O lado positivo da feiura

Texto de Jessica Valenti. Tradução de Karen Polaz, revisão técnica de Betina de Tella. Publicado originalmente com o título: “The Upside of Ugly” no site The Nation em 02/08/2012.

Imagem de uma matéria da televisão americana sobre Nadia Ilse. Fonte: The Nation.
Imagem de uma matéria da televisão americana sobre Nadia Ilse. Fonte: The Nation.

Nadia Ilse, uma vítima de bullying de 14 anos de idade, recebeu recentemente US$ 40.000 em cirurgia plástica gratuita da Little Baby Face Foundation, uma organização que ajuda crianças com deformidades faciais. Parece uma história muito boa até você ouvir qual era a “deformidade” de Ilse: Suas orelhas eram um pouco de abano.

A suposta cirurgia corretiva da adolescente de Georgia (nos Estados Unidos) incluiu ter suas orelhas coladas de volta, uma plástica no nariz e uma remodelação no queixo. Esta é a nossa cultura agora: meninas adolescentes pensando que a menor imperfeição percebida — qualquer desvio a partir do que elas veem nas revistas — equivale à deformidade e a necessidade de correção cirúrgica.

Há vários culpados para apontar: misoginia, cultura pop e a indústria da cirurgia plástica, para começar. Mas há também um problema mais insidioso: a noção de autoestima como uma panaceia para as meninas.

Tenho certeza que a mãe de Ilse — que procurou a instituição de caridade que subsidiou a cirurgia de sua filha — estava bem intencionada. Sua filha estava sendo insultada e ela queria que a filha se sentisse bem consigo mesma. E, de fato, a reação de Ilse após a cirurgia parecia indicar que ajudou. “Eu estou linda, isso é exatamente o que eu queria, eu amo isso”, disse ela.

Claro que Ilse se sente melhor sobre si mesma — o mundo é cruel e se adaptar aos padrões de beleza tradicionais pode aliviar o sofrimento adolescente, pelo menos um pouco. Mas esse é o problema em ensinar jovens mulheres de que a chave para a felicidade e o sucesso é a autoestima.

Se o nosso objetivo final para as meninas é simplesmente que elas se sintam “confiantes” — especialmente em relação à sua aparência — então, criamos uma armadilha em que qualquer coisa que faça uma garota se sentir melhor com sua aparência, não importa o quão prejudicial, é uma solução razoável. (Quantas vezes uma cirurgia plástica foi precedida por uma explicação do tipo: “Eu estou fazendo isso por mim!”?)

Pode haver um pouco de controvérsia sobre jovens meninas que partem para medidas drásticas para se sentir bonitas, mas nós nunca parecemos questionar se a ideia de se sentir bonita é um objetivo digno em primeiro lugar. Devemos dizer a verdade às meninas: “Linda” é besteira, um padrão criado para tornar mulheres em boas consumidoras, ocupadas demais chafurdando em autorrepugnância para perceber que somos cidadãs de segunda classe.

Meninas não precisam de mais autoestima ou mantras de como sentir-se bem e amar elas mesmas — o que elas precisam é de uma boa dose de uma raiva justa. Mas, em vez de ensinar às mulheres jovens a reconhecer e a utilizar sua raiva muito justificável, nós dizemos a elas para sorrir e para amar a si mesmas.

Quando eu era mais jovem, eu implorei aos meus pais para me deixarem fazer uma plástica no nariz. Como Ilse, fui insultada na escola e odiava meu nariz tão exaustivamente que eu tinha certeza de que meu rosto era uma afronta às pessoas ao meu redor. Meus pais, o crédito é deles, nunca consideraram me deixar fazer a cirurgia. Eles simplesmente me garantiram que eu era bonita do jeito que eu era. Mas aqui está o ponto: eu sabia que não era verdade. Eu era uma garota esperta, e eu percebi que em comparação com o que era considerado bonito, eu parecia absolutamente estranha.

Como minha amiga escritora, Jaclyn Friedman, me disse uma vez, o problema não é que as meninas não sabem o seu valor — o problema é que elas absolutamente sabem o seu valor na sociedade. Mulheres jovens sabem exatamente quão feias a cultura acredita que elas sejam. Então, quando nós ensinamos às meninas a simplesmente “amar a si mesmas”, estamos implicitamente dizendo a elas para aceitar o mundo como ele é. Nós estamos dizendo que ser bonita é algo que vale a pena ser, quando deveríamos estar dizendo a elas que uma cultura que exige tanto é tóxica.

De muitas maneiras eu sou feliz por ter sido considerada pouco atraente quando criança — há um lado positivo em ser feia. Eu desenvolvi um agudo senso de humor, uma defesa contra as provocações. Eu pensava mais profundamente sobre como pessoas podem ser boas e más. Eu comecei a escrever. Eu encontrei o feminismo.

Não há nada de errado em aceitar o feio. Não há problemas em se sentir inferior — nós não nos sentimos feias ou inferiores por causa de algum déficit na nossa confiança, nós nos sentimos assim porque estamos sistematicamente treinadas para acreditar nisso. Porque a sociedade depende disso. Autoestima não vai mudar isso — a mudança na cultura vai.

Enquanto adulta, eu posso olhar para trás e saber que, assim como muitas crianças, só me levou um tempo para ser quem eu sou. Eu pareço como eu deveria parecer. Mas o mais importante, eu sei que raiva e ação podem ser mais gratificantes do que ser bonita.

Pessoas que promovem a autoestima em meninas têm as melhores intenções no coração. E o amor próprio e autocuidado são certamente objetivos dignos — mas não sozinhos. Porque o que nos faz sentir melhores com nós mesmas nem sempre é o que é melhor para nós, ou para os outros a longo prazo. A vida não deveria ser uma campanha de bem-estar.

Este é um país de merda para crescer, especialmente sendo uma menina. E todas nós queremos dar, às jovens mulheres, as ferramentas necessárias para ter sucesso. Então, vamos ensinar às meninas a sobreviver a uma cultura misógina com um punho, não um sorriso.

Autora

Jessica Valenti é feminista e luta por justiça social com senso de humor. Twitter: @JessicaValenti. Site oficial: http://jessicavalenti.com/