O carnaval de Berlim: entre festa popular e culto ao exótico

Texto de Tai Linhares para as Blogueiras Feministas.

“Vamos lá, vamos fazer bonito. Estou orgulhosa de vocês!”, todos batem palmas após as palavras de motivação da coordenadora de um dos grupos que participa pela primeira vez do Carnaval das Culturas de Berlim. Mesmo sem nenhum apoio financeiro, a associação dedicada a falantes da língua portuguesa ensaia às pressas sua coreografia na Urbahnstraße, ponto de concentração para o desfile que percorreria 3,5 km naquele domingo de pentecostes. Junto à associação lusófona, caminhariam outros 61 grupos, dentre eles, 6 escolas de samba.

O carnaval berlinense teve início em 1996 sob a organização do Werkstatt der Kulturen e com grande adesão da comunidade brasileira. Reafirmando a tradição do samba e do candomblé, o evento foi uma resistência ao desencantamento das ruas do bairro de Kreuzberg. Rápido, o carnaval tomou corpo, transformando-se em festa de rua. Em 2015, o espetáculo foi assumido pela prefeitura de Berlim, depois de desentendimentos com a organização anterior, além de forte descontentamento de 13 grupos veteranos, que exigiam da prefeitura maior apoio financeiro e de infraestrutura.

Minha aventura no carnaval este ano seria única. A última vez que havia desfilado na minha vida foi aos 8 anos em uma parada escolar de 7 de setembro. Duas décadas depois, aqui estou eu em Berlim com uma cabeça gigante de papel machê, uma tradição transversal que une Olinda ao norte de Portugal. O nosso carro de som não tocava apenas Jota Quest, rolaram uns artistas da África lusófona e até mesmo de Portugal. Fiz questão de desfilar para alargar a minha percepção sobre a sucursal berlinense do maior espetáculo da terra. Minhas conclusões compartilho com vocês agora.

Carnaval das Culturas 2014. Berlim, Alemanha.  Foto de Rainer Jensen/dpa.
Carnaval das Culturas 2014. Berlim, Alemanha. Foto de Rainer Jensen/dpa.

Uma volta ao mundo sem sair do lugar

O Carnaval das Culturas é divulgado como a representação ótima da Berlim cosmopolita, símbolo de sua tolerância e paixão por tudo o que é diferente. A vocação “multiculti” da cidade é indubitável, mas vale questionar o porquê da ausência no desfile de representantes das culturas alemã, francesa, suéca e inglesa, por exemplo. Nenhuma moça sequer vestida em dirndl, vestido tradicional da Oktoberfest, nenhuma holandesa em trajes nacionais ou escocês em kilt tocando gaita de fole. O mais perto que chegamos da Europa nesse carnaval, foi através dos bonecos “cabeçudos” de Portugal. A massa do evento foi composta por expressões estereotipadas das culturas latinoamericanas, africanas e asiáticas. A própria presença de países como Tailândia, Coréia do Sul e China, exclui absolutamente a desculpa de que a tradição do carnaval na Europa não seria tão disseminada quanto no hesmisfério sul.

A cultura apta a participar deste carnaval é claramente a cultura exótica, em sua acepção antropológica, a “cultura do outro”. A ideia por trás do evento é tão sedimentada, que a ausência da cultura européia no desfile nem mesmo é questionada. O carnaval das culturas consagra uma tradição eurocêntrica que tem início com os relatos de viagem do século XV e desemboca na ciência iluminista, em que conhecer era o primeiro passo para conquistar. A expressão do colonialismo europeu sobrevive incólume até hoje, disfarçada sob o véu do multiculturalismo. Nesse carnaval, assim como nos “shows étnicos” do início do século XX, o público se acotovela na expectativa de observar o outro em seus trajes, cenários e trejeitos. Se é possível aprender algo sobre os hábitos estrangeiros, não se tem certeza, mas a experiência de certo garante fotos sem igual (basta procurar no instagram a hashtag #kdk, com cerca de 54.000 fotos).

