Um pilar foi destruído: me apaixonei por uma mulher.

Texto de Thays Ricarte.

Confesso que desde adolescente me interessei por garotos. Nunca passou por minha cabeça ter uma relação intima com mulheres. Então, um dos pilares da minha vida, minha sexualidade estava definida, intocável, inabalável. Podemos dizer que até blindada…

Não digo que o que senti por eles foi uma engano, camuflagem ou qualquer sentimento que implique em não reconhecer que, sim, foi totalmente real. Sou o que sou por todas as maravilhosas experiências que tive. Não se trata de negar o passado. Muito menos de buscar desculpas. A questão é fácil, assim como também é inquestionável o que passou em junho de 2012. A paixão por uma mulher abriu o meu mundo para a o que chamo de “ausência de exclusão”. Não é direcionar o foco, simplesmente não limitar o espectro. Não julgar. Simplesmente ser leal ao que sente. Como? Bom, claro que não existe fórmula.

Foto de Joe St.Pierre no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Foto de Joe St.Pierre no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

A minha experiência foi a seguinte. Com 30 anos me vi por quase 1 ano apaixonada por uma professora do mestrado. Por certo, neguei. Ou melhor, não quis ver. Estava perdidamente apaixonada por ela, mas, claro, colocava justificativas (plausíveis?) como projeção, admiração… menos o que era de verdade: paixão. Até um dia que não aguentei mais. Entre um copo e outro confessei a uma amiga. Eu estava em prantos… Minha amiga não entendeu nada… Ela também achou que era alguma das justificativas… Mas, eu já sabia que não era… E finalmente, depois de 1 anos e 3 meses, escrevi o email mais bonito de minha vida. Uma linda, pura, desnuda e honesta declaração de amor. Era mais uma carta para mim mesma, para que o meu Ego fosse “pastar”… para que eu pudesse colocar em pratica o que minha visão espiritual sempre registrava: somos apenas seres espirituais.

Foi uma experiência maravilhosa. Coloquei naquela tela em branco todos os dias de total angustia, medo, repressão… meu preconceito, único em direção a mim mesma foi dissolvido ali… Chorei muito enquanto escrevia. Ate hoje lembro daquele domingo… Foi libertador… Depois de pressionar o “enviar”, sai para correr…. Coloquei um rap americano no ipod e sai pela praia… ainda caíram algumas lágrimas, mas agora era de felicidade… Finalmente eu tinha me aberto. Finalmente eu me aceitava.

SIM. Aquela declaração não foi para que ela fizesse nada (bom, nos meus momentos mais otimistas imaginava ela batendo a minha porta e “lascando” um beijo de cinema), entretanto, era muito mais profundo. Era EU me despindo do resquício de preconceito que tinha. Não, não era preconceito com os demais. O problema era que nunca tinha imaginado que EU pudesse sentir isso. Eu nunca tinha questionado a minha sexualidade, pelo simples fato de nunca ter despertado nenhum interesse por mulheres antes. Como disse, era um pilar. E a partir daquele momento decidi não mais fossilizar o meu ser… Ser leve e leal aos meus sentimentos. Isso não significa ser indecisa. Totalmente ao contrário. Escolhi ser honesta quanto a minha essência.

Aquela declaração me fez unir o meu ser. Realmente pude colocar em prática o que sempre acreditei: holismo. Linha de pensamento que indica que tudo e todos estão interconectados. Portanto, naquela declaração, ao derrubar aquele pilar, apesar da dor, foi igualmente libertador.

Para todos os que não compreendem como alguém com mais de 30 pode se apaixonar por uma pessoa do mesmo sexo. Ou, o contrário, como alguém que sempre esteve com alguém do mesmo sexo pode se ver apaixonado por outro sexo. A resposta, obviamente, não é por escolha, capricho ou indecisão. Essa pessoa permitiu viver uma vida que, para ela é a que traz a união com a sua essência. Não digo que todos sejam “bi”. Simplesmente, exijo respeito para os que são. Não por imposição, violência, mas por autêntico sentimento de efetiva democracia.

Portanto, o fato de alguém sempre ter sido homo, hétero, ou bi e outros descobrirem isso ao longo da jornada da vida não o faz mais ou menos indeciso. Não é uma questão de escolha. É algo que deve ser respeitado e aceito por uma sociedade que se afirma democrática.

Autora

Thays Ricarte é vegan, biker-urbana, formada em Direito. Atualmente estuda Direito Ambiental.