O imaginário de princesa e as festas de 15 anos

Texto de Karen Polaz.

Ultimamente, o imaginário de princesa tem sido tema de discussão na blogosfera feminista. Aqui, no Blogueiras, publicamos o ótimo texto da Ludmila Pizarro: Reflexões de uma mãe feminista sobre a cultura das princesas. Poucos dias depois, a pesquisa da antropóloga Michele Escoura teve ampla repercussão nas redes sociais: Princesas da Disney moldam feminilidade em crianças. Ludmila compartilhou seus pensamentos e ideias de mãe feminista sobre a forte influência que a cultura de princesas exerce sobre as meninas. Já Michele tratou, em seu estudo, de como o imaginário dos contos de fadas e princesas, reforçado pelos filmes da Disney, serve de referencial do que é ser mulher para as garotas.

Ainda em 2012, iniciei uma discussão em nossa lista sobre como essa cultura de princesas estava atrelada à tradição das festas de 15 anos para as meninas. Antigamente, as festas de debutantes consistiam num rito de passagem, ocasião em que se oficializava que essas crianças se tornavam mulheres e, portanto, poderiam namorar e usar roupas de adulta, por exemplo. Também serviam para apresentar as adolescentes à sociedade – a palavra francesa “debutante” significa iniciante ou estreante. Os tempos mudaram e parece não haver dúvidas de que, hoje em dia, os tradicionais motivos para a realização das festas de 15 anos não são mais os mesmos e nem se justificam. No entanto, a comemoração das debutantes segue viva e atuante como nunca.

Há quem diga que as festas de hoje passaram por um esvaziamento simbólico de seu significado original e se transformaram em megaeventos de pura ostentação. Pelo menos entre os grupos sociais médios e altos, não são poucas as famílias que optam por bancar uma comemoração de grande porte a custos elevadíssimos. Há meninas que começam a se programar um ano antes da festa, até para conseguir vaga no salão no dia desejado. Durante os meses que antecedem a festa, as garotas avaliam catálogos de convites, decoração, vestidos, buffet, doces, banda, barman, inclusive levando dúvidas e sugestões para a escola, a fim de discutir preços com as amigas e ouvir suas opiniões. Mães, pais e filhas não estão sozinhos, pois existe uma gama de empresas e profissionais autônomos especializados em cuidar da organização e levar em conta os mínimos detalhes.

Thiago Fragoso foi um dos príncipes do baile de debutantes promovido pela UPP da Providência. Foto de Rafael Moraes / Extra
Thiago Fragoso foi um dos príncipes do baile de debutantes promovido pela UPP da Providência. Foto de Rafael Moraes / Extra.

O imaginário de conto de fadas, por sua vez, permeia todo esse processo, bastante evidente no vestido longo de saia bufante, em geral cor de rosa. Em muitos casos, a coroa é um dos adereços mais característicos da debutante e já ouvi boatos de mães e pais que não se furtam a reproduzir o ambiente de castelo na decoração da festa. O símbolo maior talvez seja a figura do “príncipe” que vai dançar a valsa com a aniversariante. Quem tiver namorado, quase sempre escolhe dançar com ele. Quem não tiver, pode aproveitar o momento para convidar o rapaz que considera um “colírio” ou, dependendo do interesse e da condição financeira familiar, contrata um modelo ou ator famoso.

Dentre a população de baixa renda, por exemplo, o sonho da festa de 15 anos e da valsa com o “príncipe encantado” não está adormecido. Pelo contrário. No Rio de Janeiro, inclusive, algumas UPP’s realizam grandes bailes de debutantes para as garotas da comunidade com direito a ator global como príncipe e tudo. Como visto na reportagem de dezembro de 2012: UPP providencia baile de debutantes. Para uma das mães desta reportagem, a festa de debutante da filha no Morro da Providência foi “a realização de um sonho de 15 anos”.

Como se vê, o gosto pela ostentação dos megaeventos não é intrínseco apenas aos grupos ricos, acontece que são eles que dispõem de mais recursos financeiros para colocar fantasias em prática. Numa sociedade capitalista como a nossa, demonstrações de poder e status fazem parte do cotidiano de todxs nós, independente de classe social. Seja na compra de carros, roupas de marca e aparelhos eletrônicos modernos, também nas festas de 15 anos é evidente que existe um aspecto intenso de ostentação material, de cada garota querer fazer melhor que a coleguinha.

