Copa: ame-a ou deixe-a?

Texto da Equipe de Coordenação das Blogueiras Feministas com a colaboração de Daniela dos Santos Silva.

Hoje acontece o primeiro jogo oficial da Copa de 2014. A segunda Copa do Mundo de Futebol realizada no Brasil, o “país do futebol”. Na verdade, o país do futebol masculino, já que esse esporte é hipervalorizado em relação ao futebol feminino e até mesmo em relação a outras modalidades esportivas. Então, não é de se espantar que um evento como esse gere tantos debates acalorados.

Nas discussões dos últimos dias o que mais temos visto é a polarização, ou se é contra ou a favor da Copa. Porém, sabemos que o ser humano e, especialmente, a sociedade brasileira é complexa, portanto, há muitas nuances entre torcer ou não, para ter Copa ou não.

Sabemos que a mídia usa de manipulação, sensacionalismo, oportunismo e suas variações para pintar o cenário que deseja. Porém, nós que criticamos esse uso, às vezes, também nos utilizamos desse artifício sem nenhuma crítica ou desconfiança.

A chamada do site jornalístico diz: “Manifestantes comemoram gol de Fred durante protesto contra a Copa”. Somos a favor das manifestações, greves, reivindicações e protestos. São ações fundamentais para mostrar que não somos indiferentes as violações de direitos humanos. Algumas de nós gostam de futebol e torcerão pelo Brasil na Copa, outras não. Achar, no entanto, que ser contra a realização da Copa automaticamente significa ser contra o Brasil, é um raciocínio medíocre e rasteiro.

Do lado dos que estão contra a Copa ouvimos frases como:

“Tem 345 milhões nesse país que não tem luz elétrica em suas casas e por isso não vão ver a Copa”.

“Cada grito de gol que você proferir é uma gargalhada de escárnio em relação a todas as pessoas que foram removidas de suas casas”.

Sim, há violência policial e intransigência governamental com remoções e segregação social, mas isso não é novidade decorrente da Copa. Assim como a corrupção não é o único e principal problema de nosso país. Não podemos enxergar as coisas tão separadas.

As pessoas também costumam dizer: “sem Copa vamos pegar esse dinheiro e colocar luz elétrica onde não tem”. Chega a ser ingenuidade acreditar que tudo funciona nessa simplicidade, porque sabemos que não é assim. Ainda temos áreas e muitas pessoas sem energia elétrica, água, esgoto e outros direitos básicos porque é do interesse de determinados grupos que essa situação permaneça. Uma coisa é abdicar da soberania e violar direitos humanos para poder receber um evento, outra é querer que um país seja um paraíso de justiça social ANTES de poder fazê-lo.

Para muita gente, “futebol é o ópio do povo”, esporte é algo visto como inferior. Então, também vemos pessoas que menosprezam investimentos em quadras de esportes em comunidades brasileiras, porque ao jogar a carta da superioridade moral, também se está achando que sabe do que os outros precisam.

Protestos de indígenas contra a Copa em frente o Congresso Nacional. Foto de Joedson Alves/Reuters.
Protesto de indígenas contra a Copa em frente o Congresso Nacional. Foto de Joedson Alves/Reuters.

O outro extremo desse pensamento são as pessoas que estão preocupadas com a imagem do Brasil lá fora: “vamos fazer o que nós sabemos fazer melhor que é ser simpáticos, hospitaleiros”. Não damos a mínima para o que o turista vai pensar do Brasil. Porque não importa o que façamos, o Ocidente (aqui entendido como Europa, Estados Unidos, ricos, brancos e bem nascidos) pensará mal de nós. Pensará porque o mundo é orientado para eles, aquela coisa chamada eurocentrismo que diz que qualquer modo de desenvolvimento que não seja o que eles próprios exportaram para o mundo é inócuo (na melhor das hipóteses), selvagem e incivilizado nas demais.

