Uma etiqueta e o machismo estrutural

Texto de Luciana Nepomuceno para as Blogueiras Feministas.

Tivemos esse excelente texto no Biscate Social Club: “Misoginia e machismo: pergunte para uma mulher, ela sabe muito bem o que é“; sobre a etiqueta machista da marca de roupas Reserva. Mas ainda tem gente que não entendeu porque ela é machista, então vou tentar mastigar mais um pouquinho.

Um aspecto relevante nessa discussão é que não se trata de discutir as relações individuais e familiares (minha mãe é sensacional, minha mãe não sabe lavar roupa, minha mãe isso ou aquilo), mas de entender o que é o machismo estrutural e como ele se evidencia nessa etiqueta.

“Todas e todos somos socializados na mesma sociedade, certo? Adquirimos, por meio da cultura, uma série de informações consolidadas socialmente. Essas informações nos dizem como classificar e hierarquizar coisas, ideias, pessoas, seres vivos ou inanimados, etc. Embora haja variações nessas classificações e hierarquias dentro de uma mesma cultura, aprendemos em geral as mesmas coisas. Desde sempre, estabelecemos as definições das coisas também pela sua posição em relação às outras. Quer dizer, em grande medida “ser mulher” significa, no nosso esquema de pensamento, “não ser homem”, e vice-versa. Esse esquema de pensamento também associa “ser mulher” e “ser homem” com uma série de características comportamentais, maneiras de pensar, escolhas que se pode ou não fazer ao longo da vida”. Referência: “Machismo estrutural”, oculto e terrível por Marília Moschkovich.

Então, vamos a etiqueta:

Detalhe da etiqueta da marca de roupas Reserva. Foto de Caroline Gê.
Detalhe da etiqueta da marca de roupas Reserva. Foto de Caroline Gê no Facebook.

Destaque para o “ou dê para sua MÃE, ela SABE fazer isso BEM”. Então, tem uma série sutil de valores machistas implícitos nessa colocação. Uma das características de uma sociedade machista é o sexismo, ou seja, usar da distinção masculino vs. feminino para apresentar uma ideia ou argumento e associar atitudes, comportamentos, habilidades ou capacidades a um sexo/gênero específico. Quando a etiqueta sugere que a mãe sabe muito bem como lavar roupa, é exatamente isso que está fazendo, está associando um saber e um comportamento (lavar roupa bem) a um gênero (às mulheres). E não vale o argumento de que não é “lavar roupa” que importa, mas o cuidado. Relacionar cuidado e gênero continua sendo sexista.

Outra característica da nossa sociedade machista é naturalizar um certo tipo de relação social e definir os atributos “intrinsecamente” próprios de cada papel, por exemplo, a família. Mesmo quando a gente é criado pela avó, pelo tio, pela mãe solteira, pelo pai viúvo, por duas mulheres, por dois homens e daí pra frente, quando se pensa em família costuma-se pensar em “papai, mamãe, filhinhos”. Pensamos assim porque somos condicionados a isso. Tomamos como certo e verdadeiro determinado padrão que é, apenas, uma das possibilidades, mas que é construída culturalmente como referência e que temos que nos “ajustar”. E junto a essa imagem naturalizada acopla-se a divisão sexual do trabalho. As coisas domésticas são trabalhos da mulher, o sustento e provimento é coisa de homem. Lavar roupa, é óbvio que uma mãe sabe, como uma mulher poderia ter exercido a maternidade sem cuidar de todas as coisas da casa? Essa aprendizagem que é cultural ser tratada como natural é machista.

E, ainda, e mais grave para mim, a caracterização implícita do que é ser mãe, outra obra do machismo estrutural. O que a etiqueta está “dizendo” é que mães são mulheres sempre disponíveis e que não há nada prioritário na vida delas além do bem-estar dos filhos, incluindo aí parar suas outras atividades para realizar as tarefas domésticas. Não interessa quem é essa mulher, quais são seus interesses, tarefas, prazeres. Ela, mãe, não interessa como sujeito, apenas existe “em relação a”.

Uma manifestação estrutural clara dessa representação do “ser mãe” é que as mulheres são consideradas incompletas, insatisfeitas, não-realizadas quando não são mães. Uma mulher só passa a “ter sentindo” quando exerce a maternidade. Para o machismo estrutural, uma mulher não basta em si mesma. Ela apenas é quando é para o filho. Uma novidade, Reserva: eu tenho vida. Moro a um oceano de distância do meu filho. Se ele tivesse dúvidas sobre como lavar a roupa e quisesse enviá-la pra eu cuidar ia ser um problemão. O machismo implícito nessa etiqueta me diz que não estar disponível para lavar a roupa do meu filho faz de mim uma mãe incompetente. Ou, talvez, uma mulher que sequer mereça o epíteto de mãe. Puxa, vou nem dormir com isso. Opa, vou.

Alguém vai dizer: foi só uma piada. Que é uma das versões da minimização: é só uma propaganda, foi só um deslize, foi só uma brincadeira, foi só uma cantada. É justamente essa coletânea de “só” que caracterizam o machismo estrutural. Que a gente vai deixando pra lá e continua reproduzindo.

É o machismo estrutural que faz as fábricas/lojas de roupas infantis insistirem nos temas cor-de-rosa estritamente pra meninas e em carros e armas estritamente pra meninos como se essencialmente houvesse uma separação de gostos.

É o machismo estrutural que faz a gente perguntar acerca de um comportamento infantil indesejável: “essa criança não tem mãe?” como se fosse responsabilidade das mulheres a educação dos filhos.

É o machismo estrutural que nos faz concordar com a definição “mulher de verdade” como se fizéssemos parte de um grupo homogêneo com papéis pré-determinados.

É o machismo estrutural que faz a gente repetir sem sentir que “homem não chora” e caracterizar todas as mulheres como emotivas.

É o machismo estrutural que faz com que a gente aceite passivamente que cervejas e carros e outros objetos sejam vendidos a custa do corpo das mulheres.

É o machismo estrutural que se apresenta quando a conta da mesa no restaurante é sempre entregue ao homem.

É o machismo estrutural que privilegia os insultos à mulher baseados na sua sexualidade.

O machismo estrutural tá aí, cada vez que a gente escuta: “mas isso é porque você é mulher” como se meu gênero me definisse. Então, a etiqueta da Reserva não é só uma brincadeira que a gente não curtiu. Ela se inscreve em um discurso violento e cotidiano que oprime mulheres. Todos os dias repetido:

Reedição do ‘Manual de Boas Maneiras para Meninas’ (1926), do escritor francês Pierre Louÿs, que faz parte de uma coleção de clássicos da literatura erótica patrocinada pela Devassa publicado em 2006. Esse trecho do livro foi questionado por fazer referência a estupro.
Campanha da cerveja “Devassa-Tropical Dark” veiculada nos meios de comunicação brasileiros nos anos de 2010 e 2011. Em 2013, o Ministério da Justiça anunciou a instauração de um processo contra a cervejaria Devassa por causa dessa propaganda.
Anúncio do console de videogame Playstation Vita com a frase: “Duas faces táteis, o dobro de sensibilidade”, referindo-se à tela de toque do portátil e ao painel de toque traseiro e comparando o produto a uma mulher com quatro seios.

Como disse a Caroline: não passarão. Vamos ficar por aqui relembrando: essa etiqueta é machista quando trata com sexismo e essencialismo as tarefas domésticas, quando naturaliza os papéis sociais relacionados à família e quando implica em uma representação restrita da maternidade.