequer que contenha capítulos especificamente voltados para discutir o papel das mulheres em qualquer sociedade de qualquer lugar do mundo. Com exceção, talvez, da divisão de trabalho entre homens e mulheres em alguma tribo indígena de alguma parte do Brasil pouco relatada nas apostilas escolares. Uma página, assim, bem singela, apenas para constar e para perguntarem na prova.

Assim como não aprendemos sobre o movimento feminista na escola, tampouco aprendemos através da grande mídia. Feminismo na TV aberta brasileira? Nem pensar. Nas estações mais conhecidas de rádio, nos portais mais acessados da internet? Nadica de nada. Algumas revistas? Aí sim, mas não nas de vasta circulação, que atinja tanto mulheres quanto homens.

Se o movimento é mais desconhecido que conhecido, então, por que o feminismo é “mal visto” por muitas e muitas pessoas? Em outras palavras, o que faz com que essas pessoas pensem que feminismo é simplesmente o contrário de machismo? O que leva, por exemplo, várias mulheres instruídas a negar reconhecerem-se feministas mesmo quando produzem reflexões tipicamente feministas? Por que demonstrar receio e vergonha do feminismo?

Olha, para ser bem didática, tomarei de empréstimo uma definição geral do verbete Feminismo no Wikipedia, ou seja, nada muito sofisticado para demonstrar, novamente, a simplicidade da ideia:

“Feminismo é um movimento social, filosófico e político que tem como meta direitos equânimes (iguais) e uma vivência humana liberta de padrões opressores baseados em normas de gênero. Envolve diversos movimentos, teorias e filosofias advogando pela igualdade  para homens e mulheres e a campanha pelos direitos das mulheres e seus interesses”.

Em termos básicos, é isso. E por que raios, então, o fato de se reconhecer a favor do feminismo constitui motivo de vergonha e, muitas vezes, até gera sentimento de raiva?

Acredito que quando conhecemos o feminismo apenas através de mulheres que se consideram feministas, há de se ter em mente que iremos entrar em contato com uma interpretação dentre as inúmeras interpretações possíveis para o feminismo. Ao tentar entender o porquê de meu amigo estar tão revoltado com o feminismo, vi que ele convive, basicamente, com mulheres que se dizem feministas e que menosprezam homens, que tiram sarro deles, instaurando uma verdadeira guerra de sexos, que querem passar por cima de diferenças biológicas entre homens e mulheres, que querem que apenas os homens lavem a louça, mas que fazem questão de que sejam sempre eles a pagar a conta e essas coisas que estamos cansadas de ouvir. Mulheres que, através da bandeira feminista, procuram impor a sua visão de mundo e sua maneira de fazer as coisas, que é apenas uma visão de mundo e uma maneira de fazer as coisas.

Eu tendo a achar que, assim como o comportamento de muitos políticos afasta inúmeras pessoas da política, o comportamento de algumas feministas afasta muitas pessoas do feminismo. E quando as pessoas se afastam, elas desconhecem, elas não sabem a história do movimento, elas acham que todo mundo que faz parte do movimento é aquilo que elas estão vendo e acabam por tomar o todo pela parte.

Ao ver que eu tinha uma outra visão do feminismo, meu amigo disse que ele não poderia estar tão errado, que essa visão negativa dele sobre as feministas era a visão que o mundo tem das feministas. Nesses momentos, a gente respira fundo e reconhece que isso acontece mesmo e que não são casos tão isolados. Mas em qual movimento ou situação social não há pessoas consideradas chatas?

Lá pelo final da discussão, meu amigo estava muito mais calmo e com um semblante reflexivo. E disse: “Com o seu feminismo, eu concordo”.

Se você, mulher ou homem, quer conhecer mais sobre o feminismo, eu recomendo a leitura de blogs feministas (como estes aqui do seu lado direito), que estão numa linguagem bem acessível e trazem, além de referências históricas, temas do cotidiano. E, sem falsa modéstia, recomendo fortemente este blog que vos fala, o Blogueiras Feministas. Dê uma circulada pelo blog, alguma coisa vai lhe chamar a atenção e você vai gostar.

Não, não desista do feminismo sem ter outras visões sobre o feminismo – e sem dar uma passadinha por aqui! Que tal semearmos essas ideias juntos? Vamos fazer chegar às pessoas… e quanto mais gente, melhor!

*Imagem do destaque: Feminism de Jay Morrison no Flickr em CC, alguns direitos reservados.