Do diálogo: a minha resposta para a vida, o universo e tudo mais

Texto de Sharon Caleffi.

Eu sempre gostei de conversar, mas de uns oito meses pra cá minhas conversas começaram a funcionar. Conversando na internet acabamos conseguindo mudar algumas coisas, como na semana passada, quando a Prefeitura de Porto Alegre retirou do Facebook uma campanha duvidosa em “homenagem” ao dia da mulher. Conseguimos construir. O tumblr “Que raio de mãe é essa?”, mantido pelo FemMaterna, grupo vinculado ao Blogueiras Feministas de que faço parte, é uma iniciativa linda de apoio e acolhimento à diversidade materna. Aqui do lado de fora, comecei o projeto “Leitura sem Fronteiras”, onde minha amiga Olidete Rotava e eu montamos bibliotecas de empréstimos livres, na nossa cidade, Pato Branco.

Projeto 'Leitura Sem Fronteiras' no cartório Pedro de Sá Ribas em Pato Branco. Foto de Sharon Callefi.
Projeto ‘Leitura Sem Fronteiras’ no cartório Pedro de Sá Ribas em Pato Branco. Foto de Sharon Caleffi.

Confissões de uma ativista do conversê

E tudo que faço hoje, tudo o que consegui, começou com uma conversa. Ao vivo, por telefone, pela internet. Uma amiga tem uma frase ótima: “os portadores de boca sempre vão se achar no direito de falar”. Quero usar meu porte de boca, de dedos, de mente para construir. Sozinha eu não conseguiria fazer nada tão rápido assim. Então, esse texto é um depoimento feliz de quem vem conseguindo coisas lindas só batendo papo.

E você usa o seu porte de boca pra quê?

Eu uso para conviver. Pra isso meus pais me ensinaram a falar. Não existe convivência sem que se conheça com com quem se vive. E não tem forma de conhecer a não ser a conversa. Mas conviver não é só saber sobre a outra pessoa. É fazer coisas junto com ela. Viver na mesma casa, na mesma cidade, trabalhar junto, fazer uma piada, um blog, uma ong, um evento, virar ativista, virar artista! Sempre que é preciso algum resultado que envolva outra pessoa é preciso conviver. E então a gente precisa conhecer e conversar. Ou conhecer conversando, daí o diálogo. Essa é a minha resposta.

42 é o número de ideias divergentes sobre um assunto

Quando a gente entende a conversa como um instrumento para que uma união funcione, ela fica diferente. Não estamos conversando para convencer o outro, debatemos para descobrir onde pensamos igual, em que pontos apenas as palavras é que são diferentes. Descobri que nunca estamos de lados tão opostos assim. Outra amiga fala do “mundo fantástico do binarismo”. Perceber que os pontos de vista são muitos (42!) abre o caminho para a tolerância e o acolhimento. Se a solução ainda não chegou, é porque ainda está faltando um ponto de vista.

A gente só se sente vivo quando faz

Eu gosto tanto de conversar porque é um dos momentos em que me sinto mais viva. Essa história de “muito papo e pouca ação” não existe. Falar é agir. E, se pensarmos bem, “muita ação e pouco papo” é até pior. Só é possível acrescentar ao trabalho em conjunto quando se fala a mesma língua, quando se pensa junto no trabalho de cada um. Conhecer, conversar e começar, portanto.

Você, eu, a galera: um bando de animais. Sociais.

Um amigo já chegou a me falar que não acreditava que o homem era um animal social, porque via essa destruição toda que a gente faz quando se junta… a sociedade, para esse cara (naquela época, no início do século, hoje ele pode pensar diferente, não sei), era o maior mal de todos. Talvez, para ele, se o homem vivesse sozinho seria melhor. Sem guerra, sem disputa, sem crime. Cada um no seu quadrado, sem ninguém. Mas quando eu estou em plena conversa, no meio do debate de ideias eu percebo que não. E aí eu encontro a resposta que eu não consegui dar naquele dia. Que é em sociedade que temos que viver, que é na sociedade que somos melhores, somos grandes.

Debate no Festival Mulheres no Volante (2012) em Brasília. Foto: Mulheres no Volante no Facebook.
Debate no Festival Mulheres no Volante (2012) em Brasília. Foto: Mulheres no Volante no Facebook.

É em sociedade que somos super humanos

Mas para o mal também, Sharon? Sim, infelizmente podemos ser um time de vilões também. Mas eu não acho que a humanidade (o conjunto de todas as pessoas, de todas as ideias, de todos os times, os heróis e os vilões) seja ruim, seja má. Alguns times, algumas ideias, alguns agrupamentos são ruins, mas isso acontece justamente quando eles não se percebem parte dessa humanidade toda. Não é?

Eu confesso!

Então que eu me sinto super humana quando vejo o resultado de um trabalho em conjunto. Desde uma apresentação sobre baratas em uma aula de português no segundo grau, ou quando, no RPG, invadimos e desmantelamos um covil de bandidos sem que nenhum dos nossos personagens se machuque. Hoje sou viciada em conversas, viciada em gente, viciada em equipes. A ponto de não querer mais trabalhar sozinha em coisa alguma! Alguém quer escrever no meu blog comigo?

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Agradecimentos à Fabiana Nascimento por “mundo fantástico do binarismo” e à Stella Zanchet por “portadores de boca”.