Haiti

Texto de Silvia Badim.

O Haiti é um mundo. Lá longe no mar do Caribe, o país mais pobre das Américas finca-se em um pedaço de terra meio mágico, e meio trágico.

Logo ao desembarcarmos no aeroporto de Porto Príncipe, percebemos que adentramos uma realidade peculiar. Nossos olhos demoram em se acostumarem com as paisagens avistadas. O sol é forte, e deixa claro que ali tudo é muito. Esse mesmo sol então adentra a nossa pele, e a realidade haitiana vai, aos poucos, entrando pelos poros.

Haiti, fevereiro de 2012. Foto de Silvia Badim.

O Haiti não tem só recordes americanos de pobreza em sua história. Foi o primeiro país a realizar uma revolução negra neste continente. Um país que conseguiu sua independência através da luta dos escravos com seus ditos colonizadores. Liderados pelo mitológico Toussaint L’Overture, que dá nome ao aeroporto local, os negros tomaram as instituições estatais em 1791, e partiram para uma guerra sanguinária. Fortes e altivos haitianos. Foram bem sucedidos, e sofreram duras repressões francesas, que culminaram com a repressão napoleônica e a morte de L’Overture.

Mas, mesmo com o revés francês, os negros saíram vitoriosos. Mesmo com a ditadura de Papa Doc, Baby Doc e seus comparsas, o Haiti se manteve de pé em suas raízes. Mesmo com o terrível terremoto que devastou o país em 2010, seu coração ainda pulsa. O Haiti é, de fato, um país negro. E com muito orgulho.

Haiti, fevereiro de 2012. Foto de Silvia Badim.

Um país de belezas de recortes geográficos e corpos negros, de cultura e dignidade arraigadas na pele. Durezas de poeiras de casas destruídas, de pessoas amontoadas em esquinas, de busca por qualquer centavo que se puder encontrar. O país está em destroços vistos, tudo pela metade, ou com menos da metade de pé. Sim, tem miséria, e esfacelamento. A miséria tem olhos sedentos e range os dentes. Mas também tem muita beleza de vida. Natureza forte, de gente e de planta, de bicho e de mar.

Haiti, fevereiro de 2012. Foto de Silvia Badim.

Eles sobrevivem como podem, vendendo o pouco que circula por ali. Produzem cerveja e rum, de qualidade indescritível. As fábricas pertencem a elite que ainda possui dinheiro por ali, no topo de um morro de vista bem triste. E, claro, como toda a elite, só sobrevive assim porque tem pobreza. Mas, lá a coisa se agrava porque o Estado do Haiti ainda se reergue. É um Estado cambaleante, sem pernas e braços: anda carregado, com a sombra do perigo de se andar pela força dos outros. Outro ponto perigoso: como lá não tem arrecadação tributária, como se faz distribuição de renda? O país tem sobrevivido de ajudas internacionais, e o altruísmo de bancos mundiais e ajudas humanitárias, neste mundo, é uma faca de dois gumes, bem sabemos.

O que se percebe nas entrelinhas das andanças por Porto Príncipe é que os haitianos têm muito a dizer, mas eles se reservam. Não é sempre que se precisa dizer. Andam de cabeça erguida, com roupas bem passadas e cabelos arrumados. Cuidam do que tem, mesmo que esse ter esteja assim, em pedaços dispersos e corroídos. Eles não gostam de ser fotografados, e tampouco de olhares invasivos. Reagem de forma agressiva a qualquer invasão desavisada. E nos ensinam, mesmo sem sorrisos, que é preciso ter dignidade onde quer que estejamos. E que o pouco pode ser muito. As adversidades não acabam com a cultura. O pouco dinheiro, sofrido, não acaba com a arte. Eles são.

Haiti, fevereiro de 2012. Foto de Silvia Badim.

A violência contra a mulher, infelizmente, tem índices altíssimos neste país. Dentro da Cooperação Internacional Tripartite Brasil – Cuba – Haiti, tem-se trabalhado com este tema, buscando reduzir o número de agressões físicas e sexuais que as mulheres haitianas sofrem, em suas casas ou nos acampamentos improvisados ao longo do país. Em relatório da Anistia Internacional, consta que os casos de violência contra mulheres são altíssimos e os mais diversos possíveis, e incluem estupros com meninas, agressões físicas de alta gravidade, e mortes aos montes. Este relatório aponta que, apenas nos 150 dias após o terremoto, foram registrados mais de 250 casos de estupro nos acampamentos improvisados. A falta de segurança neste país faz com que as agressões não sejam coibidas. E o clima de insegurança feminina se esparrama pelas ruas amontoadas de gente, lixos e poeiras. Além de caminharem firmes para reconstruírem suas vidas, as haitianas lidam com o medo, presente, por todos os locais do país. Um medo de serem violentadas de forma atroz pelo machismo, o mesmo medo que sente qualquer mulher, em qualquer lugar do mundo. Só que lá, esse medo é mais palpável, vizinho, presente sem máscaras ou rodeios.

As escolas, sim, as escolas. É lindo de ver as meninas e meninos caminhando, arrumados impecavelmente, para as escolas que ainda se mantém de pé, e em curso. São como redemoinhos de esperança ao longo da dura paisagem. Caminham vibrantes, felizes, bonitos, para a porta das escolas, com anseio novo de saber. E, talvez, seja lá que o Haiti possa, de fato, se reconstruir. Talvez seja lá, nos bancos em pedaços e nos olhares atentos das crianças, que possa surgir uma nova nação, mais forte e com respeito à mulher.

Autora

Silvia Badim é santista morando em Brasília. Gostando de Nina Simone, Bob Dylan, Billie Holiday e Chico Buarque. Com auxílio dos Mutantes digo: meu peito é de sal de fruta, fervendo no copo d’água.