A ostentação, porém, assume múltiplas formas. Costumo dizer que todo mundo deve conhecer alguém que ostenta “conhecimento”, títulos acadêmicos e idiomas falados e acredita que esteja fora do circuito de ostentação, apenas por não se tratar diretamente de bens materiais – embora seja necessário dinheiro para obtê-los. Ostentação é comunicação e está longe de ser vazia de significados morais e simbólicos. Ostentar, portanto, mantém-se na ordem do dia e nos informa a que veio.

Assim sendo, a maioria das meninas que opta por realizar grandes festas de 15 anos, ainda que influenciadas pelas amigas ou pelos pais, não me parece apenas querer ostentar por ostentar ou seguir a tradição por seguir, sem sentir nem pensar no significado daquele ritual. Se fosse uma tradição que não gerasse prazer, acredito que não teria tantas adeptas e não mostraria tamanha força. Sem contar, ainda, que o simbolismo das festas e comemorações também causa bastante interesse e alvoroço. Aquele clima lúdico de participar dos preparativos, de ajudar na confecção do que quer que seja, povoa o imaginário de muita gente e pode despertar lembranças de certos momentos da vida, como a infância.

Dito isto, acredito que as mega festas tenham mais a ver com a centralidade que os filhos vêm tomando na vida das mães, pais e dos adultos em geral. O imaginário da princesa nas festas de debutantes, para as meninas, cumpre esse papel: de ser uma garota “especial”, mais especial que as outras – nem que seja por um dia. No dia da festa, todas as atenções dos familiares e convidados são voltadas para uma única pessoa, fator que gera prazer e uma sensação de merecimento de tamanha deferência.

O ponto que me intriga nisso tudo é que o sentimento de “ser especial”, para as meninas, está tão preso à ideia de se assemelhar a uma princesa que parece não haver referencial alternativo. Quase não há espaço para ser especial de outras formas, encarnar outros projetos de vida que não aqueles relacionados a padrões estéticos de beleza e de comportamento dominantes. E, talvez mais importante, aí encontramos manifesta “a necessidade de vínculo conjugal da princesa com um príncipe”, como constatou a antropóloga Michele Escoura em sua pesquisa.

Nesse sentido, as festas de 15 anos são tão causa e consequência do imaginário de princesas e príncipes quanto o casamento. Para as meninas, as festas de debutantes estão longe de serem comemorações de aniversários comuns, como os de 14 ou 16 anos. O ambiente de megaevento, preparado com meses de antecedência, do vestido, da coroa, das quinze amigas, da valsa com o pai e, depois, com o namorado/príncipe são similares ao dos rituais de casamento: megaevento, vestido, grinalda, madrinhas, entrada com o pai ao encontro do futuro marido/príncipe. Para Michele Escoura, ainda em relação às meninas focalizadas em seu estudo: “a imagem das princesas é totalmente dependente do príncipe, e apesar das grandes diferenças nas narrativas, a realização de si enquanto um exemplo de feminilidade só é completa após o casamento ou a sua sugestão”. Pois é…

Não negligencio o fato de existirem garotas que se empolgam com as festas de debutantes e não sonham em se casar, que preferem ganhar uma viagem de aniversário a investirem numa big festa, que consideram os 15 anos como um aniversário qualquer e/ou que se revoltam com os contos de fadas. Mas me parece evidente que a maior parte das meninas cresce em meio ao imaginário de princesas e acaba por tomá-lo como o único referencial possível de realização de sonhos e busca da felicidade.

Faço coro à Michele Escoura e Ludmila Pizarro, quando defendemos que as meninas possam sonhar não apenas com castelos e príncipes encantados, mas também com uma infinidade de figuras humanas, cada uma com suas particularidades, dissabores e delícias. Fica o apelo para que os meninos, por sua vez, não excluam definitivamente a opção de poderem brincar de princesas (de boneca, de casinha, de cabeleireiro e do que quer que seja). Tenho certeza que tem muito menino e homem adulto por aí com vontade reprimida de usar vestido, de fazer as unhas, de usar maquiagem, de adentrar esse universo cheio de cores que costuma se restringir às meninas e mulheres.

Tenho comigo que as histórias únicas devem ser evitadas, mas tem que haver um esforço coletivo para colocar outros mundos em ação e para que não seja tirada de ninguém a possibilidade de, pelo menos, imaginar.