A Marcha

Texto de Jamil Cabral Sierra.

Por todas as vidas abjetais, sujas, disformes, oprimidas, violentadas, humilhadas, não-assimiladas, estranhas, esquisitas, desfamiliarizadas, corrompidas…

As mulheres marcham.

Por todas as vidas que deixam de reconhecer-se nessa ou naquela identidade, nessa ou naquela qualidade, nessa ou naquela letra, nessa ou naquela forma, nesse ou naquele desejo, nesse ou naquele esquadrinhamento…

As sapatonas marcham.

Por todas as vidas que inventam-se nas formas e nos modos contra-sexuais, que questionam o lugar do sexo como oráculo da verdade, que desconfiam de todas as formas de desejo, que deturpam a normalidade e a explodem em purpurina cor-de-rosa, que dissolvem feito ácido o heterocapitalismo, o sexismo, o machismo e o racismo…

As negras marcham.

Por todas as vidas que desconfiam, perpetuamente, de nossos corpos, de nossas identidades, do reconhecimento de gênero estabelecido pela heteronormatividade, que pulverizam as características hegemonicamente estabelecidas do que é ser homem ou mulher, cis ou trans*, feminino ou masculino, que liquidifica os lugares nos quais aprendemos a nos encaixotar, enquadrar, limitar, configurar e render…

As trans* marcham.

Marcha das Vadias do Rio de Janeiro 2013. Foto de Natássya Carvalho no Facebook.
Marcha das Vadias do Rio de Janeiro 2013. Foto de Natássya Carvalho no Facebook.

Por todas as vidas que desterritorializam suas genitálias, que as deslocam, que as hibridizam, que as redimensionam na interação com todas as próteses, acoplamentos, acessórios, que as sintetizam na matéria inorgânica, que as reinventam na resina e nos compostos manipuláveis, que as criam nos lugares improváveis, que as transformam num local de prazer e de luta, de tesão e subversão, de gozo e contestação…

As bichas marcham.

Por todas as vidas que subvertem as relações tradicionais de parentesco, que inventam formas imprevistas de convivência íntima, que produzem afetos e amores dissociados dos contratos heteronormativos e de inclusão de nosso tempo…

As amantes marcham.

Por todas as vidas que maculam os regimes políticos de inclusão neoliberais, que deslocam com vigor as práticas de governamento que insistem em nos conduzir, que esgarçam a vontade de pertencimento e ferem sem dó os apelos normalizadores que que nos seduzem, nos objetivam, nos excluem, nos matam…

Todas as vadias marcham!

—–

Jamil Cabral Sierra

Jamil Cabral Sierra é professor da UFPR, pesquisador na área de Gênero e Diversidade Sexual e, como não canto, não danço, não atuo, não toco nenhum instrumento, não pinto… nem bordo (só às vezes), não desenho e não esculpo, resta apenas inventar-me na/pela escrita. Uso os caracteres como arma de guerrilha.