Por um feminismo que liberte todas as mulheres

Texto de Daniela Andrade.

Se você decidiu que só vai se relacionar com seres humanos com pênis ou seres humanos com vagina, e mais, se você decidiu que só vai se relacionar com seres humanos com pênis imensos ou pequenos, com vaginas cor de rosa, peludas ou sem pêlos; enfim, se você decidiu qual órgão genital seu parceiro ou parceira vai ter para que você possa se relacionar com essa pessoa, isso é uma coisa, daí a distorcer e dizer que toda pessoa transfeminista OBRIGA que você se relacione com mulher com pênis ou homem com vagina, vamos ter mais honestidade intelectual.

As pessoas trans* já são suficientemente atacadas, marginalizadas e silenciadas pela sociedade. sociedade essa que não dá às pessoas trans* sequer o direito de ter um nome e o gênero respeitados, agradecemos a atenção, agradecemos a colaboração para que sejamos ainda mais deslegitimadas, mas dispensamos.

Que a vagina tenha ao longo dos séculos ganhado atributos dos mais pudendos, inferiorizadores e recriminadores, sabemos! A manipulação das próprias vaginas sempre foi considerada proibida, tabu, pecaminosa, suja (…) ao passo que as pessoas que portam um pênis sempre foram estimuladas a manusearem o seu genital, a exibi-lo a todo momento e para todo mundo, a orgulharem-se dele.

Sabemos que a sociedade é falocrata, e o quanto isso prejudica a vida de tantas mulheres. Acredito em um feminismo que empodere as mulheres a lidarem bem com seus corpos, a gostarem deles, a aceitá-los, a demolirem a tese misógina de que o corpo tido como feminino seja um espaço sacrossanto inviolável, o qual só deve ter como finalidade agradar o homem. Ainda que o feminismo tenha falhado em empoderar as mulheres trans*, creio que seja um excelente trabalho das minhas amigas feministas a ressignificação dos corpos e da própria vagina.

Agora, não parta desse princípio para achar que toda e qualquer mulher trans* lida muito bem com o seu genital. Se o seu feminismo não é sobre sororidade, ou se o seu feminismo é sobre sororidade apenas com mulheres cissexuais, seu feminismo é excludente à medida que ele seleciona quem são as mulheres (de verdade), ou as mulheres que devem receber apoio.

Foto de angrylambie1 no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Foto de angrylambie1 no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Para muitas mulheres trans*, lidar com o próprio genital não é algo tão simples como para as demais. Há mulheres trans* que estão há anos esperando uma cirurgia de transgenitalização, muitas morrerão sem ter tido o privilégio de terem uma vida integralmente plena, com um órgão que elas sentem fazendo parte do próprio corpo. Com um órgão que não é um impeditivo de prazer, de auto-estima, de confiança.

Pois assim é o sistema, um sistema excludente que escolhe quais mulheres têm esse direito e quais não tem, um sistema que no Brasil conta com apenas 4 hospitais públicos que fazem essa cirurgia, em que pessoas aguardam por anos a fio em uma fila que não sabem se existe ou não, se chegará a vez delas ou não. Isso, depois de percorrer um longo caminho em busca de laudos emitidos por terceiros, que atestam se você tem ou não o direito de se dizer mulher trans*, se você tem ou não o direito de se submeter a essa cirurgia. Terceiros que não vivem a transgeneridade na pele, mas que decidem por mim, que sabem mais que eu o que significa isso.

E, se alguém se submete à uma cirurgia dessa, tenha certeza, não foi por capricho, não foi por uma vontade qualquer, foi por um sofrimento que deveria ser respeitado e considerado por todos. De outro lado, há mulheres trans* que estão bem com o genital que possuem, pois o ser mulher não está instalado nessa parte do corpo ou em qualquer outra parte anatômica.

E aqui, sempre se incorre na suposta socialização masculina para deslegitimar as vozes das mulheres trans* e dizer que são privilegiadas. Ter sido socializada e ter sido imposto a mim que eu deveria me comportar como um homem, que eu deveria renunciar à minha identidade de gênero, EM NADA ajudou a minha vida. Pelo contrário, considero que eu não tenha tido infância e nem adolescência, fui órfã de pais vivos, não tendo tido amigos e sofrendo muito constantemente com o desamor, com a violência, com a falta de empatia pelo quanto eu sofria e passava vindo dos meus pais, das pessoas na escola, no bairro, dentro de toda a sociedade. Violências que hoje me transformaram em uma pessoa sem família com familiares vivos.