Mesmo depois de terem feito pelo menos duas guerras mundiais que literalmente mataram milhões de pessoas, terem passado perigosamente perto de dizimar com toda a vida na terra, terem criado e exportado um sistema chamado escravidão que torturou e assassinou milhares de negros e negras por séculos, além de terem criado outro sistema chamado colonialismo que simplesmente transformou a África no que ela é hoje…. as pessoas ainda se preocupam com o que vão pensar de nós, frente isso, essa questão é irrelevante.

Não só a Copa, mas os mega eventos mundiais produzem uma série de problemas para os países que os organizam. Nenhum país que recebeu uma Copa ou uma Olimpíada é zona livre de problemas como desigualdade social e pobreza, nem mesmo países europeus como Alemanha e França. A lógica da exclusão tem prevalecido mundialmente quando o assunto é Copa do Mundo ou outros mega eventos esportivos.

É inegável a relação existente entre os mega eventos e o aprofundamento das desigualdades sociais, além do aumento de situações de exploração. Isso é percebido ao analisar os investimentos que costumam ser realizados para a reestruturação dos espaços urbanos, bem como a forma com que esse processo se desenvolve, beneficiando uma pequena parcela da população detentora de poder econômico. Os processos de reestruturação urbana degradam sócio e ambientalmente os locais, desconsiderando a realidade e os anseios das comunidades que vivem no entorno e nas rotas turísticas dos municípios envolvidos, alterando a sua dinâmica e aprofundando alguns problemas existentes na cidade, como a falta de moradias adequadas e a exploração sexual de crianças e adolescentes.

Ser contra a realização da Copa em nosso país por seus efeitos e consequências nefastas contra a população — em especial a população pobre e negra que vem sofrendo os efeitos do “grande evento” desde que incêndios suspeitos e remoções violentas começaram — é importante e mostra que nem mesmo no país do futebol vamos tolerar violações graves. A sensibilização da sociedade para o problema é um desafio constante, tendo em vistas as questões culturais envolvidas, sendo a mobilização social uma importante estratégia de enfrentamento. Porém, quem protesta por melhores condições de vida e moradia no Brasil não está autorizado a se divertir e torcer por quem (mal ou não, vá lá) representa o país nesse evento?

Quem protesta contra as remoções, a violência policial, a corrupção, o investimento de dinheiro público, as violações à soberania em nome de interesses de uma organização privada, não pode se divertir assistindo a um jogo como farão os demais? Ser contra a Copa, a Fifa, e qualquer resultado disso TEM que significar ser contra a seleção e seus jogadores? Há então apenas um raciocínio possível?

Não vemos contradição, nem hipocrisia ou ausência de coerência. Uma série de combinações aqui é possível: ser contra a Copa e não torcer pela seleção, não assistir nenhum jogo, ser contra e torcer, ser a favor e… cole mais uma figurinha no álbum e vá somando quantas formas de pensar o evento são possíveis. Não é o grito de gol que vai esvaziar ou desqualificar as manifestações. A mídia, a violência policial, a força estatal, a atuação do governo federal, a FIFA e todo o aparato de repressão já tem feito direitinho o caminho para isso.

Quem não torce para a Copa não está contra o Brasil. Quem torce não é automaticamente inimigo do povo. Sabemos que no caso do Brasil a questão é bem mais complexa. Pode ter certeza que vai haver pessoas que foram desalojadas torcendo. É claro que há uma diferença grande na forma que as pessoas que foram expulsas de sua casa vão torcer e as pessoas que compraram ingressos. Ao que parece, as violações perpetradas pelo governo estão mais expostas com a Copa, mas nada é tão simples, por isso é muito triste que as pessoas prefiram delimitar quem é mocinho e bandido. De longe vai ser mais fácil torcer.

Essa exigência de que os manifestantes não possam assistir a um jogo e comemorar uma vitória é mais uma versão do “Ame-o ou deixe-o”. Como disse Idelber Avelar: “dois imperativos dirigidos, em geral, a alguém que não está em condições de fazer nenhuma das duas coisas”.

+ Sobre o assunto:

[+] Copa, gênero feminino. Por Maíra Kubik.

[+] Eu gostaria que tivesse havido Copa. Por Camila Pavanelli.

[+] Não vai ter Copa se não houver direitos. Por Larissa Santiago nas Blogueiras Negras.