Virei fetiche

Generalizações à parte, quem já viveu na Europa não me deixa mentir: os europeus, ao menos os das grandes cidades, têm uma fascinação enorme por tudo o que é exótico. No pacote da tropicalidade estão inclusos terapias orientais, yoga, permanente afro e, é claro, o samba! No caso da Alemanha, esse fascínio é complementado pela baixa autoestima da geração do pós-guerra que, definitivamente, não se identifica com as tradições de seu país. O fantasma do nazismo torna toda forma de demonstração pública de orgulho da pátria ambígua, lógica que apenas é revertida em tempos de Copa do Mundo. Com esse histórico, não é de se surpreender a quantidade de alemães nas escolas de samba do Carnaval das Culturas. O imaginário do Brasil por aqui é o de povo amistoso, sensual e alto-astral. Com essa reputação, até eu gostaria de ser brasileira (mas, espera aí…).

Como brasileira, espera-se que você saiba dançar samba, como brasileiro, que seja artilheiro até no totó. Se for negro, a ginga e o batuque já vêm geneticamente programados. Já a mulher negra precisa se habituar com as cantadas dos bêbados (boa parte dos alemães são incapazes de demonstrar interesse por alguém sem antes ter bebido uma cervejinha) e com homens e mulheres brancos metendo a mão, mesmerizados, no seu cabelo crespo. Isso serve para alertar que tanto a violência da extrema direita, quanto o fascínio pelas maneiras pitorescas do bom selvagem, são duas faces de uma mesma moeda, embora o europeu médio não veja nenhuma maldade em sua atitude.

Vou citar um exemplo apenas para ilustrar a que ponto esse pensamento irrefletido pode chegar. Assim que cheguei na Alemanha, conheci uma jovem mulher camaronesa que começou a namorar um senhor alemão completamente fascinado pela África. Como refugiada, seu desejo era ter com ele um filho, para que sua situação na Alemanha fosse legalizada. Segundo ela, o homem era ninfomaníaco e, embora morasse sozinho, não permitia que ela dormisse em sua casa. Após um ano de um relacionamento doentio, ela conseguiu engravidar. O pai decorou o quarto, ao seu próprio gosto, com paisagens de savana, colcha de oncinha e elefantes de pelúcia.

O sol dos trópicos nasce para todos

Prevenindo mal entendidos, estou longe da ideia de que toda forma de interesse pela cultura do outro é racista. Acredito sim que uma relação de respeito entre as culturas pode ser constituída. Todos os que procuram se aproximar de forma autoreflexiva da realidade do outro, entendendo os limites da sua própria cultura e buscando o que as outras culturas podem lhe oferecer de novo, estão integrados em uma forma de experiência bastante distante daquela preconizada pelo carnaval das culturas. Como em toda boa caipirinha, o segredo aqui é a proporção.

Do ponto de vista imigrante, no qual me incluo, penso que não é por estar em um país “estrangeiro” que precisemos nos apegar a estereótipos nacionais. É bastante comum que a distância romantize as lembranças, tornando o maior crítico do Brasil no Brasil, consultor de brazilidade na Europa. Sejamos sensatos e deixemos o samba a quem é de samba. Existe uma demanda no exterior pela tropicalidade, cabe a nós mostrar que somos muito mais do que isso: diferentes origens sociais, gostos, sotaques, identidades de gênero e orientações políticas. No Brasil há favelado metaleiro, índio cineasta e mulher que sustenta a família sem precisar de homem. Enquanto nos contentarmos em abastecer a demanda por simplismos, nosso protagonismo estará limitado a um lugar de destaque no carro alegórico.

Autora

Tai Linhares é jornalista e mestre em comunicação formada pela UFRJ. Repórter multimídia, soma experiência em rádio, impresso, fotografia e cinema. É diretora do documentário “Tear”, que conta a história de trabalhadores da Baixada Fluminense perseguidos durante a ditadura militar. Atualmente estuda cinema documentário em Berlim, cidade na qual vive há dois anos.