A minha história se repete na boca de centenas de outras mulheres trans* que muito cedo tiveram que abandonar suas famílias. Portanto, essa afirmação que tanto ouço de quem quer inferiorizar mulheres trans*, é por si só criminosa, à medida que partem de uma realidade que supostamente toda mulher trans* iria partilhar. Ainda que as mulheres trans* partilhem de determinadas características, que soframos todas a alguma altura da vida a transfobia de forma tão cruel, muitas vezes mortal — o Brasil responde por mais de 50% dos crimes de ódio contra as mulheres trans* no mundo — ainda assim, somos diferentes e vivenciamos nossa identidade de gênero de forma particular.

É muito cansativo ser CONSTANTEMENTE deslegitimada como mulher, ser vista o tempo todo como uma farsa, um engodo, alguém que está o tempo todo querendo enganar e passar a perna na sociedade — mais propriamente, nos coitados dos homens. Não só cansativo, como um reforço diário para destruir a auto-estima das mulheres trans*.

É algo que as mulheres nascidas com vagina muito dificilmente irão saber do que se trata pois, suponho que ser apontada como homem o tempo todo ou como “traveco” (adjetivo que socialmente significa algo abaixo do humano para considerar alguém que não passa de uma caricatura de gente: quase mulher, quase homem), não seja do cotidiano da imensa maioria delas.

Portanto, antes de acusarem as pessoas transfeministas — ou em última instância as mulheres trans* — vamos reconsiderar não só a forma como a sociedade está nos tratando o tempo todo, como também que vida a gente teve ao longo da nossa história. Grande parte das mulheres trans* foram expulsas de casa por apenas se reivindicarem como mulheres, grande parte das mulheres trans* perderam o apoio de quem deveria amá-las, respeitá-las e tratá-las como gente por apenas se reivindicarem como mulheres, grande parte das mulheres trans* foram forçadas a se prostituírem apenas por se reivindicarem como mulheres.

Se o feminismo prega a sororidade entre as irmãs, talvez — veja bem, TALVEZ — devêssemos lembrar que há mulheres de todas as realidades. Agora, se na sua concepção a mulher com selo de qualidade é a que nasceu com vagina, então realmente não há nada a ser conversado. Se na sua concepção a deslegitimação constante a que as mulheres trans* estão submetidas socialmente não deve ser um problema abarcado pelo feminismo, então, realmente não há nada a ser conversado.

Um feminismo que decide, em meu lugar, que eu não sou mulher, é um feminismo que não só não me serve, como preciso combatê-lo, pois ele não é nada diferente do governo e da sociedade dizendo-me o tempo todo que eu não tenho direito à minha identidade de gênero, que eu não tenho direito aos direitos humanos, à dignidade da pessoa humana – e vamos lembrar que dignidade toca respeitar o gênero que toda pessoa reconhece como seu.

Somos pessoas que são discriminadas com o aval do estado democrático de direito. Para quem, grande parte das vezes, não temos o direito de sermos mulheres, de sermos tratadas como qualquer outra mulher, com suas especificidades. Também somos discriminadas pela ciência, para quem, grande parte das vezes, somos doentes mentais apenas por que nos dizemos mulheres. Já temos estruturas de poder o suficiente nos retirando humanidade, não precisamos ainda mais do seu feminismo para isso.

Agradeço a atenção!

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Daniela Andrade é uma mulher transexual que luta ansiosamente por um presente e um futuro mais digno às todas as pessoas que ousaram identificar-se tal e qual o são, independente daquilo que a sociedade sacramentou como certo e errado. Não acredito no certo e o errado, há muito mais cores entre o cinza e o branco do que pode supor toda a limitação hétero-cis-normatizante que a sociedade engendrou. Escreve em seu blog pessoal: Alegria Falhada. Administra a página: Transexualismo da Depressão. Esse texto foi publicado originalmente em sua página pessoal do facebook.

[+] Textos de Daniela Andrade: A morte e a morte de uma travesti e Meu lugar de mulher trans*.